Ser padre ou missionário um desafio aos jovens




Em Portugal, a carência de vocações ao sacerdócio e à vida consagrada é uma preocupação dos Bispos dos Superiores dos Institutos. Com efeito, o panorama não muito animador é o seguinte, referindo-nos a 1995: padres 3.317 (3.643 em 1990 e 3.724 em 1985; candidatos a padre: 438, com 62 ordenações (em 1985: 313 seminaristas maiores diocesanos e 31 ordenações) – o crescimento é real embora lento; o número de religiosos baixou e o número de religiosas está subindo nalguns Institutos e mantém-se estacionário noutros.

A nível europeu, o panorama é sensivelmente melhor pois ultrapassaram ou estão ultrapassando lá os esquemas de atraso que vivem e fazem ainda a “vivência” dos nossos jovens, sobretudo os que não enfrentam dificuldades na vida e não têm de lutar para sobreviver) e se, de 1978 a 1994, houve uma diminuição de 251 mil padres para 219 mil (13%), aumentaram as ordenações em 37%, de 1805 para 2.429 no ano de 1994. Os seminaristas maiores diocesanos e religiosos passaram de 23.915, em 1978 para 29.511 em 1994 (23%). Baixou o número de religiosos e religiosas nos mesmos períodos.

Optou-se para os candidatos que antigamente frequentavam o seminário menor, continuarem no ambiente familiar. A pastoral vocacional ramificou-se em múltiplas iniciativas experimentais: campos de férias, convívios com comunidades paroquiais, religiosas ou hospitalares; retiros vocacionais; momentos fortes de oração; grupos de acompanhamento vocacional; semanas de sensibilização; formação de animadores vocacionais; fins de semana nos seminários; seminário em família,… Outras iniciativas como centros universitários e o pré-seminário, vão dando seus passos, e completam o leque, mas todos com pouco ou nenhum êxito. Será talvez um trabalho com frutos a longo prazo! Hoje a vida é sedutora em muitos aspectos, carece de valores, navega no vazio e no inútil, foge dos ideais que exigem sacrifício, luta, renúncia, mas que dão a alegria de haver um sentido na vida e a felicidade de serviço à comunidade nas dimensões da fé e da solidariedade humana.

Cremos que, à medida que os anos forem passando, uma nova era, que já despertou lá fora, em alguns países, também chegará ao nosso meio. E já se sente um abandono cada vez maior de “discotecas”, de “boîtes”, de “revistas pornográficas”; multiplica-se nos jornais e na TV a publicidade sobre sexo porque a procura real é cada vez menor”, e isto apesar de termos em Portugal uma comunicação social geralmente comandada por agnósticos ou ateus ou anticlericais. Mas o “Espírito de Deus não dorme” e vivifica a comunidade dos fiéis. A saturação da banalidade e do vazio já é sinal de vida. Ou conduz a viver a fé com firmeza, ou conduz ao suicídio como queda abrupta no abismo do nada ou do inferno (= sofrimento, loucura) que se fez para si mesmo e/ou para os outros. Diz a Sagrada Escritura que “os ímpios arderão como carvões em brasa”. A todos, Deus o tempo suficiente para entrarem “pela porta estreita” da salvação e da vida. Se o homem não quer, Deus deixa-o livre. É ele mesmo que escolhe condenar-se e morre na tortura de não ter feito nada ou de só ter feito mal aos outros nos lugares que ocupou.
Como é diferente a atitude daquele que, como o Papa João XXIII disse aos Cardeais que o acompanhavam na agonia, pode dizer, quando chegar a hora da sua morte: «Morro feliz porque deixo o mundo melhor do que o encontrei».

Ser padre não é escolher uma vocação já ultrapassada, mas escolher uma vocação de serviço, que é o que mais dignifica o homem nos tempos de hoje. É viver um risco sério, de ser diferente na igualdade, porque hoje não se desculpa nada ao padre nesta sociedade anticlerical e antiteísta. Mas vale a pena sê-lo, com a força do Espírito e a amizade e o apoio dos irmãos, a quem não podemos desiludir no nosso pensar e no nosso agir. Eu acredito numa Igreja em que não faltarão os sacerdotes necessários voltados para Deus, servindo a Deus e servindo o homem, com alegria e felicidade, porque lutamos pelos verdadeiros valores evangélicos, ainda que revestidos da fraqueza de todos os homens, como diz São Paulo. Seremos, pela força do Espírito, a força do Evangelho que é perene Boa Nova. O resto são tretas para encher páginas de jornais, para “entontecer os ignorantes”, para entrar muitas vezes cobarde e trapaceiramente na privacidade a que todo o cidadão devia ter direito.

O desafio continua lançado aos jovens que na vida e na comunidade se achem capazes de fazer algo de belo pelos seus irmãos, animados pela força do Espírito. Ser padre, não é para os tímidos, nem para os “eternamente duvidosos”, nem para os que ainda andam agarrados anacronicamente a modos de pensar e de agir que já foram enterrados em épocas passadas. Leccionei História durante mais de dez anos e já vivi ou visitei 80 países! E, se Deus me deu vida e saúde, ainda hei-de conhecer mais. Viajando e conhecendo melhor este mundo em que vivemos, sentimos na nossa carne as necessidades, as dificuldades, as alegrias, as angústias dos vários povos e das várias gerações. O padre, e especialmente, o missionário, é aquele cuja “Igreja doméstica” é o mundo todo. Voltado para o amanhã e para o futuro, e fazendo de muito sonho muita realidade vivida.
Posso hoje dizer que, os melhores anos da minha vida missionária, foram os treze anos passados em missão em Angoche, Moçambique.

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