Jornal O GAIATO Moçambique P. José Maria

MOÇAMBIQUE
Jornal O GAIATO Moçambique
P. José Maria
Artigos para GAIATO

Andar sobrecarregado  com as dificuldades internas, fez-me descobrir e experimentar  porquê os Pobres são as pessoas mais alegres do mundo. O dinheiro não é nada, mesmo quando as carências são muitas.  Há alegrias que o dinheiro não compra, muito embora para muitos não haja outro meio de as alcançar.  Mas essas são falsas. O mundo não conhece Aquela humilde serva que disse: “depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes”. Que acontecerá àqueles que desencadearam a desgraça mundial da fome, miséria do desespero e da morte de tantos irmãos? Serão despedidos deste mundo de mãos vazias.  
Muito antes de chegarem ajudas da nossa Casa de Paço de Sousa, do Calvário e de Setúbal, para as grandes dívidas que tínhamos com os nossos trabalhadores e dois antigos Gaiatos que quiseram sair para tentarem a vida sòsinhos, já andava possuído de uma suave alegria. Aqueles foram não por receio de não manter os seus salários, mas porque temos em Casa, outros já criados aqui, que com muita dedicação os substituem. E não são os primeiros a sair para terem a sua empresa. Continuam como filhos desta Casa e sempre dão aqui um salto se há uma grande necessidade de apoio. E a alegria de receber aqui os mais velhos, já pais de filhos e bem na vida, que chegando se fazem como os outros gaiatos, pegando no trabalho dos mais novos, para mostrar como sabem fazê-lo. O Tadeu, da antiga Cas veio de Portugal, onde foi a convite do antigo Alferes que o recolheu no mato e queria revê-lo, levando-o até onde os dias chegaram. Veio direto do avião para nossa Casa, passou um dia muito saboroso conosco. É o tecnico especializado em máquinas agrícolas, que atende a toda a Nampula, na universidade, na Escola Agro pecuária e a todos os distritos da Provincia. 
Paralelamente tem sido grande a aceitação de rapazes para empregos. Alguns ainda a acabar estudos, outros já em estágio. Não temos rapazes para tanta demanda. E sobram oportunidades para aqueles que estudaram na nossa Escola e aprenderam um ofício, mas da população da Massaca. Moçambique, nesta fase de arranque está a precisar de pessoas qualificadas para a diversidade de trabalho que está a surgir. Isto dá muito ânimo aos de Casa para se empenharem cada vez mais no estudo e com antecipação saberem escolher a sua profissão. Temos já garantias para um eng.º mecânico e um de energias renováveis, que estão a acabar seus cursos na Casa de Setúbal. Uma empresa formada aqui vai montar na casa1o primeiro painel solar de aquecimento de água e já querem rapazes também.
São alegrias que embora geradas com muito esforço, valem mais que todo o dinheiro. Aliás não há verdadeira  alegria gerada sem sofrimento. Jesus passou pela morte na Cruz para podermos cantar a alegria da ressurreição. Mostrou-nos o caminho. 
A alegria que proporcionaram à Sra Ministra da Mulher e Acção Social  que nos visitou e foi encantada com eles e nós com ela. Não nos prometeu nada, porque no seu trabalho os problemas são muitos. A satisfação que trouxeram do Show da Stuart Sukuma, no dia da Criança, em Maputo. Foram os primeiros em palco e deixaram espantado até o próprio artista promotor.           
A festa que promoveram na Escola, durante toda a tarde do 16 de Junho com os colegas da Escola. Um convívio organizado por eles, onde nós os responsáveis, só aparecemos no encerramento, e quiseram repetir os melhores números apresentados e os assistentes vibraram com grande algazarra. Só eu mais velho não aguentei até ao fim, mas colhi e fiquei cheínho da alegria de todos.
E neste fim de semana, outra vez visitados por um grupo de empresários de cá, por iniciativa do Presidente da Academia do Bacalhau, quando à pressa prepararam as suas danças e os seus discursos. Têm sido dias cheios de alegria, autênticos doces para a nossa vida. Alegria que só os pobres sentem e nos elevam Deus em acção de graças por eles. P. Zé MariA M O Ç A M B I Q U E                                 12.09.12




Vou deixar de escrever para o Gaiato, pois estou convencido que ninguém lê o que vem de Moçambique. Há muito que não aparece quem se condoa com a situação desta Casa. Mais uma vez vai o recado. Pelo correio nunca. Só pela Caixa Geral de Depósitos para o BCI, Obra da Rua-Casa do Gaiato de Maputo, conta nº 600 4592 10. 05, swift CGDIMZMA.
 Ando na cidade um e dois dias por semana. É raro trazer uma ajuda das muitas pessoas que já abordei. Nem sequer um Deus o ajude para me consolar dos passos cansados. Ai que se eu tivesse menos vinte anos e as coisas fossem como hoje, hesitaria muito como e onde fazer a Casa do Gaiato. Procurei desde o início ser um testemunho evidente do amor de Deus. Não estou arrependido de nada.
Vivemos ao nível do povo moçambicano que é lançado fora da estrada do progresso pela gula dos grandes negócios. Ninguém dá ouvidos aos gemidos dos inocentes, mesmo quando eles vão parar às cadeias superlotadíssimas. Não há dinheiro para novas instalações penais, nem pessoas para  organizar processos e fazer julgamentos. Há casos que, só por muito mediáticos, vão aTribunal. E fazer cadeias são projectos interessantes  para os parceiros internacionais subsidiarem, aqueles que se preocupam com os direitos humanos. A tais alturas não chegamos, porque tudo passa pelo funil do Governo.
Também nós somos julgados nestas circunstâncias. Notícia da vinda de um ministro, que não chega a vir,  ou outro só depois de vários adiamentos. Só para conhecer, não para ajudar. Outros visitantes, por curiosidade turística, só para ver. Deixam-nos a sensação estranha de que alguma coisa está mal de nossa parte ou deles.
Vamos remando num mar de papeis. Projetos e mais projetos,  correções e esperas no vazio. Só Deus não nos larga da Sua  Mão carinhosa, porque acreditamos fortemente que todo o sofrimento é purificação e vitória. Digo purificação, porque em tudo há corrupção. Se procuramos algum benefício temos de aceitar as leis de mercado: dou para que dês. Saber oferecer, para ganhar. Fátima é um paradigma. Mas Deus não vai por aí. Dá antes que mereçamos, e quanto menos nos dá neste, mais nos reserva no outro. A Elias fê-lo andar no deserto dias e dias e só lhe deu água e pão que os corvos traziam. Já antes esteve três anos a  farinha e azeite que foi multiplicando na panela e na almotolia  da viúva pobre que o acolheu, para escapar à morte. Por dizer o que dizia. Se no Antigo Testamento assim foi, no Novo, a Palavra do Pai diz tudo: dou-vos o exemplo para que façais como eu fiz. Cada vez mais sinto ternura pelos meus rapazes.Os mais pequeninos encantam-me, como os mais velhos que saem com eles do refeitório ao colo. Os que  estão fora veem beijar-me, quando aparecem no fim de semana. É por ser velho, já sei, mas conforta.
            Há em mim um sentimento,  que não quero chamar de revolta, por sermos expoliados da água da conduta. Quando o Governo verborreia o combate à pobreza absoluta, só Deus sabe e nós, a falta que nos faz a água que agora vai  para altos funcionários e amigos. Aliás dizia há pouco um jornalista que não foi àvante o tribunal contra a corrupção na África austral  porque os governantes são amigos ou até do mesmo sangue. Tudo é um negócio entre amigos. Em Fátima a Igreja falou da maratona do amor. Por duas vezes, na história, foi saqueada dos  bens, bens do povo cristão. Porque não fazer também uma limpeza de igrejas, palácios e propriedades em favor dos Pobres?.Não é caso inédito, porque já foi feito por muitasDioceses, no Brasil. D. Helder foi um pioneiro, mas sempre um     M O Ç A M B IQ U E              23.09.12
Hoje foi Domingo. Em nossa Casa todos os dias o são. Para falar fixei-me apenas no Evangelho em que Jesus tenta ensinar os discípulos e os previne que vão descer a Jerusalem e aí será preso e morto, mas que há-de ressuscitar três dias depois. Eles nada entenderam e preocuparam-se apenas em discutir entre si acerca dos primeiros lugares no reino do mestre. Quando chegaram a casa pegou numa criança que aconchegou a si e depois de os censurar pela única preocupação que tiveram durante o caminho, diz-lhes: patetas, quem quiser ser o primeiro, será o último e o servo de todos.
 Isto tem muito que se lhe diga, mas para mim, só vinha a propósito Ele querer ensiná-los  e eles não entenderam nada, nem sequer interrogá-lo. Por isso de doze só se aproveitaram onze. De duzentos e seis que temos ao nosso cuidado dá para refletir muito e fazê-los refletir. Há dezassete, pelo menos, que não vão aproveitar-se. E quem são eles? Aqueles que não querem nem a promoção escolar, nem a formação humana e cristâ que em Casa é uma preocupação constante. Alguns poderiam até já ser apontados a dedo, mas nada de julgar cada um, porque todos estão a tempo de mudar. Aqueles que ainda não adquiriram o sentido da responsabilidade no cumprir as suas tarefas e  no exemplo a dar as mais novos. Aqueles que ainda não têm impresso na alma o sentido da justiça e se desmandam com os colegas. Os que se servem da força e não da doçura para exigir dos mais novos seja o que for. Os que não são capazes de acarinhar os mais pequeninos.
Há que educar a vontade. Quem a não tem, perde todas as oportunidades; quem a tem vence todas as dificuldades. Como damos importância a isto, pondo no refeitório ao lado de um mais velho, um dos mais pequeninos, para que pegue nele ao colo se chora, para ver se é uma urgência ou um birrasinha. Há dias uma monitora da Escalinha,menos avisada, não atendeu um pequenino e eles vieram contar: primeiro fez chichi, depois saíu cócó e assim veio para o refeitório com necessidades satrisfeitas e só ali o que o acolhe à mesa deu conta e foi lavá-lo e vestir-lhe outra roupa. Como dá certa a pedagogia de Pai Américo! Quem ousa contestá-la?
Vivemos uma semana, atropelados pelos acontecimentos. A chuva tão benéfica para as culturas fez avarias nos transformadores, nos geradores de recurso, no material dos quadros, nos cabos subterrâneos e finalmente nas bombas de água. Já tinhamos uma e ficaram três queimadas. As duas mais importantes do campo deixaram-nos sem água para os animais. E enquanto funcionaram trazíamos para casa, com os tractores, dois tanques de água. Um para a cosinha outro para as casas e lavandaria.A aflição é  grande. Mas foi também uma hora de luz. Sem ter com que pagar, resolvemos fazer um furo perto de um poço já começado há dois anos, mas nunca concluído porque o compressor velho, como era avariou e nunca houve dinheiro para peças. Sabíamos que estava a chegar alguma ajuda de amigos de Portugal. O furo foi a 44 metros com um caudal pelo menos de oito metros cúbicos hora e tão boa como a Água da Naamacha, dito por  quem  abriu os furos para essa empreza. Ainda não recebemos os dados técnicos, ainda não recebemos o dinheiro. O Banco ainda não lançou na nossa conta. E já lá vão quase duas semanas que fomos prevenidos Três mil euros andam por lá e nós em seco. Porque só havemos de queixar-nos da crise se tudo passa pelos bancos. Amanhã vai ser o dia passado no banco, porque parece que todo o segredo está dentro da boca de quem lá manda. Estamos fartos do banco. Os primeiros deste mundo não servem e não cabem nos planos de Deus. Eu fico a tremer.  A linguagem do Evangelho não falha “ e se falhasse teríamos de rasgar o Evangelho” Como disse Pai Américo. P. Zé
M O Ç A M B I Q U E        8 de Out,12


