QUARESMA Ecos de uma recoleção quaresmal em onda carmelitana por Teófilo Minga
QUARESMA
Ecos de uma
recoleção quaresmal em onda carmelitana por Teófilo Minga
Deu-me na ideia de fazer uma recoleção quaresmal, no dia
7 de Março, lembrando as celebrações dos 500 anos da Santa de Ávila. Fui até ao
Centro de Espiritualidade Carmelitana de AVESSADAS, no conselho de Marco de
Canavezes, distrito do Porto. Ali, orientados (estava com outros colegas) pelo
Padre Alpoim, caminhamos durante este dia em companhia de Teresa. Com ela
percorremos caminho e ficamos a saber que o “caminho” ou a “viagem” foi algo de
muito importante para Teresa. Não é por nada que ela afinal ficou também
conhecida
como “la andariega” (a andarilha).
Se Deus quiser, ainda espero fazer outra “paragem” nesta
caminha para Páscoa. Provavelmente na semana santa. Ao longo da viagem, estas
paragens, feitas de silêncio e de reflexão, de intimidade com a Palavra de Deus
e de contato com o Senhor dos senhores, fazem
bem. Ajudam-nos a acertar ou a corrigir a direção caso
tenhamos entrado por aí nalgum desvio que não nos leva a caminho nenhum, que
nos deixa “sem norte” ou simplesmente desorientados. E se estamos no bom
caminho, que normalmente estamos, graças a Deus,
podemos ir ainda mais profundamente à água pura das puras
fontes, para copiar um puco a
linguagem teresiana. Ou abeirar-nos com mais determinação
da Palavra viva que é a palavra
do Senhor. Ou até a entramos numa relação mais pessoal
com Aquele que é o Caminho, a
Verdade e a Vida, através dos sacramentos que nos fazem
renascer e que nos conduzem
sempre a uma vida nova, a uma vida renovada, a uma vida
mais intensa e mais
verdadeiramente “em Cristo”.
Ao longo de todo o dia fomos ouvindo alguns princípios
teresianos sobre a oração que são
muito atuais. Há 500 anos Teresa propunha às suas Irmãs
algo que é muito válido hoje. Ao ouvir o Padre Alpoim parece que era Teresa a
apontar-nos o caminho, falando dos caminhos
ou “viagens” de que falava a santa.
Primeira viagem:
na oração ir da superficialidade à profundidade.
É um convite a percorrer o caminho da interioridade. E a
percorrê-lo na humildade. A pessoa
humilde é aquela que deixa Deus ser Deus na sua vida.
Então a interioridade é uma graça de
Deus. Pode tornar-se uma experiencia de plenitude que se
vive, num primeiro momento “em
solidão” com Deus. Mas num segundo momento alcança os
irmãos: a interioridade desemboca
na solidariedade. Como percorrer este caminho para a
interioridade? Teresa diz ainda três
coisas: 1) caminhar com a mística de olhos abertos: em
cada coisa criada podemos descobrir a
Deus; 2) caminhar com a mística de ouvidos abertos: no
silêncio do nosso coração tudo nos
pode falar de Deus; 3) caminhar com a mística do tato: é
a capacidade de “saber tocar” as
coisas para nelas descobrir ou colocar a Deus.
Segunda viagem: na
oração ir da passividade à criatividade.
Sim, a oração tem a ver com a novidade, a novidade de
Deus em nossas vidas. Deus não se
repete. Constantemente nos “empurra” para novos caminhos.
A tentação humana é a da
inércia, a da repetição aborrecida. Caminhar de um modo
criativo é vencer o medo, a inércia, a
passividade, a desculpa que se baseia no “sempre se fez
assim”… A oração era para Teresa um
tesouro que ainda hoje nos contagia. Um tesouro que nos
traz alegria. A criatividade traz
alegria. Pode e deve levar-nos a sair do espaço da tenda
que sempre habitámos para alargar a
nossa tenda a outros espaços, onde encontramos a beleza
de ser criativos. A criatividade
ensina-nos a acolher a liberdade e a liberdade conduz-nos
a escolhas que se vivem num trato
de amizade com Deus e os outros. A oração torna-se
sinónimo de liberdade e a liberdade
ensina-nos a rezar acolhendo em nós a novidade de Deus.
Terceira viagem:
na oração ir do individualismo à comunhão
A oração é uma relação de amizade com Deus. Mas conduz a
uma relação de amizade com os
irmãos. Para Santa Teresa era claro que esta dupla
dimensão “Deus-Irmãos” está presente em
toda a oração. Entrar em diálogo com Deus significa que
já estivemos ou estaremos em diálogo
com os irmãos. Isto é, ninguém entra na oração se não
entra também em diálogo com os outros. No fundo, a oração sendo RELAÇÃO com
Deus é também necessariamente RELAÇÃO com o nosso semelhante. No nosso
semelhante somos convidados a encontrar Deus. Desde o
início o nosso semelhante é “imagem e semelhança de
Deus”. Relacionar-se com o próximo,
para o homem de oração, para o místico, é relacionar-se
com Deus. De caminho o Padre
Alpoim citava outra grande santa carmelita: Edith Stein.
Dizia: “Fomos criados por amor e para amar”. Não podemos fugir dessa dupla
relação.
Ao ouvir estes ecos de Teresa, pela boca do Padre Alpoim,
dava a ideia de que não estávamos muito longe do que também vai por aí na
espiritualidade marista que temos desenvolvido nestes últimos anos. Temos ouvido
que devemos ser místicos e profetas para hoje, sem deixarmos de ser homens e mulheres
de comunhão. Teresa parece ter detetado o mesmo para os homens e mulheres do
seu tempo há 500 anos. Há tesouros que a ferrugem do tempo não é capaz de
destruir.
Depois a viagem
para a Páscoa tem uma meta: CRISTO RESSUSCITADO.
Olhar para a meta que queremos alcançar é um ponto importante
na espiritualidade teresiana. Creio que será importante em toda a espiritualidade
cristã. Neste caminhar para a meta, pelo caminho encontraremos Cristo,
crucificado e morto. Mas a meta, a verdadeira meta na nossa vida é CRISTO RESSUSITADO.
É junto a ELE que sonhamos e viveremos o nosso destino final de que São Paulo
faz muitas vezes eco ao falar do HOMEM NOVO, da pessoa humana ressuscitada, em
Cristo ressuscitado. Fomos criados para a ressurreição. É a certeza última da
Páscoa de Cristo. É a certeza que nos traz a plenitude da felicidade, da “visão
beatífica”, como aprendíamos no catecismo da nossa infância.
Teófilo, vosso irmão
Ermesinde, 8 de Março de 2015
(Dia Internacional da Mulher e dia de São João de Deus,
Fundador da Ordem Hospitaleira)
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