 Vão sendo horas de dizer o que nos dão. Nas últimas semanas não tem sido possível ir à cidade, saber dos pedidos deixados, mas penso, mais uma vez, que não é desta. Graças a Deus temos sobrevivido.
É oportuno porém falar um pouco da Carta Pastoral dos nossos Bispos de Moçambique e pelo que vou respigar se pode deduzir, que será dificil entrar nos corações que por cá batem apressadamente, pensando agarrar este mundo, esquecendo o outro. O Senhor “depôs dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes”. Pode começar qualquer dia, aqui e agora. Sem rodeios, mas numa análise que me apetece chamar caridosa, não deva a Igreja ser o sacramento da Caridade, como lhe chama S.to Ambrósio,  reflete sobre  o Moçambique, no decorrer de vinte anos após o acordo de Paz, celebrado no dia 4 de outubro,  publicada antecipadamente a seis de agosto.
Nela se afirma que os frutos da Paz são a justiça e o bem comum. Relembra o tempo trágico em  que todas as confissões religiosas se uniram rezando instantemente na ânsia de ver o conflito armado terminar e se fizeram gritantes apelos aos actores em confronto para ter a coragaem de depor as armas, ao mesmo tempo que procuraram confortar o povo moçambicano para se manter com esperança na hora de Deus, a hora da Paz. Paz que chegou após dezasseis anos de guerra que eliminou milhares de vidas, destruiu o património nacional, dilacrerou e desintegrou todo o tecido social da família moçambicana,  Como frutos contábeis veio uma assembleia nacional, espaço de debate aberto e permanente, uma imagem nova de um país que quer constituir um estado de direito, sair da pobreza absoluta e caminhar na prosperidade. Tornou-se possível a circulação de pessoas e bens, a reconstrução e expansão de algumas infraestruturas sociais e económicas, a liberdade de culto, a livre associação e até uma certa liberdade de expressão.
No segundo capítulo, aponta  constrangimentos e ameaças á paz e à convivência social, divergentes do Acordo na prossecução de fins democráticos e dos interesses nacionais, a necessidade de partidos verdadeiros e não autoritários que calam a maioria esmagadora dos seus membros por disciplina partidária, traçada por uma elite, com medo de expressar a própria  opinião. Isso não promove  a liberdade e os direitos fundamentais das pessoas, não pode  assegurar o futuro da democracia nem assegurar a paz que só terá garantias numa efectiva transformação dos partidos políticos a partir do seu  interior, Como ninguém dá o que não tem… será uma caminhada difícil.
Há uma verdadeira ameaça à paz, quando se manipulam as populações e se arrasta a sociedade civil, algo já estrurada, a olhar para a realidade social de maneira distorcida em detrimento do bem comum. A absolutização dos partidos, o culto à personalidade perigam a democracia e a paz. Os líderes não podem ter atributos divinos,  são  realidades humanas  e passageiras, necessitando de reformas contínuas e críticas construtivas, não podendo por isso  humilhar e reprimir quem as faz. Há um autoritarismo antidemocrático quer quando se afirma que um tal patido é que fez, faz e fará, quer quando outro diz transversalmente ser o pai da democarcia e verticalmente ameaça pegar em armas ou atear o fogo no país. A convivência democrática está ameaçada também, quando se observa o recurso à intimidação e à força para usurpação de bens comuns e até públicos para benefício de grandes projectos, como os do carvão e do gaz ou a oferta de milhões de hectares de terras  a um só país, para desenvolvimento agrário, as florestas a outro,  afastando o povo e privando-o de benefícios ancestrais e até a usurpação é prática comum  das eleites a todos os níveis da administração. Moçambique é para todos os moçambicanos, é livre e independente para todo o seu povo. Não se cuida porém de libertá-lo da sua ignorância e muito menos do analfabetismo dos próprios direitos. Os mega projectos apagam a ligação com a terra, os hábitos de trabalho, a cultura e até a própria identidade. Por outro lado atraem outro povo ávido de lucros deixando um vazio de valores humanos.
É necessário repensar prioridades e valores  sob pena de comprometer a reconciliação, a justiça e  a paz. Fazer contracorrente ao embalo de supermecado para os mais espertos e reconstruir Moçambique como uma casa para os moçambicanos. Com a ganãncia, sinónimo de pobreza espiritual, caem os valores da vida, da fraternidade, da partilha, da reciprocidade, da hospitalidade, do respeito e corresponsabilidade, fontes da cultura do povo e pilares para a construção do bem comum. Superar a pobreza tanto económica como espiritual. É urgente repensar os mega projetos em consonância com os interesses nacionais de preservação da paz, da unidade e da convivência democrática, sob pena de perder toda a identidade cultural do povo.
Educar para os valores da solidariedade, partilha e comensalidade. Esta palavra caracteriza uma vivência muito profunda do povo.   É necessário encontrar uma forma  de assegurar a distribuição equitativa  das riquezas e responsabilidade para com as gerações futuras. Há paises a olhar para Moçambique com tal avidez que já competem na exploração das riquezas do subsolo. São os grandes grupos económicos que levaram a Europa à ruina e não lhes importa que daqui a uns anos a África vire pior do que está hoje, fomentando e alimentando guerras internas sugando todo o sangue para manter as suas indústrias. Numa reunião havida há dias na Africa do Sul foi dito que dentro de pouco Moçambique seria outra Guiné, como pivot central  de droga, contrabando e tráfico de seres humanos. Parece que não é prognóstico, mas sim maquinação estrurada,  por quem? Diga quem já sabe. Os Bispos pedem que a actividade Pastoral priorize a formação dos cristâos para exercerem uma cidadania ativa, ética e responsável na consolidação da democarcia para a preservação da Paz. Será como atravessar descalço a nossa floresta de espinheiras, para subir ao alto da serra. Haja coragem! “ Eu venci o mundo” Disse Aquele para quem o futuro é presente. P. Zé Maria  




                                     M O Ç A M B I Q U E                               14.10. 2012


            “É o coração que mata a gente. Mata, eu sei que mata.” Dizia Pai Américo.O meu tem andado angustiado dia a dia , mas ao mesmo tempo que vivo  a vida de Casa não posso desligar dAquele que faz a ponte com quem pensa nesta Casa e nos duzentos e tantos rapazes a quem preparamos o futuro. E não é fácil saber as tendências e aptidões que se misturam no dia a dia com atitudes, que nos deixam perplexos.Para nós  é tão complicado ser pai de crianças da rua! Só para Deus é tudo simples. Chego a desejar estar com Ele, mas não porque, como muitos me dizem, sou ainda  preciso, mas para  me purificar ou penitenciar de tanto que me concedeu sem fazer tudo para o merecer.
            Chegou a hora de contas das ajudas solícitas que nos chegam em euros. Em junho 33 de um Otelo. Em agosto do marido de uma sobrinha de Pai Américo 500 e pouco depois outro tanto. De umAntónio 200.
             Em setembro Cem de Maria de Fátima e outro tanto de Maria Cecília e de Maria Clara e Maria de Lurdes; o dobro de Maria Fernanda e de Maria Natália 1.000.De Maria da Piedade 500.Os corações das Marias a vibrar.Mães com letra grande. De um José 25 e novamente em outubro. De Manuel Ribeiro 100. De João Francisco 500 e de Joaquim Duarte mil. Deve, ser o nosso antigo prof Duarte do Tojal. Não lhe sei o nome todo, mas pelo muito e pelo tanto que se deu àquela Casa, não me devo enganar. De gente da minha aldeia e das minhas irmãs que lá moram, mais mil e 400 da família de Sines.
            Logo no princípio de Outubro de José Gil 300 e 930 de Licínio Carlos,de eng.º Prieto 3.000, de Bayão Horta 250 com compromessa de voltar. Parece que as coisas estão a aquecer.Todos os meses 5.000 para o funcionamento da Creche, Berçário e Albergue de Ndividuane da Família Domingues da Costa de Algés. Que bênção grande para ela e para todos os que nos abrem o seu coração, pedimos a Deus!
            Também todas as semanas ando em Maputo. Já contamos com duas pessoas que todos os meses nos dão 3.ooo meticais. A Toyota 400 litros diesel e a Petrogal mais quinhentos quando nos abastecermos e quarenta de gaz igualmente. Como estamos em regime de contenção de despezas e não podemos fazer lavouras sem água garantida não poderá  ser todos os meses. Um Amigo ofereceu 5.000 litros de diesel, mas ainda não veio. Mas chegaram seis pneus para os transportes escolares. Do Banco de Moçambique cinco sofás e igual de computadores já usados, mas em serviço. Do nosso Consulado uma batelada deles já antigos mais papel e algum material eléctrico.Da Jinnwalla 40 kg de sabão e 40 litros de óleo, todos os meses Do Mozabanco duas carradas de móveis que estamos concertando para dar destino. Do Sr. Ramos onze móveis em boa madeira para colocar as televisões nas Casas dos Rapazes, em tempo de férias. Uma máquina de fazer bloquetes e um piano Rheinberg-Sönhe. Tão antigo, mais de cem anos. Quando descuidados o desceram do camião desfez-se em pó. Só a tinta mantinha a aparência, como em tanta coisa hoje. Como somos herdeiros de destroços vamos deixá-lo no chão até que possamos fazer-lhe uma caixa nova e dar-lhe vida. Não vamos abandoná-lo por ser velho, como se faz hoje até às pessoas que nos deram vida. Certamente aquele piano animou muitos serões familiares e transmitiu enlevo a muita gente. P.e Zé Maria



M O Ç A M B I Q U E                    19.11.12
Apesar dos pesares, nossa Casa virou uma festa. Na mesma semana em que esteve cheia com tantos que nos trouxeram amisades e esperanças de um novo viver, fomos visitados logo no sábado pelo grupo internacional “Umoja”. Claro que foi na nossa Tenda do Encontro. Como ficam maravilhados quando ali entram e não costumam entrar em Igrejas! Integrantes de oito paises do sul de África e da Dinamarca, entre cantores, bailarinas e bailarinos.Tambores e Timbilas, guitarras acústicas, baterias, flautas,  saxofones e colunas de som que se elevavam a quatro metros. O comando de som,  ao fundo atrás dos bancos. Estes cheios. Dois noruegueses regalaram-se, no meio de toda a gente, com o espectáculo que eles sustentam em digressões pelo mundo. Uma bela e impar afirmação  de energia e confiança no mundo jovem do extremo africano, em harmonia com o extremo europeu. Se toda a África e toda a Europa pudessem ser a Boa Nova para este mundo instável, os portentosos vivendo em cápsulas nucleares de protecção indestrutível, gravitando  à  volta do seu sol, o dinheiro, e uma multidão incontável  de milhares de milhões, de todas as raças e línguas, com a esperança em  eclipse permanente, mudaria certamente a face aterradora do planeta. Eles são o sangue novo da esperança.
Outra festa, o  encerramento do Ano Lectivo. O espaço não pôde conter todos os familiares dos alunos externos. Uma fífia tremenda com a falta de som. Os técnicos da Casa, montaram tantos aparelhos e eram tantos os fios que acabaram por dar bota. Só  no final, quando iam exibir-se, se ouviu e perecebeu. Atuaram sem microfones, como até ali. Abriram os mais pequeninos,cada grupo com a  sua educadora, em danças e declamações e fecharam os do prè  escolar, ataviados com togas e capelos, que entraram e rodopiaram ao som de uma valsa. Depois foi um delírio. Elas e eles em grupos, representando os diversos países, num autêntico desfile de moda, passaram à  frente do altar: Brasil, Japão, India, União Europeia, Portugal, Espanha, Paises árabes, China e Moçambique. Uma simbiose perfeita deste País em construção.A diversidade de trajos foram modelados pela nossa Tia Carmen, que se encontrava atrás do biombo, dando os últimos retoques. Tem sido preciosa a estadia em nossa Casa, vai em mais de onze anos. Na juventude, ainda espanhola, fez parte de um grupu de quatro jovens que terminaram o Curso de Markting na América. Depois trabalhando numa das mais famosas marcas de perfumes, chegou a gerir mais de mil vendedoras, com deslocações frequentes a Londres e Nova York. Casou com um português o “Sam” dos cartuns do Guarda Ricardo e muitos outros. Como engº acompanhou-o na construção da Barragem de Picote. O vinte cinco de Abril desligou-a de tudo. Convidada a activista do PC, explicou que a sua actividade não podia alhear-se do momento político. Analisava simplesmente os programas dos Partidos para as suas parceiras. Foram-lhe caçadas todas as economias em acções acumuladas ao longo de  cinquenta anos. Voltou a ser espanhola após isso e a morte do marido. Depois com o coração inquieto, fez um Curso de puericultura  e veio para nós. Dedicou-se aos mais pequeninos da Casa 1 e a cursos de corte e costura e culinária, pelas aldeias. Os rapazes que tiraram Hotelaria e Turismo, viraram cozinheiros com maior vantagem, pela  sua dedicação. Tudo o que sai das suas mãos é  uma delícia e foi um deleite naquele sábado a exibição de roupas que só mesmo ela podia fazer. Autênticos manequins em desfile. Todos deliraram. Agora, muito doente dos rins, vai ter de ir a Portugal onde tem filhos e netos, para ser operada. Tem sido uma bênção de Deus que só o coração sabe agradecer.Ficam duzentos Rapazes a rezar. P. Zé Maria


M O Ç A M B I Q U E                          31. 12. 12




Neste dia, pelo mundo fora se celebra a passagem do ano com fogo de artificio. Tão fátuo como a grandeza da vida: sobe ao mais alto, brilha em variadas cores como as cambiantes das vidas do mundo e apaga-se. Ao fim parece que o escuro da noite fica mais escuro. Ele resume o sentido da vida neste mundo, que noite em noite se prolonga e afunda numas trevas sem sentido,apesar de ser motivo para uns vagos desejos de bom ano novo. Há só uma Luz verdadeira,e essa também resplandece nas trevas, mas as trevas não a apreendem. Não é pessimismo. Jesus lamentou os judeus a quem quis aconchegar a si, como a galinha faz aos pintainhos debaixo das asas, mas eles não quiseram, nem querem.” Dias virão em que não ficará de ti pedra sobre pedra”. Se isto, das obras humanas, que será dos seres humanos a quem criou à sua imagem para Si?
Este ano, que acaba,fica para a história de nossa Casa. Chegámos ao cimo de um autêntico calvário. As inúmeras dívidas foram pagas, embora até ao início do ano lectivo tenhamos muitas compras a fazer com o conserto dos cinco machimbombos escolares. O primeiro, mais vèlhinho,  já de 15  anos,  anda de cara torta, por causa de um acidente. Os outros quatro têm muito desgaste e ainda restam treze meses mais juros ao Banco a quem solicitámos o perdão, pois já pagámos mais do que custaram. Os bancos são terríveis. Acorrentam o dinheiro para incubar mais dinheiro e as pessoas que o gerem acabam por não ter sensibilidade, mesmo que para promoção escolar de crianças de um país em que se diz que o futuro está nelas, mas com que sacrifício das mesmas ou de quem delas cuida. Parece tudo uma cantiga de propaganda. porque se para invesimentos exteriores juros baixos e isenções fiscais e exorbitantes para o mais necessário e verdadeiro? Até a verdade se compra.
Deus não nos deixou afundar, Humanamente teríamos muitas razões para virar costas e mandar todos os Rapazes para acolhimentos alternativos, como conseguimos fazer nesta quadra do ano, embora sobrecarregando pessoas amigas que os acomodaram com os filhos, outros voltando  à casa da avó que não tem mínimas condições, como milhões delas. O Bongani e o irmão por sinal para uma fazenda de quem mais tem. Ou  o Dércio que o pai levou e logo da rua arranjou boleia para cá e finalmente foi ver o avô que mora para os confins de Gaza.  
Chegamos portanto ao fim do ano, de joelhos dobrados pelo peso da vida, mas de coração palpitante de alegria e acção de graças por tantos amigos generosos que nos deram a mão. P. Zé Maria 





                                                 M O Ç A M B I Q U E                              12.01.13
Estamos num começo de ano. O passado ficou para a história desta Casa. Um ano de sacrifícios, ansiedades, alívio também. O nosso pequeno, mas grande mundo foi abalado, sacudido, sangrado até quase à exaustão. Cada dia terminava conosco a rezar, a pensar no àmanhã. Como será, virão ajudas?
O alerta tinha sido dado.A crise nesta Casa iniciou com a desvalorização da moeda, a perda da água da conduta. Fazíamos abundantes colheitas de milho, soja, girassol e feijão. Mais de tresentas cabeças de gado. Reduzimos para sessenta. Foram-se as vacas leiteiras também.  Trabalhadores  reduzidos para um quarto. Encargos com o despedimento, muito avultados. Ainda devemos. Sem óleo de soja e o resíduo que substituía a carne. Idem de girassol com farelo para rações. Feijão que dava para as mil e quatrocentas crianças das Creches e ainda vendíamos. Milho para alimentação do gado todo o ano. Vivíamos no  equilíbrio.
Os nossos amigos visitantes viam paredes bonitas, meninos bem alimentados. Até um pensava que não precisávamos de ajudas. Tinha ido à Africa do Sul pedir nas Igrejas. Não fui como há anos com nosso Manuel Pedreiro. No entanto as pessoas abriram-se; não foi muito, para o muito que lá devemos. Depois foi na Igreja da Polana. Coração aberto do Pároco franciscano. Não esperava tanto e depois já veio mais e ficou uma fonte a jorrar. Andei pela cidade, emprezas amigas onde compramos. Voltei muiras vezes e fui recebendo. Alguns dão todos os meses, outros deram logo para um ano. Um amigo, depois de me confidenciar que na imobiliária lhe roubaram vinte milhões de usd, disse vou buscar o livro de cheques. Escreveu vinte mil, agradeci pensando em Meticais, mas acrescentou, olhe que são dollars. Foi a maior ajuda. De Bancos cansei-me de subir escadas. Veio o reccado de fazer uma carta à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Não surgiu logo a resposta, mas veio de cinquenta mil verdinhas como se diz aqui. É claro que não chegamos a ver a cor do dinheiro. Porque mal vem logo vai. Até por causa disso tivemos um arrepio do Banco, por oito cheques sem cobertura. Foi um engano. Existir, existia, mas troca de informações,  fez chegar mais depressa aqui a notícia, do que à nossa conta. Veio uma ajuda muito valiosa e escondida duma Associação de Lisboa, logo no primeiro alarme.Vieram ajudas de Paço de Sousa e de alguns pontos de Portugal. Daqui vieram ajudas em alimentação de primeira necessidade, pintos e rações, galinhas poedeeiras e coelhos, roupa e brinquedos. Muitos alimentos que rodam para este ano. Até sessenta carteiras escolares. Uma pessoa do Quénia quis fazer uma doação a uma instituição de crianças. Indicaram-lhe a nossa. Rodou mais de quatro horas para dar conosco. Deixou-nos o que trouxe e o recado de irmos buscar o seu Bmw que lhe tinham estragado por fora e por dentro. Com o desgosto, quis desfazer-se dele. Quase chegou para ao fim do ano termos saldado quase todas as dívidas, mas mais está para chegar da Festa de Natal, promovida na Fortaleza pelo Consulado de Portugal.
            O saldo negativo mais penoso é a cirurgia que a Irmã teve de fazer, no momento mais crítico da subida ao Calvário desta Casa, mas já aliviada da Cruz que carregou, anda de muletas e está a fazer uma recuperação fisioterápica intensiva.
            Aos primeiros dias do ano, podíamos respirar de alívio, levantar as mãos ao Céu e agradecer de joelhos a Deus que nunca abandona os seus filhos e distribuiu abundantes graças por aqueles que foram o Seu coração misericordioso que consolou o nosso, a manifestar-se até àqueles que não andam com Ele. P. Zé Maria.
               
                                         M O Ç A M B I Q U E         11.  02.  13


Nunca a vida custou tanto aqui, a quem trabalha. Nem o sofrimento nunca valeu tanto para os rapazes. Foram, já na sua maioria sofredores, alguns martirizados até, antes de aqui chegarem. Mas hoje é diferente. Estamos embarcados numa aventura cheia de esperanças e sabem que o seu futuro tem um alicerce seguro. Agora começam a saber o que custa viver E isso é diferente neles. Viver dos pais e olhar o mundo como algo que lhes pertence é fantasia. Há dias pedia num supermercado. ”A nossa organização não permite doar o que está no fim de prazo. Vai para a lixeira” Aí eu pensei. Como o mundo é triste. Na lixeira dá comida a mais de mil pessoas aqui em Maputo. Saí vencido pela tristeza e falsidade do comércio dos chamados perecíveis.
Mas o  mundo é dos mais fortes. E quem o será? aquele rapaz que tem tudo, ou o que têm de fazer tudo para comer o pão com o suor do seu rosto? São estes que estamos a levantar do nada. Não lhes falta a comida embora monótona, nem a roupa lavada, para o banho de cada dia, nem a escola, que milhões em Moçambique não têm como a deles, e milhões não terão nunca e ficam pelo caminho, nem os cuidados de saúde.Temos um no Hospital com tuberculose resistente. Estava em Nampula  a estudar. Adoeceu e não havia remédio.Quando nos alertou, estava a vida por um fio. Pedimos ajuda ao Tadeu, gaiato da antiga casa que foi vê-lo e dar-lhe uma primeira ajuda. Foi outro daqui a levar remédio e ficar no Hospital junto dele a fazê-lo comer e dar-lhe o remédio na hora certa. Levou dinheiro para comprar sumo e fruta para ajudá-lo a restabelecer-se até que pudesse viajar para Casa, para a nossa Casa Esperança. Foi a uma nova consulta e teve de ficar internado. Conseguiremos salvá-lo? Já é o segundo. O outro morreu nos braços da Irmã, como já foi contado. Ela agora, já de muletas, anda de reunião em reunião a que é chamada. Chega ao fim do dia com a perna inchada. Não pode parar. Foi o tendão da perna, mas graças a Deus que foi isso que a fez parar um pouco. Podia ter sido na cabeça e aí ficava impossibilitada. A sua força de vontade não deixa transparecer queixumes. As visitas veem e vão sem se chocarem com os dramas de Casa, embora eu não pare de falar.
Estamos agarrados e seguros por Deus como nunca experimentámos até agora. É hora de todos nos agarrarmos com unhas e dentes ao que temos. Um dia os rapazes se sentirão felizes por terem furado sacrifícios que foram alicerce do seu futuro. E nós, intimamente felizes por um dia merecermos o “vinde benditos de Meu Pai”. P. Zé Maria.




                                                   M O Ç A M B I Q U E        24. 02. 13



 Não sei por onde começar nem como acabar. O espaço é pouco e o tempo ainda menos. Fui quatro dias à cidade á procura de ajudas. Algum veio mas esfomou-se. Nestes dois meses do ano, por iniciativa própria só o que me  deram em Portugal. Outro está  prometido, mas estamos quase esganados. O fim do mês está a chegar.Andamos em negociação com o Instituto de Segurança Social, porque faltam sete mil euros.Nem vale a pena dizer mais. Estamos finalmente a remodelar a Casa grande do refeitório e cozinha. Foi preciso desistir de algumas melhorias e diminuir outras para caber no subsídio que nos cancedeu o Ministério da Solidariedade e Segurança Social de Portugal. Há gente que se oferece para vir ajudar, mas nem tempo temos de ler os relatórios e os propósitos que os trazem cá e temos de deixar de lado. Muito menos dinheiro para passagens.
Mas a Casa está cheia de vida. É difícil conter os rapazes. Estão a sair alguns para estudos  profissionalizantes.Não há mãos a medir para atender os pedidos. Mas um está à espera do diploma final há dois anos e a burocracia e as reuniões dos responsáveis(é um Instituto do Estado) não deu tempo para isso. Podemos avaliar o espírito do deixa andar que está por detrás. Institutos há muitos, mais caros e não há com que pagar.. Colheitas de horta, poucas além do necessário para Casa. Pintos, mais de dois mil estamos a vender todos os meses, leitões poucos, vitelos ainda nem começaram a nascer. Pasto não falta este ano. Falta milho porque o povo semeou na primeira chuva e sá passados dois meses choveu aqui, quando tudo estava perdido. Em Maputo foram estragos nas ruas que não vão ser reparadas tão cedo. Chego da cidade ao fim do dia com o corpo moido .
A oração faz o fundamento da nossa vida. Sem ela afundamos.Lenta para entender-se, acentuada para dinamizar a alma, cuidada, para não ser tempo perdido. Deus sabe,mas quer ouvir. E nós temos de saber o  que pedimos, o que é importante, o que é do seu agrado. Só assim seremos acolhidos. Sabemos que Ele não falta. A demora é uma exigência secreta do seu Amor por nós, que nos martiriza antes de chegar ao topo. E assim que os rapazes nos acompanham e nos encorajamos. Estamos juntos. É afinal a vida de tantos que que podem ou não ter Fé. Não interessa julgar. Deus sabe fazê-lo. A nós cabe, vivê-Lo. Foi como Homem que morreu por nós a deixou-nos o exemplo, até à última gota. Nunca nem ninguém será mais Homem do que Ele. Apesar dos vislumbres que os apóstolos viram mas não entenderam, como no Evangelho de hoje. Só depois.
O Gaiato tem sido altar de sacrifícios para vidas sem valor ou escondidas aos nossos olhos.Ai se não fosse o Gaiato, tanto nunca seria feito com tanto amor escondido, como Deus gosta.  P. Zé Maria.   






                                                   M O Ç A M B I Q U E                      10. 03. 13

             Quando vivemos intensamente,  as aflições a subir e a descer e outra vez a subir, e as emoções em crescendo sem darmos conta, há um desgaste físico e mental. Faz parte da vida que se reparte, repete e consome em tudo que é espiritualmente  entrega a Deus.  Podemos pensar que o caminho é este, e não olhamos para trás, mas só para os nossos Rapazes e aqueles que nos rodeiam, com o impulso ardente de mais e melhor. Mas o relógio biológico, se não deixa de bater, alguma vez temos de ouvir. A prudência embora oposta à Providência de Deus, faz-nos pensar: quem toma o nosso lugar? Abandonar-nos à Providência simplesmente, sendo bom, não é. Olhem os Cardeais em Roma, como passam os dias a preparar o Conclave  para eleger o novo Papa. Poderão dizer depois que foi só o Espirito Santo que escolheu? Não têm a razão a favor?
 Ora começamos nesta Casa do Gaiato a entrar no mesmo dilema. Nem falo do Calvário, onde P.e Batista geme a falta de  doadores de corações, para as e os seus doentes. Aqui,  começam a faltar-nos Senhoras que queiram ser mães de muitos filhos, que a não têm. Foram-se duas colaboradoras há dois anos. Vai-se agora a Tia Carmen, que deu o melhor dos setenta aos oitenta, no despertar para a arte e para a culinária os nossos Rapazes e ao artesanato e corte e costura nas Aldeias. Vai doente por nos deixar e porque os rins não deixam de atormentá-la. Carecemos de colaboradores e colaboradoras que sejam capazes de se deixar dilacerar pelos problemas dos Rapazes e os acolher com um coração nobre, porque são verdadeiramente os senhores das nossas vidas. A Obra é de Rapazes para Rapazes e pelos Rapazes, antes de mais. Depois de corações de Fé. De Padres e Senhoras também. Venha um Papa que dê igualdade de oportunidades de serviço à Mulher na Igreja, que ela pode pastoralmente ser muito mais missionária que os padres, não sagrada como eles, mas consagrada mais que eles, muito mais educadora de mentalidades e sentimentos, muito mais capaz de educar outras mulheres que, não queiram os homens, como muitos não querem, são e serão o garante universal mais seguro das gerações futuras. E “ficam muito mais baratas”, para a Igreja ou Comunidades cristãs, como quiserem. Ouvi dizer e guardei, logo à chegada a Moçambique. Pensar de Leigo.
            Vem a propósito o Dia  Mundial da Mulher assinalado agora, por todo o mundo onde ela já tem voz e se faz ouvir. Aqui em Casa, pobre de mim, só quando reparei que as Senhoras de Casa se felicitavam pelo seu dia é que dei conta. Padre é assim. Não sabe dar valor às mulheres. Por isso e porque estamos na Quaresma, tempo de arrependimento para a conversão, aqui vai o meu pedido de perdão, para as Senhoras desta Casa, de todas as  que a serviram e para aquelas que venham fazer parte desta Família cristã.   P.e Zé Maria









M O Ç A M B I Q U E                24.03. 13
Hoje Domingo é de Ramos. Fomos vivê-lo na Massaca como há vinte e dois anos fazemos. Muita gente, como naquele tempo em Jerusalém. Uns só para ver, muitos, em medida diferente, para participar. Vem a leitura própria da entrada de Jesus na cidade. Ele sentado num burrinho. Não sei porquê deu-me para falar do burrinho. Aqui chegámos com Jesus sentado num burrinho e o  burrinho éramos nós. Foi assim que ele chegou à Massaca. Transpuz todo o panorama social para o nosso tempo. A colononização actual, os poderes instituidos, o povo na espetativa a acorrer ao barulho e Jesus montado num burrinho, hoje. Uns a virar-lhe as costas-os interesseiros pelo poder deste mundo. Outros  a odiá-lo por constituir um desestabilizador perigoso- os ricos cegos pelo dinheiro. Os discípulos, meio tontos, com a exaltação do seu Mestre, iam na onda e as ondas tornaram-se medonhas para a Igreja. As Crianças aos gritos, porque era o seu Amigo que ia ali, o  que pegava nelas ao colo e as beijava, como acontece ao chegar ou sair das Creches. Foi certamente um delírio para muitos, mas para outros um ranger de dentes. Com a confusão generalizada, Jesus escondeu-se, até que chegasse a sua verdadeira hora. Também nos apetece esconder.
Vivemos  dentro duma confusão generalizada. Não me refiro a Portugal onde a desordem é para matar.A situação social,  em particular à nossa volta, onde o burrinho segue o seu caminho, encantando a uns e confundindo a outros. dum lado e doutro  a insatisfação. Sempre que precisamos de ajuda pontual, para limpeza da periferia da fazenda, para evitar a entrada de fogos, duma sacha na horta ou nalguma plantação, alguns dos nossos trabalhadores vão ao encontro das mamãs e cada um traz o seu grupo. Por vezes muito numeroso. Mais de tresentas, nesta passada semana. No final há entrega de géneros ou dinheiro, conforme a situação da Casa. Desta feita havia muitas caixas de leite, prestes a expirar o prazo. Houve queixas de que os homens só convidavam amantes ou as mulheres mais apetecíveis, que não as deixavam sair, senão todas juntas, quando algumas saíam de casa à uma da manhã para o trabalho e por isso julgavam-se escraviszadas a eles. Mais outros e outras, hoje já acomodadas no aparelho do Estado, que promovemos durante muitos anos, até que completassem a licenciatura, a quem por vezes pedimos o desempenho de tarefas a bem da Comunidade a que pertencem, veem-nos exigir o que nem está ao nosso alcance. Os nossos próprios rapazes em estudo fora, e morando na cidade, que ao fim de semana eram assíduos à sua Casa, onde lhes pedíamos tarefas de ajuda  aos mais novos, porque tivemos de reduzir os apoios, deixaram de aparecer e nem telefonam. O burrinho está bem carregado e segue o seu caminho aos encontrões, não por hábito, que os burros  aprendem, mas por devoção.
Já estamos chegados à Páscoa. O burrinho já está preso à argola, pelo pescoço. Depois de tantos encontões descontrolados nem podemos respirar. As necessidades atormenta-nos.. Apetece-nos dizer:  Pai perdoa-nos, porqu e não sabemos o que fazer! P. Zé Maria

`A Redação do Gaiato: As. Nova.  D. Odete Amaral
                                                       P O Box 9088   Brentwood Park
                                                       Benoni 1505     
                                                       South Africa




            M O Ç A M B I Q U E                                     07. 04. 13
Hoje é o dia da mulher moçambicana. Um feriado tão importante, que por ser Domingo, passa à segunda feira. Mas creio que mesmo assim, só as que têm emprego gozarão a oportunidade. Por Moçambique fora será para ela um dia como os outros. Levanta-se ainda a noite vai em meio, para tratar do matabicho do homem e dos filhos. Vai à machamba, por vezes a muitos km de distância, com o bébé na capulana. É o seu lugar de trabalho. Como por magia, ali tem verdadeiramente os pés no seu chão, ali é verdadeiramente senhora. De lá traz a comida. A espiga de milho para assar, o grão para desfazer em farinha no pilão, o amendoim, a batata doce, a cacana, a folha de abóbora, da mandioca ou, na maior das penúrias, as ervas do chão que resistem à seca, tudo serve para o caril. Antes de regressar a casa, pela tarde, apanha um feixe de lenha seca, que trás equlibrado à cabeça, com elegância e vai preparar a única refeição do dia. Feita numa panela de barro ou alumínio, põe  água ao lume e quando ferve vai misturando a farinha e mexendo até que o volume da xima chegue para todos. Da mesma panela, com a mão ou uma colher, cada um vai retirando o seu bocado, molhando no caril. Se os filhos são mufanas ainda e foram à Creche, não podem, porque já comeram. Até as galinhas que estão por perto se aproveitam e metem o bico, sem serem chamadas.
            No caminho da machamba, ou em casa se o charco fica perto, lava a loiça, lava a roupa, lava os filhos que a acompanham, que entretanto brincam na lama, alheios aos perigos que traz para eles: a cólera se é tempo dela, a bilharziose, a diarreia sanguínea e até por vezes a cegueira. Tudo se aproveita, mesmo que a ignorância não perdoe.
            E que dizer do seu cantinho que o homem faz para ela e os filhos e para as três ou quatro se as tem? Todas separadas, mas dentro da sebe sempre viva.
 Vem aí uma Pessoa Real que vive e viveu em Palácio toda a sua vida. Pois no seu roteiro quer visitar uma palhota. É a estrutura mais simples e precária, que há na terra. Em regra dura três anos. Se redonda, se quadrada, seis ou mais prumos de micaia trazidos do mato, revestidos com caniço, seguro com um arame e maticados com lama, se o homem é generoso, ou atado só, com uma casca de árvore. Ao centro um prumo mais alto para suporte da cobertura. Dele partem,bem prezas,  pequenas varas de mizenga mais forte, que apoiam nos prumos em volta e uma segunda camada, sobreposta em círculo. Para fecho, vários atados da capim, entrançado ao meio e estendido a toda a volta. Como remate, um molho mais pequeno, bem apertado e enfiado no prumo central. O valor mais relevante é ser de extremo aconchego no verão, mas no inverno entra frio e se vento forte, tomba e cai, porque a formiga roeu os prumos. Dentro, em fios esticados, toda a riqueza: num, calças,casacos e camisas do homem, noutro as capulanas e os lenços dela.No chão batido, as esteiras Os que foram ao John têm mala grande com mantas garridas. São a gala da Casa que mostra com deleite a uma tia ou irmã que venha de longe. Para as visitas há sempre frango, porco ou cabrito para a refeição da festa. Há uma coisa porém que ela esconde debaixo duma árvore, bem fundo na terra: a aguardente para quando ele vem do John. Pode demorar dois anos que a bebida, bem forte de canhú está guardada para ele. E não é pouca: oitenta a cem litros. E se tem quatro mulheres todas  ajudam a primeira a fazer o seu melhor. E vivem na Paz do Senhor que muitos e muitas, tendo o que querem ou mais ou menos, não alcançam. P. Zé Maria




                                   M O Ç A M B I QU E                 21.05.13


Tantas coisas se baralham na minha mente e no meu coração que não era capaz de escrever para o Gaiato. Tudo foi dito. Não está tudo feito. Deus nos tem valido e os amigos, para as despezas imprescindíveis. Há sempre muita coisa para fazer. Há outras que nunca serão feitas. Não porque não sejam necssárias. Não há registo para subir o tom e o som.. Mas há uma que não posso calar. Foi uma alegria a eleição do Papa Francisco. Até parece que sou colega dele para o tratar assim. O Nome, O passado. O Futuro tem um alicerce muito forte. Da América Latina. A Igreja mais comprometida com os Pobres. O arrasto da Teologia da libertação, limpa do cunho marxista e por isso autêntica, terra a terra com os Pobres. A Igreja dos Pobres que são a verdadeira face de Deus no mundo. O descalabro do capitalismo que mancha a um lado, destroi e arraza a outro. A crise da doutrina, servida aos cristãos em palavras palacianas e buriladas pela erudição. Lembro  Pai Américo que no chamado Altar do mundo disse que só sabia falar de Cristo e esse crucificado no Pobre.As palavras do Evangelho desta terça feira onde Jesus diz, depois de abraçar uma criança, que quem não se tornar como elas não  entra no Reino dos Céus e quem recebe a elas a Ele recebe. Realmente o mundo não as merece. Uma identificação total de Deus com as crianças. E o mundo tão preocupado com elas: o tráfico da prostituição, o trabalho infantil, a venda para extração de órgãos, magia negra ou transplante em quem tem muito dinheiro.Mas Portugal ou as mete numa rodoma com leis protectoras ou as rejeita, não as deixando nascer ou mata-as antes que nasçam. E nós aqui a rebentar de dores para fazer crescer duzentos rejeitados. Pois este Papa, já pelo nome é promissor. Desprendimento e modo de falar como toda a gente, que o escutava naquele dia à janela.
Li o livro Papa Francisco não de um fôlego, que já não tenho. Que presente me haviam de mandar de Lisboa! Está marcado pelo sofrimento, espremido pelas políticas terríveis do seu país. Por isso bem alicerçado para os combates que lhe hão-de tramar, na “solicitude por todas as Igrejas” Lembro as palavras de Jesus a Simão:” Tu és rochedo e sobre este rochedo edificarei a minha Igreja” Não será pois uma pedra rejeitada, mas firme. Está tão marcado pela humildade que é capaz de falar dela, criticando-se a si mesmo. É um Papa do encontro que advoga como único meio para a paz, o entendimento não só entre os políticos e  religiosos de qualquer religião, como entre as pessoas, pais e filhos, famílias, professores e alunos  etc etc.. Um Papa preocupado com o diálogo, a humildade, o encontro como saída da Igreja de clientela, palavras dele, para a missionação de pessoa a pessoa. Por isso tão rente aos humildes, que nele ninguém tropeça, porque tem por norma dar lugar ao outro ou se tropeça ou se aleija ou se alija,  pela sua “Teologia do fracasso”. Já me ajudou muito. Abençoado Papa Francisco! P.e Zé Maria



M O Ç A M B I Q U E                               18.06.13 


 O Lucas só tinha aulas à tarde e ficou no lar para me abrir a porta, à noite.Quando lhe abrimos a desta Casa do Gaiato, tinha ele quatro dias, abandonado pela mãe e filho consaguíneo. Só aos dezoito anos veio a saber a sua história. Andou atormentado até que prevaleceu o primeiro amor que o acolheu aqui. Naquela noite foi ele que me acolheu. De manhã saímos para uma volta a pedir. Não estava quem esperávamos. Telefonei sem resposta. Daí a pouco falou pelo celular. Nunca recebeu a minha carta entregue em mão, e várias vezes o procurei durante  um ano. Disse-lhe da aflição daquele dia. “compre  já e que passem a factura em nome da empreza” Andava aflito para comprar cinquenta metros de tubo flexível para limpeza ao tanque do pivot. Semeámos doze ha de feijão e  a rega pára para tirar as rãs e sapos que entram, se espalham pela tubagem e vedam a saída  dos aspersores. Que alívio e acção de graças.
Descemos  um pouco e entrámos num banco. Quantas vezes já o fizemos. Andámos de andar em andar. Ninguém sabia. Esperámos em vão. Hesitei ir a outro.  Demora chegar ao 15º, tenho de levar cartão eletrónico para abrir as portas. Continuámos. No nosso fornecedor de arroz, doador também mês sim e mês não, alguém entregou roupa nova, vinda de Portugal para uma feira e não conseguiu vender. São vinte conjuntos de calça e casaco, belíssimos, mas quase brancos. Surgiu a ideia de tentar vender na cidade. Houve também a oferta de 43 caixas de massa fina, que o camião, a chegar para carregar dusentos sacos de arroz, podia trazer. Sempre a pé, eram onze horas. Parámos a uma esquina, onde há muito não visitava um indiano amigo, mussulmano, que ali conhecia de antigamente. Já tinha falecido, como calculava. Um filho já idoso, sentado atrás do computador mandou entrar e sentei-me a seu lado. O que havia de ouvir meu Deus! Andou pela Europa vários anos. Regressou; abasteceu as duas lojas que os pais tinham, pois no fim da guerra a penúria era profunda. O irmão puxou a si a outra loja, sem dar contas a ele, nem à mãe idosa a quem rejeita. No funeral do pai nem se apresentou. Numa hora em que o ouvi quase silenciosamente, só entrou um cliente e nada levou. “Assim, não posso ajudá-lo como vê”. Mas não soube quanto me ajudou. Primeiro a ver como numa religião ou noutra há mandamentos sagrados, como honrar pai e mãe, tão esquecidos. Depois como sofrer mesmo, em silêncio, as ofensas do próximo e saber perdoar. Como a vida faz amadurecer quem quer pensar mesmo. Diz ele: “numa das línguas que se fala na India,”doko” quer dizer enganados!Andamos enganados.Não damos a devida conta, porque não nos diz respeito. Pensamos que nunca nos atingirá. Quando somos pobres que a riqueza nunca nos vai bater à porta e quando somos ricos, acreditamos que nunca vamos ser pobres”.
 Irmãos, embora de religiões diferentes, as atitudes de pecado são as mesmas.
Senti-me pequenino e meditei, pelo caminho até Casa, em como os caminhos da unidade são possíveis. O mesmo Deus que vivi presente em nós, o mesmo olhar misericordioso de Deus a trespassar-nos com o Seu Amor e ali naquela loja de artigos elétricos. P. Zé Maria




                                     M O Ç A M B I Q U E                                     01- 07.13

Está moribundo para sua terra, para a África toda e para o mundo de hoje o homem que viveu para a salvação do seu Povo, como uma Cruz plantada  na grande África a apontar de braços abertos a reconciliação. Longe de mim assimilá-lo a Cristo, o Homem Deus. Mas é um sinal de reconciliação actual para o mundo  virado ao avesso. Não houve  na África toda uma saída da descolonização como na África do Sul. Aqui foi tão exemplar que o país continua num novo colonialismo atroz. Dum momento para o outro o que poderia ser pacífico virou em guerra. Pela África fora o bem estar e o estar em cima do povo virou moda. A avidez de lucros fáceis atrai as chamadas potências mundiais. Potências de quê, se precisam dos mais pobres para manter a potência do fogo que ainda um dia, há-de  derreter toda a terra onde vivemos hoje. Já Follereau pediu que elas dessem o valor de um bombardeiro e poderia acabar a lepra no mundo. Mas que morram antes os pobres, os refugiados, os que protestam até ao heroísmo, os que perdem a cabeça no desespero, porque são um estorvo. Os que defendem o seu poder, não hesitam passar todos os oponentes à bala. Entretanto o mundo rico está voltado para as riquezas deste imenso continente e não há forças mentais nem morais para acabar as guerras. A vida humana, parece estar decretado, não tem valor, mas tão sòmente  os hidrocarbonetos, os diamantes e parecidos, as madeiras preciosas, os animais raros, tudo o que materialmente é apetecível. A soberba, a gula, a intemperança são o avesso dos Mandamentos de Deus. Claro é que não cabe a culpa, só aos países de África ou muito poucs mesmo. São os grandes da economia global. E se deixassem a África construir-se a si mesma, como frizou Obama na sua recente visita?
Está Madiba, como carinhosamente lhe chamam, moribundo e toda a Africa do Sul está com ele. É impressionante, como toda agente de todas as cores, raças e línguas, que podem chegar em frente do Hospital, ali depositam flores e pedras brancas com mensagens e rezam ao Deus de todos os homens por ele. Ele merece. Mais que todas as homenagens, antes o seu exemplo devia ser imitado. Mas a África está cega pelo poder, pelo ter e não pelo ser como ele. Mas ser mesmo, que uma ccoisa é falar falar e não passar das palavras. Como se elas bastassem para convencer alguém. Até Cristo, com tanto e tão profundo que disse, não com venceu os seus. Foi o Espírito Santo que os mudou.
Amanhã vou concelebrar com todo o clero da Diocese. Morreu também na África do Sul o irmão padre Mabuiangue. Quando novo também lutou aqui por uma independência honesta para Moçambique, devotado como era ao seu Povo. Não foi gigante mas deu a sua medida. Àmanhã, na hora final da Celebração, ao começar as homenagens, como é uso, vou  retirar-me, pois tenho de sair a pedir. Talvez passos perdidos como tantas vezes.
P. Zé Maria





                                                   M O Ç A M B I Q U E            15 de Julho de 2013




            São vésperas da celebração de Pai Américo. Partiu inesperadamente. Nunca esqueci que estava no mercado da Ericeira onde tinha ido com os Rapazes na Colónia de Férias, que ali tinha a Casa do Gaiato do Tojal, a pedir peixe às vendedoras do Mercado, sempre tão solícitas quando ali aparecíamos. Um dos rapazes que estava em Casa e recebeu o recado pelo telefone da Colónia do Governo Civil, ali perto levou o recado. Corri a apanhar a camioneta para Loures e cheguei ao Tojal, quando se preparavam para sair. Chegámos de noite à Igreja da Trindade, cheia de gente  a velar o corpo. Fiquei toda a noite e cedo ajudei à Missa ao P.e Carlos. Lembro-me que chorei. Depois, a saída para Paço de Sousa. O Porto acompanhou a pé, até à saída da cidade, o corpo que ia no caixão. Longe de Casa muita outra gente esperava. Até o Nero, o cachorro de Casa, foi à frente, pertinho, até à entrada da Capela que Pai Américo tinha construído para ele, só para ele como escrevera. Ali lhe ajudei à Missa, ali o vi fazer a Via Sacra, absorto no Mistério. A sua vida tinha sido um mistério e cada rapaz o era também quando chegava às suas mãos. A Capela e os Rapazes, os Pobres, toda a sua vida ali girava. Tanto se disse e escreveu sobre ele, que continua essa vida a ser um mistério. Porquê se foi embora de Àfrica, onde e muito mais hoje, tantos procuram elevar o eu ao mais alto do ter e do poder. Quando o ter começou a pesar no bolso, pesou-lhe mais na consciência. Ainda não se falava em direitos humanos, mas sentia que muito estava torto. Ai se Pai Américo fosse deste tempo, o que não diria e faria! Se até o Salazar se calou e se uma vez teve de ir reclamar à censura, pelo seu direito de escrever, foi para se levantar perante a Lei: aquilo que não se pode remediar, também nisso não se pode falar. E proclamou: “alto lá sr General eu estou a remediar” E até alguns Bispos não o viam com bons olhos, mesmo tendo por norma não fazer “nada sem o Bispo”. A inquietação levou-o por caminhos obscuros. Só passados tantos anos quantos esteve em África. chegou ao fundo do túnel e começou a ver a Luz. Não aquela que a multidão deste tempo e por todo o mundo procura ver, mas outros lha tapam e não são luz. Estamos todos em crise a caminho do nada. Só os grandes têm a lógica, os interesses, os diálogos entre si, as economias globais como meta. Os marginalizados, os matirizados pelas guerras, os mortos pela fome, os cobardes não podem sobreviver. Caíu fundo em mim aquela expressão verdadeira de Alguém duma Ilha de Cabo Verde: o Povo desta Ilha aprendeu com as cabras: ”Quando não há que comer roem pedras”  Que teria ele para dizer quando já Sacerdote quis escrever”de como subi ao Altar” e tropeçou no “eu” e desistiu? Pe Zé Maria





M  O   Ç   A  M  B  I  Q  U  E                  29 de Julho de 2013



Dá-me ganas de voltar ao Papa Francisco ou Francisco simplesmente como a televisão lhe chama, É um Papa de todos. Disse-se que deixou o Brasil mais católico. Não admira. As palavras e os gestos são apelativos, dentro, à margem e fora da Igreja. Até ironia fina de estilete que corta até à medula dos ossos. Governo, Igreja. Marginalizados sociais, jovens, todos foram apanhados nas malhas da sua rede. Uma linguagem nova? Não. A mesma de Cristo até hoje pela boca de profetas corajosos para o seu tempo, como foi Pai Américo. Vislumbra-se já uma alvorada de Amor. Só Ele vence o mundo. “depôs dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes como cantou Maria a escrava do Seu Amor. O Espírito Santo atua contra a corrente. Aos jovens no Brasil Francisco disse:”Tenham coragem de ir contra a corrente” Pai Américo foi um revolucionário pacífico, Andou sempre contra a corrente e até por isso foi anátema, amaldiçoado, para muitos. Mas para ricos e pobres nunca. As suas palavras punham uma mão no coração do rico e outra na mão do pobre. A sua Obra da Rua continua a sê-lo por um Estado laicisante que ao de leve, mas hipocritamente, passa a mão pela Igreja e deixa-lhe os escombros ou os vómitos da sua embrieguês, para que cure, que limpe, que lave que acolha, que vista, que chegue à boca dos moribundos os sobejos de quem ainda tem mais, mas sobretudo dos que têm pouco, mas muita Fé. Soa-me atrozmente aos ouvidos, como se alguma vez tivesse ouvido, o grito dos condenados às feras no Circo Romano; “Ave César, morituri te salutent” Para quem não percebe: Viva o imperador, os que vão morrer te saúdam. Viva Deus, pelos que têm fé, que põem a sua vida a servir, pelos que têm fome e sede de justiça, que dão comida a quem tem fome, água a quem tem sede, roupa a quem anda nú, livros e escola a quem não tem, abrigo aos refugiados das guerras que o mundo sem Deus alimenta, aos esquecidos pela família, aos que morrem pela saúde dos outros, aos inconformados políticos, aos revoltados, aos presos e drogados, sem luz para suas vidas. Meu Deus que soís a Luz sem ocaso e este mundo que é Vosso, a despencar para a desagragação, precisa de perdão em atenção àqueles que Vos servem até   à
 exaustão. P. Zé Maria.




                                          G A I A T O                             10 . 09  13



Em Moçambique há tantos espantos mágicos que dá vontade de interrogar: porquê mais aqui? Para nós o inconcebível acontece. Apareceu-nos um grupo de cidadãos espanhóis que rodeia uma figura propaganda de uma marca de relógios e de loiças, certamente de grande preço. Chegaram e partiram sem que tivesse contactado com eles. Aliás dei conta quando ia atravessar a sala de visitas da Casa. Alguém  maquilhava uma senhora afundada no sofá. Só vi de costas. Assim ou de frente vale o mesmo parafrazeando o Pai Américo. Veio rodeada de equipa com cenógrafo, operadores de câmara, máquinas e mais máquinas, certamente das mais sofisticadas, tudo girando à sua volta.. Parece que, depois de uma vida muito frívola, quer mudar a imagem fazendo - se muito católica, me disseram. É de espantar. Não assisti à chegada, porque tinha ido no Domingo à tarde ao Bilene buscar uma carcaça inteira de vaca que nos ofereceram para alimento dos rapazes. Aquele grupo deixou a pior imagem que podia aparecer aqui em Casa, Combinou-se servir-lhes na refeição de chegada uma xima de farinha de milho com caril de amendoim e couve, genuinamente moçambicana, como não comeram em lado nenhum onde tiveram de pagar o serviço. Creio que alguém do grupo, mais atento à nossa realidade deixou três mil euros. Foi tudo e foram-se com a sua importância mais as imagens que lhes agradaram. Nós continuamos como somos.
Mas não há bela sem senão. O senão é o belo, belo de ver. Outro grupo chegou antes umas horas. Na bagagem microscópios cirúrgicos, anestesias, óculos de sol e tudo o mais necessário. A meta é operar ás cataratas tresentas pessoas pobres.. Chegaram no Domingo de manhã, alugaram chapa na cidade e após o almoço partiram para o Hospital de Boane. Logo naqule dia fizeram a triagem das pessoas a atender que a nossa Maria José tinha programado e regressaram às dez da noite para jantar, cansadas mas bem dispostas. São duas equipas de cirurgiões chefiadas por dois netos do Dr Barraquer, julgado ao tempo o mais famoso especialista de olhos no mundo. No ano passado operaram cento e cinquenta e foi preciso que até à hora de chegada, estivesse alguém de Casa à espera de autorização para trabalhar. E nem por lá apareceu alguém do Governo, nem sequer à despedida Este ano, tão diferente! Até recem - formados em oftalmologia na Universidade daqui, estão assistindo, empenhadamente o grupo. É claro que as instalações do Hospital de Boane são acanhadas para uma mesa de operações, quanto mais para duas. Mas aqui, com boa vontade, simplicidade e dedicação se fazem milagres.
São dez da noite. Subi ao refeitório a saudá-los. Tão contentes! Já operaram cento e oitenta. Em três dias apenas.    Que ricos corações! São de outro mundo. Que o nosso Deus tão bom para com todos, seja rico de bondade para quem assim é, para os Seus filhos mais pobres.P. Zé Maria.    




                           M  O  Ç  A  M  B  I  Q  U  E                      03.11.13


             Depois de rápidas alterações da temperatura, veio a chuva brava e tudo se revestiu de esperança. Porém os espíritos continuam conturbados.A natureza deu um sinal, mas as pessoas alheadas disso, exaltaram-se. Aumentaram os sequestros. O diz-se que disse transmitiu-se até por mensagens eletrónicas. Simultaneamente os disparos de armas e canhões previamente colocados iniciou o barrulho e a confusão.. Os que não morreram e não se sabe quantos, dispersaram-se aflitos. Todo o mundo está cansado de guerra, menos os senhores das armas. As notícias silenciam-se, convenientemente, para quem as manipula, Sabe-se de certeza que o povo fugiu para as matas. As escolas ficaram desertas, os Postos de Saúde, as machambas e os mantimentos guardados, saqueados por quem trabalha com o fogo, porque têm tudo à mão. A confusão é grande, mas o povo não se deixa enganar, não confia e quer a todo o custo salvar a vida. Nas cidades grandes, ordeiramente, manifesta-se contra. Repudia os acontecimentos e declaradamente quem os  faz e permite acontecer. A todo o custo se procura manter a calma Os discursos são evasivos. Alguns  Jornais procuram a verdade encoberta. Mas verdade é que a paz só se alcança com a justiça e a justiça com o diálogo e a partilha.E a partilha só pelo amor ao próximo. Ora se estamos a viver desconfiança, medo de sequestros à luz do dia, tiros pela noite, tudo cai por terra até o poder estabelecido é abalado, embora não queira parecer. Daí,  se suspende a respiração, se baixa a voz e  suspeita de más intenções.Não há uma voz verdadeira, isenta,  conhecedora e esclarecedora. A escalada dos acontecimentos confirma suspeitas. Derrama-se a injustiça. Os injustiçados são sempre os inocentes que não têm nada a ver e são até presos e torturados, como troféus do sucesso das intenções das forças da manutenção da paz. Isso não satisfaz, antes encoberta a deshonra das operações. Estamos aqui e não sabemos onde chegaremos. A chegada em força de meios bélicos não propiciam boas intenções e uma paz conseguida pelas armas destrói os fundamentos do direito da pessoa humana e anuncia o estebelecer do poder absoluto, já fartamente conseguido, no poderio e endeusamento. Destroi-se a justiça, o diálogo de entendimento mútuo. Ficamos virados ao contrário. Nada para Deus e seus fiéis, tudo para um só deste mundo.. P. Zé Maria



GAIATO 2. 12. 13

Quando pela manhã rezo na Capelinha, tenho um limoeiro vergado com frutas ainda novos a tapar-me a vista da serra que se ergue em frente. Sobre a cabeça um retrato do Pai Américo a rir-se de mim, porque vim, veio meter-me em grandes sarilhos. Eu olho antes de me sentar e todos os dias se ri e procuro interiorizar o seu pensamento. À minha frente o Cristo escondido no sacrário a quem me dirijo cara a cara sem O ver. Mas sei que está ali. Ao lado, o Altar tosco levantado sobre uma raíz de acácia, que a fome de lenha deixou para trás naquele tempo e era difícil de carregar, ficou á espera que o encontrasse e foi-lhe aplicada uma casqueira de chanfuta que naquele início de vida, fui pedir à serração de um indiano. Por detrás na parede um Cristo de África em pau preto, talhado por um maconde, que uma Senhora daqui ofereceu, à chegada, a Padre Carlos, e um filho lhe tinha dado e ela endossou para nós. Muito me fez lembrar ela que não sei se ainda vive, se sim gostava que desse sinal ou ao menos que se console como eu ao olhar e recordá-la.
            Pois no limoeiro poisam meia dúzia de pardais que me distraem, alguns são normais na cor, outros são negros. Que maravilhosa  adaptação e convivência. Descem nos ramos e procuram no chão o alimento. Depois sabem à sombra ao menor rido por perto. Não têm confiança e sons desconhecidos que os homens e os carros por ali fazem. É um viver e deixar viver. É a primeira lição. Adaptar-me, viver no meio dos outros, na diferença, mas em conjunto; partilhar a segurança e os perigos para assegurar a vida na paz.
            Por cima da cabeça o Pai Américo. Um rir de felicidade, apoiado num cajado grosso de pastor, na serra do Gerês. Distante da realidade que deixara em Casa para descansar um pouco o fígado, que lhe dava acessos de mau humor. Ele que era tão dado à folia sua e dos rapazes que até mandava comprar foguetes e rabicahas para o São João para os ver felizes atrás das canas depois dos estoiros ou a dar pulos por causa do serpentear das rabichas. Delirava até, quando os viam da varanda da Casa-mãe a jogar a bola e os entusiasmos acirrados desancavam em pancadaria de uns a outros ou até ao grupo visitante. E agora continua a rir-se, feliz lá em cima de mim e eu aqui a olhar conscientemente de concorro para a sua felicidade.
           O sacrário também está assente num tronco pequeno e é primitivo da Capela de paço de Sousa. Quantas diante dele passou Pai Américo. A hora da manhã após a Missa era mais prolongada, absorvente e saborosa. Dali partia com ímpeto ao encontro dos Rapazes e Pobres. Ali o encontravam absorto e reagia se o incomodassem.
           O Sacrário e o Altar de pedra!. Um altar românico que infundia perenidade. Sou testemunha de algumas celebrações. Vivia mais absorto, para si, que para os outros, como hoje fazemos. O alimento perene da sua vida e da sua Obra. O Santuário de Almas que a partir dali levantou e se estende a África, sobremodo á terra dos pardais, que ali na minha janela anda rilham e no meu coração palpitam como homens para este Moçambique P. Zé Maria.  



G  A  I  A  T O   Jan 02 de 2014


Passou o Natal. Angústia, cansaço, perturbação da atmosfera, alegrias de ver chegar, buscar e levar partilhas. Um atropelo constante que não deixou repousar, saborear e vivenciar este tempo a que tanto chamam de Paz.
Com as férias os rapazes dividiram-se pelas oficinas e pelo campo. Muita manga, papaia e hortaliças a recolher. Trabalhos importantes e volumosos na carpintaria e serralharia. Eles são muitos, mais alguns que chegaram de férias. Uns no Hospital com assistência permanente. Na nossa Casa Esperança, também foi preciso colocar outros, já candidatos a estudos de saúde ou em férias, a reforçar.
Ensaios de cânticos de Natal todos os dias á noite depois da oração, enriquecida pelos chefes das Casas com um pedido pela Paz, seguido de um cântico. O Presépio só esteve pronto na última semana. Enfeites no refeitório com luzinhas e no jardim, uma árvore de Natal, uma tuia que nos liga ao berço da Obra, cheia de luzinhas e prendas, a que foi preciso montar guarda permanente, já se sabe porquê. 
Leitura diária dos jornais, na ânsia de encontrar sinais promissores de tempos novos. Mas sempre os mesmos actores a repetir até ao enfado a mesma cena. Nem o bom senso, nem a prudência nem nada se viu até agora. A estória começa a ser burlesca. E não fossem os sacrificados e os desorientados e os prejudicados, é como ver correr as águas para o mar, de um lugar seguro.
O fechar de contas de pequenos projetos, o emendar novos para termos o que fazer por quem sangramos; O esperar que ao banco cheguem depósitos entregues na origen há semanas, para pagar o que precisamos, as despezas da última hora com um contentor de Espanha e não eram habituais, porque até o transporte teve imposto, o descarregar de manhã cedo, porque só às dez da noite saiu do cais. Tudo foi no fim de contas uma salada gostosa para apreciar neste Natal.
A nossa Celebração às dez da noite, com cânticos novos, a participação já habitual com danças dos nossos e das meninas do Orfanato Halima, fechando com o cântico da Família. Não beijámos o Menino, porque não houve batisado de recém- nascido. No fim, o testemunho de um casal. Ela com o filho ao colo. Cantaram com vozes distintas e melodiosas uma linda canção a que não me contive de fazer um comentário sobre a harmonia de um casal que canta a Vida com entoações diferentes, mas em harmonia cordial. A seguir o jantar abundante. Não deu para descansar um pouco. Mas sim, deu para experimentar a mão de Deus sobre nós, sempre atenta aos que sofrem, aos que se unem de mãos dadas e firmes na Fé. Tantos atributos que damos a Deus, mas cada um é saboreado a Seu tempo.
Depois do ano, foi a debandada: professores, educadoras, amigos da Casa e alguns tios, foi o destino de acolhimento. Dois  já regressaram. Foram para Inhambane  . Estamos cinco em Casa, a descansar finalmente, quanto é possível e  até ver. P. Zé Maria.



                                              M  O  Ç  A  M  B  Q  U  E                     15.01.14



Não sei onde apanhei, numa noite de insónia, “ é tempo de saber viver”.Onde e como e com quem? O nosso pequeno mundo de Casa todos os dias procuramos melhorá-lo, o que já não é fácil. Mas como entender o que se passa à nossa volta, que todos os dias apunhá-la a nossa alma e coração? Como entender o mundo global causador de tantos sofrimentos atrozes que atingem os mais frágeis, os marginais, os doentes e idosos, alheios e desprovidos de autodefeza, os justiçados sem apelo a  direitos humanos, os refugiados condenados à fome. A nossa fé chega para acredtar na palavra sagrada de que há um só Pai e todos somos irmãos? Francisco diz que “a fraternidade é fundamento e caminho para a Paz. E a Cruz  é o lugar definitivo da fundação da fraternidade” E é o único. Mas quando nos desprenderemos da nossa tradição para abraçar os outros como irmãos que têm por Deus o mesmo Pai, mesmo que o conheçam apenas em amuletos ou figuras indefinidas  e ainda aí não chegámos? É bela a canção do Roberto Carlos “ olho  para o céu e vejo esta multidão que vai caminhando. Em cada esquina vejo um irmão… para que todos cantem na mesma voz esta canção: Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui. Sim Senhor eu estou aqui, sepultado no meu eu, esmagado pelo meu nada, com o coração a sangrar como o vosso na Cruz e sem poder fazer nada de mãos e braços amarrados. Com que direito posso reclamar que olheis para mim se o mundo dos outros precisa de mais perdão que eu. Ou serei eu que preciso de mais perdão para ler dentro de mim o que é a graça do perdão e quais são os vossos desígnios de amor? A fraternidade será fingida e adiada se não houver perdão. Como, quando e quem vai fazer abraçar os contrários se todos têm a mesma culpa. Só mesmo Cristo o fez plenamente entre o Pai e a humanidade já assumida por Ele. Os homens têm de ser gigantes que tenham como Mandela a justiça e o bem comum como aspiração urgente e máxima de suas vidas. Que assim seja em toda a parte agora e para sempre. P. Zé Maria





Desde Domingo que tento e só agora consegui enviar estas linhas tão mal alinhavadas por falta de tempo. Quanto mais velho mais sinto falta. Mas na~é d certeza da velhice e do consaço. É mesmo o tempo que n´~ao dá para mais. Abraço a todos os que estão aí a começar pelo sr P. Júlio.









                                               M O Ç A M B I Q U E                     26, 01. 14


            Com as atribulações diárias de ordem material desta Casa, na hora de escrever para o Gaiato, são elas que saltam à frente. Quanto a essas, graças a Deus que vamos arrumando  o dia a dia, sem que chegue      para  mais que o imediato. Há áreas em que é preciso ter garantias antecipadas para ir em frente, e assim vamos  ficando, como  de há anos atrás. A pesar de várias hipóteses de investimento que nos podem abranger, nada de concreto, nem  previsões possíveis.
                        Mas aquelas dificuldades que dia a dia enfrentamos mesmo,  sem vacilar, com ou sem tempo, vêm do mundo interior dos nossos rapazes. Não basta que os amemos como filhos e nos pareça que muitos retribuem com  sinceridade. Não basta que nada lhes falte e que a sua saúde esteja sempre assegurada. Não basta que tenham os melhores professores e um ensino de referência. Que tenham bons treinadores de atletismo, por acaso estranjeiros. Não basta que tenham tudo e mais que muitas crianças. Há um ponto muito fraco no seu crescimento, que se existiu antes de entrar, é sagrado e não pode enfraquecer, é a ligação à família. Por isso  desde que aqui entre um rapaz, se não traz referência familiar  procuramos aturadamente o elo. Por vezes aquilo que durante tanto tampo procurámos, que é da essência individual, não chega a refazer-se por incapacidade ou rejeição de um lado ou de ambos. A tradição leva o homem a ter várias mulheres. que vai descartando com os filhos. E há muito pior. E não é possível refazer laços que nunca existiram.
               Os problemas avolumam-se . É o primeiro emprego, com aluguer de casa e  apredizagem de gerir o salário, tantas vezes insuficiente, sobretudo se continua a estudar à noite. É o querer noivar e ter fazer o “lobolo” sem ter com que satisfazer as exigências dos futuros sogros. É enfim o mundo sujo que há muito deixaram, onde agora vão enfrentar novos desafios. Os rapazes não têm discernimento seguro para se agarrar à vida, quando já estão na idade de assumirem sosinhos o seu futuro.A sabedoria popular tem muita razão: filhos criados, trabalhos dobrados. Se no  dia a dia levantamos as mãos confiantes para Deus que não desampara quem põe nEle os seus olhos, que dizer dos rapazes, senão como Pai Américo: “Senhor eles são mais teus do que meus”!A quem apoia as nossas mãos erguidas , toda a gratidão. P. Zé Maria

               ……………………………………………………………………………………                                         

            Sr P. Júlio
            Esta semana chegou o extrato do Banco. Verificámos a transferência de 35.000 E.     Não calcula como ansiava. No Natal não nos faltaram coisas mas dinheiro            pouco. Continuo todas as semanas o meu peregrinar, por vezes sem nada trazer. É   penoso mas faz parte da vida. Desejo que por aí tudo vá melhorando. Abraço.           P.Zé



                                            

                                              
                             M O Ç A M B I Q U E                                        .09.02.14

Antes de escrever, instintivamente fecho os olhos e levo as mãos ao rosto para uma prece à Luz. Tornam-se presentes as pessoas que por iniciativa própria vêm a esta Casa com seus donativos, ou de longe, nos mandam ajudas valiosas e as  que na andança pela cidade procuro. Também outras que não consigo encontrar, porque ainda não se abriu o caminho do coração para as necessidades dos mais pobres.
O nosso equilíbrio, sem dúvida é instável. Estão muitos  a sair para trabalho e estudos. Preciso é alugar um quarto ou dependência, onde caibam dois com as suas camas, utensílios de cozinha, mesa para estudo e refeição. O mínimo dos mínimos que inclui ainda custo de propinas e material escolar,  alimentação e deslocação. Se estudam à noite é porque têm emprego de dia, para onde levam além da formação humana, o básico para desempenhar o seu trabalho aprendido aqui. Há casos complicados por falta de prática de gerenciar o dinheiro que recebem, ou de quem aluga e temos de continuamente aparar as  diferenças. Passam de sessenta estes. Em Casa tudo é mais programado, o que também não é fácil. Uniforme escolar e de educação física obrigatórios livros até 7ª o Ministério dá. Livros da oitava à décima do novo programa, sacola,  sebentas  e cadernos, para cada disciplina, lápis, afiador, estojo de desenho. Se uma família com dois ou três se vê aflita que seria de nós se a Academia do bacalhau não estivesse há muito a porfiar  consegui-lo entre compadres e amigos. Passam estes de cento e cinquenta.
Há também manifestações de interesse em programas ambiciosos de sustentabilidade. Quantos encontros, quantos esclarecimentos, quantos papéis que nos afogam e tiram a livre respiração para acudir ao dia a dia. Por um lado não queremos deixar de ser pobres para os pobres para enriquecer a todos, como dizia São Paulo. A Obra da Rua é um testemunho de pobreza espiritual por amor aos marginalizados da sociedade, mormente as crianças abandonadas, e os que as servem vivem em dores e aflições contínuas. Preferíamos que nos vissem como despenseiros fiéis ou recoveiros como dizia Pai Américo do que nos dão e é com íntegra justiça social e transparência como agora se usa dizer quando a não há, que aplicamos os donativos. Não aspiramos a grandezas que nos retirem o carisma de pobres, mas antes queremos fazer todo o esforço  que está ao nosso alcance, na fazenda e oficinas, para que   sirva  essa sustentabilidade, e seja um factor indispensável da formação integral dos rapazes. Fazer brotar neles o encanto e o respeito pela natureza, pelos animais, pela árvores que plantam, pela vida selvagem que vão descobrindo cá dentro. Ocupá-los num trabalho útil à  grande família que somos, dar-lhes responsabilidade na educação dos irmãos mais novos ou até da mesma idade, para  fazer de cada rapaz um homem é imprescindível à sua  educação. Dar-lhes o sabor do espiritual, das virtudes, das aptidões escondidas em cada um, até que recebam na catequese na vida do dia a dia o toque  interior para o qual Deus se serve de nós.
Sinto profunda tristeza por não haver mais pessoas iluminadas que olhem para a Obra com sensibilidade de justiça social que descubram nela  a capacidade de construir o homem moçambicano a partir do nada que são os nossos rapazes, e que somente vejam isso possível com muito  dinheiro que é o feitiço predominante nesta terra de tantos enfeitiçados. P. Zé Maria. 



  G A I A T O      10 de Março de 2014


Anda-me a roer o pensamento e o tempo que não sobra para outros trabalhos.Qualquer dia desaparafuso. Nunca fui de rasgos mas de rogos, com as costas vergadas pela vida e pelos anos, perante quem possa ajudar a cruz que Deus e Pai Américo me deram. O Telmo acabou a universidade, que verdade seja não lhe vale muito. Agora, tiradentes, como encontámos um na Massaca em 1991. Só os ferros é que são melhores que o alicate. O Vicente, tem a licenciatura com emprego assegurado. O Pinto em Administração Hospitalar. O Justino em veterinária, também. O Carlos, a Universidade no Rio, com bolsa para Investigação. Já estão preparados para a vida. Outros ainda com Cursos médios e  encontram trabalho. Estão mais em licenciaturas e muitos mais em cursos médios. Cada ano aumenta o número. Vamos em setenta. Um problema grande se lhes põe agora: a necessidade de casar e ter uma casinha com filhos, a pendura de   parentes que só agora aparecem, tudo ao mesmo tempo, sem jeito de ganhar o suficiente é um pesadelo.
Para nós outro mais grave que a experiência traz com o número dos que querem uma profissão que garanta a sua vida futura. Isto só é possível com eles fora de Casa.Viver num quarto alugado, com o mínimo dos mínimos, em meios onde os riscos de contágio de tuberculose, agora chamada resistente, de HIV, da droga e do álcool, que campeiam  entre os da mesma idade, a influência de grupos de banditagem, está a ser um risco de tremer. Quarto com  cama, colchão e roupa, trem de cosinha e uma mesa para a refeição da noite e estudo, ainda temos arranjado do que nos dão ou fazemos na oficina. Mas precisamos urgentemente de uma Casa, um lar onde os mais em risco, possam ser acompanhados diariamente. Quarto para  dois já está muito difícil e como disse perigoso. Propinas, viagens, alimentação e despezas ecolares requere dinheiro que já não temos. Precisamos de uma casa espaçosa para uns vinte. À chegada tivemos a promessa de uma. Um ano inteiro, duas vezes por semana, a subir a pé ao 5º andar e só ao fim nos disseram que tinha aparecido o dono. Com a escritura da primeira Casa do Gaiato na mão, procurei por quem ao tempo a tomou e não fui recebido, apesar ser esta a “pátria amada”pensando só noutras riquezas. Desse lado morre a esperança. Aparece uma casa com  capacidade para vinte bem apertados e como o aperto é grande num coração de pai de duzentos filhos queremos arriscar. São vinte mil euros por ano em cinco anos ou oitenta de uma vez. É muitíssimo, É um desafio a Deus, esperar o inesperado. Se Só Ele continua a ser o inesperado, sempre presente, só Ele o pode fazer. P.e Zé Maria. 









           

                                                        G A I A T O                         18.03.14



Este mundo onde vivemos poderia enlouquecer-nos se não fosse a Fé e a certeza que ela nos dá de estar no caminho certo. É uma entrega total na mão de Deus a testemunhar que Ele é misericordioso e compassivo, que perdoa todas as culpas, mesmo todas, que tem neste mundo quem manifeste a sua face maravilhosa à espera que descubramos que só Ele não muda, que faz nascer o seu sol sobre justos e injustos, que espera os filhos pródigos para os abraçar, que levanta do chão a vítima dos salteadores.
Este mundo onde vivemos descobriu o deus milhão e só a ele venera, só nele encontra refúgio. Só nele encontra segurança só ele existe para ele. Renova-se a tentação de pelo conhecimento da ciência do bem e do mal se tornar ele mesmo um deus. Quando descobrirá que realmente está nú, que não tem nada de seu que lhe pertença verdadeiramente, que nada vale ganhar o mundo inteiro?
            O mundo criou um homem novo. As descobertas da ciência não param e não levam à descoberta do Deus Verdadeiro;  o prolongamento da vida, a manipulação do ser humano desde a estrutura física à mental; o extremínio silencioso da vida que pode nascer, ou chegar ao suicídio, é um procedimento aceite.
    O mundo esqueceu-se da Cruz. Não é um símbolo, é uma realidade, tão real como a vida daqueles que sofrem até ao extremo. Mas só Cristo sofreu até ao extremo de todos os extremos, para dizer que no abraço da Cruz transfere para nós todo o seu amor, todo o seu perdão.
 Ouço uma notícia seca:   “Moçambique é o país do mundo onde a tuberculose alastra mais assustadoramente”. Com frieza, penso que é   empolamento habitual de tudo o que vai por aqui de riquezas a calamidades.  Mas conhecendo o que se passa conosco e o cuidado que temos com os nossos rapazes, alguns deles já vítimas da tuberculose resistente, é para ficar deveras alarmado. Alarmado sabendo a mobilidade que as pessoas vão ganhando mesmo sem estradas, a procura contínua  de produtos para venda de subsistência cá, ou  nos países visinhos, em transportes com extrema superlotação, é impossível que não esteja a alastrar, como dizia a notícia a cem mil por ano.
Saímos de uma e entramos noutra. Levou anos a desvanecer o doce sossego de quem vivia despreocupado com o HIV; logo recrudesceu com a  tuberculose, como pcompanheira inseparável. Depois apareceu assolapada a guerra. Negociações dum lado e ataques do outro. As partes cederam.Chegam ameaças de inundações e haja quem nos acuda. Ainda não se criaram hábitos de autodefeza nem critérios seguros de arrumação das populações, que regressam sempre ao cemitério dos antepassados. Já é sina mágica. Só os grandes projectos o fazem, sabe Deus como.
Agora que nada está arrumado devidamente, em que a política de pré-eleições agita partidos e chama o Povo como salvador da Pátria, em todos os pontos do país, cai como uma bomba indefensável a notícia da tuberculose. Mas calma que o Governo já dispõe de trezentos milhões de dollares, para em três anos enfrentar o problema. É tão tranquilizante que até parece mentira. Os milhões de infectantes e infetados ficam agradecidos à espera.P. Zé Maria


                            M O Ç A M B I Q U E                     06. 04. 14


Estarão muitos à espera de saber o que nos trouxe o Primeiro Ministro de Portugal, quando veio a esta Casa. Não foi essa a intenção dos repórteres que aqui vieram, só na mira de lhe açacarem declarações políticas, por isso logo na chegada foram afastados por nós e tiveram de esperar pelo fim da visita, que o protocolo tinha marcado de 40 minutos, mas demorou, por sua vontade, duas horas. E viu excluvivamente aquilo em que a Segurança Social Portuguesa nos ajudou: Escritórios centrais com sala de runiões, biblioteca e sala de leitura, escollnha, de passagem o refeitório e cozinha, onde os nossos rapazes já tinham o almoço preparado, de seguida a Casa dos mais pequeninos e finalmente a Casa Esperança, onde havia alguns Rapazes doentes, com quem falou. Faltou ver a Oficina de mecânica.
O que nos deixou? Estímulo nas palavras que dirigiu aos Rapazes e alunos da Escola, pois era dia de aulas, ao todo com Professores uns oitocentos. Deixou também os sumos da Compal, que visitou  no caminho  e alguns remédios que o Exército Português lhe tinha entregue. Deixou-nos exemplo de simplicidade e apreço no Livro de Honra da Casa, mas acima de tudo a motivação que fez à Comunidade Portuguesa, para nos apoiar com carinho. Mas disso não fomos testemunhas, porque ninguém daqui foi aos encontros na cidade. Dois dias antes tinham passado da Provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, para nos ver e prometer cinquenta mil Euros, que logo chegaram.
O que esperávamos? Nada além disso mesmo. O que lhe dissemos? Muito pouco para não demorar. Que esta Casa pertence a quem nada tem e que para nós, que somos como eles, são a maior riqueza que há em Moçambique. Somos uma Família para os sem família. Um agradecimento por ter descido até nós em nome de Portugal onde a Obra da Rua nasceu e continua viva. Uma palavra final de Fernando Pessoa:” Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez, Senhor, falta cumprir -se Portugal.” Entendi que era esse o seu dever e seu propósito. 
 Como não podia deixar de ser, na terra que pisava, duas danças dos nossos e Alunas da Escola. Isto se passou na nossa tenda de Encontros, a Catedral mais bonita de Moçambique como já lhe chamam muitos que cá passam. Louvor para o nosso Arquiteto João Araújo que nos deu o desenho, o grande painel da Anunciação Redentora e os três grandes vitrais. Os outros, da amplidão da natureza envolvente, foi  Deus, no Seu desígnio amoroso, que ali colocou para nós.
Do Governo Sr Embaixador de Portugal e Ministra Conselheira, que de quando em vez, está presente na nossa Celebração. De cá, a Senhora Governadora da Província, Senhor Presidente do Município e Senhor Administrador de Boane que nos honraram com a sua presença e a dos seus Seguranças.Tudo muito discreto e simples, como convém neste Santuário. P.Zé Mari a. 









                                     M O Ç A M B I Q U E         21. 04. 14



A nossa Páscoa foi um  grande dia. Depois de dois anos de preparação e de um mês muito mais intensa, receberam o Baptismo vinte e dois. Outros ficaram para o Tempo Pascal. A celebração que começou no largo em frente à Capela, como a bênção do fogo novo e do Círio, prolongou-se com a procissão noturna. Passava  das dez da noite. Só a lua qual olho atento e sereno de Deus nos acompanhava de longe. Todo o grupo, os nossos rapazes, as meninas da Halima, a comunidade da Massaca, enchemos a Capela completamente. O louvor da noite Santa perante o grande Círio que representava Cristo ressuscitado,         Luz para o mundo de hoje e de sempre, foi cantado por um professor da Casa. Depois das longas Leituras, na altura devida, o efeito misterioso das palavras sacramentais. Creio que ninguém como eles pôde viver o momento da Adopção Filial de Deus. Eles regeitados da família e da sociedade, eles a crescer nesta grande família de adopção, onde já sabem, pelo o dia a dia, como Deus é o Pai previdente, agora,  a partir daquele momento, Ele os acolheu no Seu Coração, de tal modo que ali ficou para sempre. Ele neles, eles nEle e todos num só. Os Padrinhos e toda a assembleia uma só família. Acabámos passava das duas horas da manhã. Depois uma ligeira refeição, um resto de noite bem dormido e às sete da manhã todos de pé para um novo dia.
 Foi consolador termos conosco além dos visitantes e cooperantes, a passar de trinta mais velhos que puderam aqui passar este tempo conosco. Alguns regressaram logo pela manhã. Outros  ao fim do dia. Houve deles que trouxeram esposas e filhos, já quase do tamanho da mãe, outros bebés encantadores que eles ameigam carinhosamente como nunca foram. “Como é bom ser uma família, como é bom!”
No dia de Páscoa mais visitantes da cidade. Alguns só assistiram à Celebração e deixaram as suas ofertas. Outros partilharam da nossa mesa. Que tenha sido um dia feliz para todos os nossos leitores como foi para nós. P. Zé Maria








Querido Padre Júlio. Não pude telefonar-lhe como desejava. Nem a nenhum dos nossos Padres. Que a Páscoa tenha sido um dia cheio para toda a Casa e para si especialmente. Vamos andando com as dificuldades do dia a dia. Foi uma Quaresma bem vivida e conseguimos levar a nossa Cruz apesar da fraqueza. Deus é Bom. Um abraço P. Zé.




                                            G A I A T O       05.05.14
            Meu Deus, sem Vós nada podemos. De Vós e convosco tudo podemos. Sem que nada pedíssemos, senão a força para manter a fé na Misericórdia amorosa para com os mais pequeninos e abandonados, veio aqui o Markting do Millennium. Espreitaram os cantos da Casa para ver onde eram necessárias intervenções. Mandaram uma equipa de pedreiros,  estucadores e pintores para dar uma reforma inteira ao nosso salão de festas. Na sexta, veio uma carrinha cheia com alimentos  necessários e refrigerantes.  No sábado chegaram setenta voluntários do Banco. Deram um plasma para o salão, mais um televisor grande para os mais pequeninos com um d.v.d, muitos discos e filmes de banda desenhada, roupas,  calçado e livros infantis. Todos em equipas organizadas com os nossos, pintaram todos os baloiços da escolinha, da escola, o chamado ginásio ao ar livre, refizeram o escorrega e até os baloiços da fazenda. Vieram muitos camiões com areia para proteger os pés do chão duro. As bandas em tubo da ponte antes das oficinas e muitos pneus a circundar as áreas de recreio das escolas foram pintadas,  Enfim, tudo a que puderam dar a mão durante o dia, foi retocado ou renovado. À refeição, dois em cada mesa dos nossos. Ao meio da tarde subimos todos à nossa Tenda dos Encontros para uma pequena sessão de agradecimeentos. O tão garoto ainda, como gaiato, o Gabriel fez rir a todos com as suas. Aqui em casa só ele mesmo. Depois, dois grupos com as suas danças. Encerrámos com a canção “ obrigado do coração” o hino da Casa e o cântico da Família. De facto somos uma grande família, que se abraça e alarga socialmente, quando alguém nos visita e mais do que dar, se dá a nós. Ai se toda a gente fosse assim! Não sabemos quanto o Markting do Millennium terá investido. Mas sabemos que todos os anos desde o passado são tranferidos para a nossa conta doze mil euros. O dinheiro vai-se, mas a amisade e seus frutos perduram.
            Pararam as chuvas e chegou o frio. Andamos atarefados com sementeiras. Já temos duas toneladas de batata estranjeira oferecidas, que vão chegar no fim de semana. No fim do mês vamos plantar cebola, a crescer ainda na estufa. O alho já cresce no campo, com cenoura e tomate, regados gota a gota. Mas em mais de oitenta ha de terreno nem o capim presta para enfardar.Vamos colher algum milho que cresceu só com as chuvas, mas por causa delas foi mal semeado. Iniciámos com duzentas senhoras das Aldeias a limpeza dos acessos à extremidade da faze da por causa dos fogos que não tardam aparecer e do corte de árvores que este ano está a preocupar muito, pois não é só lenha para casa, mas para venda. Há vinte e três anos toda tinha sido levada. Agora preservada e crescida com tanto esforço em conter os incêndios, é invejada. Hoje às cinco da manhã os rapazes foram de tractor buscar a que estava preparada para carregar e chegaram às sete sem  trazê-la toda. Todos lutam pela vida, mas nós temos de preservá-la também. Estes quinze dias de férias vêm a matar e todos não chegam para tantas tarefas, atrapalhadas por  contínuas avarias de tratores e máquinas de tão velhas já.
            Ainda não é este o inesperado que aguardamos.Há  doze rapazes a estudar, sem encontrarmos quarto na cidade. Por mês vão-se seis mil euros em rendas de quarto, propinas, material escolar e transportes com os outros. Fora a alimentação. Há-de vir quando Deus quizer. Tememos já a saúde deles porque está a ser um calvário para eles e sofrimento para nós. Juntos havemos de motivar a Deus. Não sonhamos, mas quando Deus quer a obra nasce. P. Zé Maria    




G A I A T O                          19 de Maio de 2014


Só quando venho ao computador para cartas ou o Gaiato, é que me confronto com a data. Fora isso, nunca sei a quantas ando. O tempo é breve, e não vale contar os dias, que estes vão acabar. Há-de sobreviver no pensamento a angústia de deixar muito por fazer. Muitos rapazes não estão espiritualmente estruturados. Mas a nossa garantia está em Deus e a Obra está em Suas mãos misericordiosas. Pai Américo foi um profeta para o seu tempo, mas como todos os profetas ouvido e compreendido só pelos corações bondosos dos Pobres que ele servia, abraçava e beijava como uma Madalena indingna, aos pés de Jesus. Soube alicerçar a Obra da Rua no mistério divino do amor pelos homens. Tudo de humano que saia dessa órbita é caduco. Obra de Rapazes, para Rapazes e pelos Rapazes é o gérmen mais puro da democracia verdadeira. Como entender que as melhoras da psicologia actual levem em Portugal a reduzir uma casa de educação de rapazes “vulneráveis” a dezasseis, sendo mais a sociologia empregatícia que eles? Se a ocupação do tempo, livre do estudo, deve ser em tarefas, que eles próprios podem fazer e sem dar por isso, como quem brinca, se vão desapegando dos males da rua e aprendem o gosto de comer o pão com o suor do seu rosto? Como fazer nascer o sentido da responsabilidade, sem que aprendam a dar contas das tarefas confiadas, mormente a ajuda na educação dos irmãos mais novos? Como embebê-los do espírito de família que há-de ser sempre a segredo da estabilidade de qualquer sociedade humana, se até as empresas comerciais procuram esse caminho. Como hão-de alguma vez e com carinho, chamar de pai e mãe senão em Família verdadeira que nunca tiveram? É bela a tradição africana em que os espíritos dos antepassados são a indestrutível raiz da família. Cada vez que procuramos saber donde vieram os nossos rapazes, temos de ir até ao avô, pelo menos, para descobrir quem são os pais. Faz-nos remontar aos tempos bíblicos e não só, pelo que tenho lido. Quando o Pai Américo começou o Património dos Pobres a nível nacional, quem o entendeu melhor senão os Pobres, que querem tenda com que se entendam? Hoje sem se dar conta de que foi ele o pioneiro da justiça social, fizeram-se e deitam-se abaixo prédios de muitos andares, pela degradação de quem lá mora e das moradias que irresponsavelmente entregues a quem não soube utilizá-las, porque a tempo não foi preparado e a casa não é sua. Por isso, põe-se na rua quem não tem para onde ir, e não pode pagar renda, água e luz, por falta de emprego. O que foi feito num sentido de justiça vira um crime de injustiça. Quem ouviu naquele tempo o seu clamor: anda o trabalhador a mendigar o pão? É de hoje não é? Nós por aqui, estamos num mar morto, porque em nome da pobreza se enriquecem uns poucos e os legisladores do estado de direito decretam mordomias escandalosas para si, enquanto por outro lado se tapa o sol, que escancara a pobreza absoluta, com a peneira esburacada da injustiça mais flagrante. A Obra continua carregando a Cruz de cada dia e a subida ao Calvário faz parte da nossa vida. Ainda que outros queiram dar-nos a mão, pensando arrumar de vez com o sofrimento, não abdicaremos nunca, de tanto que há a fazer, de amar a cruz de cada dia. Só Ela é redentora e o mundo o que precisa é de redenção. Não estamos sozinhos. P. Zé Maria





                                         G A I A T O                      16 de Junho de 2014.
Ando a ler a Exortação Apostólica de Papa Francisco. Vou nas primeiras páginas. É numa linguagem simples que até parece familiar que ele se dirige a todos, quer da Igreja desde Cardeais ao colaborador mais humilde na Missão do Reino de Deus. Fá-lo como “A alegria da Boa Nova,” Parece mesmo que se vislumbra uma dinamização do Reino, marcando metas e sinalização às estruturas arcaicas da Igreja que estão a impedi-la. Uma igreja que vá às periferias da própria sociedade,  não só dos paízes considerados pobres, mas também os da economia de mercado, em que o culto do dinheiro, ambição do poder e do ter não conhece limites e está a criar  desigualdade social que, pela sua injustiça cria revoltas, mas uma Igreja que saia das paróquias ao encontro dos caídos, que devem ter  uma “comunidade de fé” que os acolha. E as igrejas não tenham as portas fechadas tanto no sentido próprio como no figurado. E tantas que agora o fazem por medo de ladrões ou só abrem para o culto. Estou a lembrar-me de um amigo que tive em Lisboa que me dizia que quando precisava de recolher-se para pensar, ia a São Domingos na baixa de Lisboa e ali ficava em meditação, que para ele nem era rezar, mas uma necessidade interior.
A exortação do Papa é um autêntico protesto contra a desigualdade social que gera violência.É um alerta a todos os países. “Quando a sociedade local, nacional ou mundial,  abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefenidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz.”
Que dizer desta sociedade em que vivemos aqui? Parece que tudo vem a propósito. Nem me atrevo a um enunciado sumário, porque todos os países da chamada economia emergente estão a ser castigados por guerras, precisamente por isso. Que pena que os políticos não queiram aprender o que o Papa Francisco ensina. E não há outro caminho para a paz, fora Daquele que o apontou há dois mil anos.
Peço aos nossos  leitores amigos: qualquer donativo que nos queiram mandar seja encaminhado para a Casa de Paço de Sousa ou Setúbal. A nossa conta agora é no Millennium- Obra da Rua Casa do Gaiato MZ 59000 1000000 284 314 27657 





            Padre Júlio
Desculpe esta chamada de atenção para o nossa conta. Aconteceu esta semana que uma pessoa quis mandar vinte euros e o banco cobrou-lhe vinte  e seis pela tranferência. Um disparate. Hoje vieram aqui dois grupos de Ministérios comhecer a Casa e trazer alguns donativos. É um bom auspício. Tantas vezes tenho ido à cidade pedir e não trago nada. Um abraço P.e Zé
                                     




             M O Ç A M B I Q U E                                                  01. 07. 14

Em Casa todos os dias são dias da criança. Mas este ano foi realmente diferente. Não o dia, mas todo o mês. Todos os dias, da vida escolar à de Casa houve actividades que visaram a sua formação espiritual para mais Batismos, a escolar e  de entretenimento. Houve até a inauguração do campo de futebol que apesar de marcado desde 1992 nunca foi acabado. Não fosse uma doação de Itália em memória de um filho morto, não seria possível. Vai demorar a completar e a complementar com outros mais pequenos. Com o calor que Deus nos dá  faz muita falta uma piscina e essa talvez nunca venha a ser feita, pelas caraterísticas do terreno rochoso e sujeito a pequenos sismos, pelas explosões nas pedreiras.
 Tudo a pensar neles. Os baloiços renovados e pintados, protecções para a areia. Plasma grande no salão, para os jogos do mundial que mais lhes interessam. Algumas Casas com televisores oferecidos, que há muito não tinham. Programas desportivos aos fins de semana. Festivais de música e dança aqui, por vezes no refeitório, por poupança de tempo. Oportunidades de se revelarem bons comunicadores, bons cantores, bons dançarinos, bons vercejadores e autores de música. Até os mais pequeninos quiseram experimentar exprimir-se, contagiados pelo mais velhos, bons contadores de histórias inventadas na hora. Até ao último dia foi um festival, sem descurar os deveres e obrigações de cada um e cada dia.
Mas isto faz-nos cair também em nós e pensar ao contrário do filho pródigo: quantos em nossa Casa têm pão com fartura e outros aqui perto e ao longe, nesta África explorada mais que nunca, morrem à fome. Quantos eventos, banquetes, simpósios, fóruns, assembleias internacionais e outros nomes que nada dizem e servem para os que nada têm. Tudo para os que tudo detêm: o poder e a riqueza em suas mãos. A pior doença e causa de tantas outras - a fome; a melhor vida e causa de tantas mortes - a riqueza. A força centrífuga da natureza passou aos seres humanos e parece imparável. Será que é? Pelo menos que alguns neste mundo a aumentam é certo. Que outros procuram desvendar o que há além deste, onde possam levar-se, também. Até que Deus chegue e diga basta, Ou até que a alegria da Boa Nova, qual sarça  ardente, alimentada pelo gemido de todos os que sofrem, irrompa inflamada pelo mundo, desfaça as diferenças, derrame o calor do amor (Deus é só Amor) incendiando o mundo que se há-de voltar para o seu Criador, porque no mundo como diz o Papa Francisco “ainda há inúmeros sinais de sede de Deus, do sentido último da vida”. Faltam incendiários  que espalhem a chama pelo mundo fora.P. Zé Maria.




M O Ç A M B I Q U E                  13.07.14
A palavra escrita é mais difícil que falada. E há tantas coisas difíceis na vida da gente que nem sei por onde começar. É mais fácil explicar às mamanas  da Massaca e Mahubo quais as árvores que devem cortar na nossa floresta, para não estragarem as melhores, que desbravar a mente e apanhar no emaranhado da vida aquilo que vale dizer. Uma notícia boa é que temos quatro toneladas de batata semeadas e graças às chuvas que Deus nos deu este ano, a água vai dar para as criar, mas não para ao menos um quarto do Pivot, onde necessitamos plantar feijão para as necessidades da Casa. Com os dois furos de água há mais de dois hectares de alho, cebola, cenoura, tomate e alguma feijão verde a crescer. Também nos tanques de peixe teremos a passar de seis toneladas dele, se conseguirmos afastar as aves de grande porte e bico comprido que o apanham debaixo de água. Quanto à conduta nova, só estudos a finalizar, cujos  custos vamos ter de pagar sem certamente a concretizarmos. Serão muitos milhões de Euros e não haveria como fugir ao agiotismo do Banco, como foi para os autocarros escolares. Por isso não queremos mais nada, nada mesmo com o BCI. Só como foi indicado no último Gaiato. Do Lar para os Rapazes na cidade o inesperado ainda não veio. Entretanto alguns já o ocupam, sem pagarmos o direito de utilização e aproveitamento da terra e a licença de construção, porque quem fez a casa morreu sem tratar disso. A viúva e filha são espanhóis, não estão aqui e ficámos em maus lençóis. Só isso vai para mais de cinco mil Euros, sem juros de mora. Pior se não pagarmos tudo já; corremos o risco de ficar sem nada. È certamente uma situação de risco. Mas para que serve a Fé? Se a não tivéssemos não serviria para nada.  Notícias dos nossos Rapazes são que temos arranjado emprego para tantos quantos. Mas também após bons anos de serviço dois ficaram com tuberculose um pulmonar e outro no pericárdio, provocada pela não utilização, à noite, dos filtros. Após tratamento cuidadoso aqui em Casa, apresentaram-se ao serviço. Um simplemente foi despedido e outro também, mas com a indemnização que lhes apeteceu. O neocolonialismo é assim. O que lhe interessa é defender os direitos de investimento. Investir em recursos humanos não é com eles. Quem está preparado entra, mas sai na próxima oportunidade, para não ganhar direitos. A lei do lucro sobrepõe-se a todas as leis.A de Deus, posta de lado, deixa este mundo, este daqui e de quantos países, à deriva. O Papa Francisco na sua Exortação, que continuo a ler aos bocadinhos, fala a todos paternalmente: ás sociedades quer humanas quer cristãs. Não à guerra e “não à guerra entre nós”Não resisto a transcrever: “O mundo está dilacerado pela guerra e violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar. Aos cristãos de todas as comunidades do mundo quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandescente. Que todos possam admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos encorajais, animais e ajudais. Por isso é que todos conhecerão que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros”Foi o que Jesus ensinou. P. Zé Maria  

Sr P. Júlio Mandei-lhe coisas referentes ao Pai Américo que ao arrumar papeis encontrei. Levei-as para Portugal quando fechou a Casa e trouxe-as sem saber até. Se não servirem para mais nada, podem ir para o Museu de Pai Américo em Paço de Sousa ou levo até os originais. Que o 19 corra bem. Tenho pena de não estar. Mande-nos um resumo disso. Um abraço. Pzé


G A I A I T O         28.07.14


Chegou-nos por quem não esperávamos e que não é da Obra da Rua mas é padre, uma censura. É de quem não nos conhece. E a censura é de que “esta Casa do Gaiato de Maputo gasta muito dinheiro”. Ora talvez haja quem pense o mesmo; se não, nem valeria a pena falar no assunto. É verdade que gastamos muito dinheiro, como é verdade, que recebemos muito em géneros e em dinheiro e, que ando sempre a pedir pela cidade todas as semanas. Ora não dariam nada a esta Casa se não acreditassem em nós, muito menos viriam aqui com os seus dons, com a dificuldade que hoje há em cá chegar e, nem sequer telefonariam a dar recado para os procurarmos na cidade. Quem assim diz, pense que temos dentro de portas cento e cinquenta Rapazes. Toda a criança tem direito a uma alimentação saudável, cuidados de saúde, educação, lazer e tudo o mais do que necessita para o seu desenvolvimento integral.  Além destes, temos mais de cem Rapazes que, apesar de fora de portas, necessitam do nosso acompanhamento e apoio. Alguns estão a prosseguir os seus estudos no ensino geral, ou profissional ou superior. Outros a iniciar a sua vida profissional, integrados em estágios por vezes não remunerados.  A Casa do Gaiato é uma família para os que não a têm, pelo que temos que acudir a cada um consoante as suas necessidades.
Para além disso, a nossa Escola é Comunitária. Muitas destas crianças deveriam estar na Casa do Gaiato pelas circunstâncias em que vivem.  Perante o limite da nossa capacidade resta-nos apoiá-los em transporte, material escolar, uniformes e alimentação e, junto com os avós, tios e comunidade, fazer o nosso acompanhamento para que possam ter uma educação garantida. No caso dos outros alunos, os pais contribuem com as despesas escolares. Actualmente a Escola têm uma comunidade escolar de 791 alunos, desde o jardim de infância até à 10ª classe, e 35 professores, dos quais menos de metade são professores do Estado.
Não basta que se construa uma Escola e peça professores, que eles não vêem. As nossas salas comportam apenas trinta alunos por turma, enquanto que as do Estado mais de sessenta. No Distrito de Boane, quase às portas da capital do país ainda faltam 39 salas de aula. O que não será por esse Moçambique fora em que não há nem escola, muito menos carteiras. É uma contribuição pequena para o que falta à nossa porta.
Apenas estou a falar da educação. Custa-me descrever as necessidades diárias desta Casa, pois desde os cortes frequentes de energia, que muitas vezes nos leva a gastar 1.000 litros de combustível por dia para garantir o seu funcionamento e a perda de equipamento, até às viagens na procura de material, reparação de equipamentos, funcionamento de oficinas ou mesmo na manutenção de uma fazenda para reduzir a dependência de terceiros.
Na verdade é muito o que gastamos e o que nos dão. Mas quem pensa em termos materiais não vê ou não acredita em milagres. A Obra da Rua é um milagre, é um testemunho da justiça, da bondade e da misericórdia de Deus. Pai Américo dizia que é “fruto da pobreza escandalosa dos Padres da Rua”, que tudo deixaram para O servir. Eis porque não possuindo nada, enriquecemos a muitos como dizia São Paulo. Eis como a Obra é o Reino de Deus nas periferias da Igreja e da sociedade como diz o Papa Francisco que recebeu o mesmo sopro do Espírito Santo que Pai Américo. P.e Zé Maria

                                                    G A I A T O              10.08.14


Meu Deus tantas coisas tenho a agradecer. Os nossos rapazes, alguns tão mimosos que encantam. Porque temos tantos? É uma pergunta que profana o amor de Deus, porque se Ele é amor, são o doce amor de Deus por esta Casa acolhedora. Isto nos liberta de amarguras que outros nos causam e nos dá a paz que em tantos momentos do dia precisamos. Somos uma semente  de justiça para eles e por isso colhemos a paz. E neste país onde há pelo menos seis milhões de crianças, mais de metade vítimas de injustiça paterna, familiar e social somos pelo menos um fermento. Ainda ontem apareceu um, há anos aqui chegado como refugiado do Congo. Estudou e voltou ao seu lugar de origem. Estava agora como intérprete de eng.os espanhóis que ali faziam pesquisa de carvão. Ele fala francês, português, inglês, suaili como língua materna, creio que árabe, pois o pai preside a uma mesquita e agora espanhol. Rebentou a guerra onde estava, os engenheiros foram-se embora e passando por vários países voltou a esta Casa onde, desde quando aqui esteve é para ele um lugar seguro. É tal aventura, que até chegamos a desconfiar de tantas andanças para chegar novamente aqui. De qualquer modo é um testemunho eloquente de quem procura a paz. Quem aqui chega quer logo saber se pode adoptar. Por norma leva um no fim de semana, com a recomendação de estar de volta no Domingo à noite e de não lhes dar muitos mimos. Vai haver choros escusados para nós e quem quer adoptar. Há porém carinhos que não podemos evitar. Está a equipa de dentistas que ”a Moçambique Sur” manda todos os anos. Este o primeiro de dezasseis, em que não pode vir o Dr Manoel Oyos, o primeiro a procurar-nos. Ora os mais pequeninos choram com medo, dificultam o trabalho e recebem mimos dobrados. E claro, os nossos dentistas não têm horas para comer. Hoje Domingo, nove da noite, ainda não subiram ao refeitório. Ao meio dia nunca estão; só pelas duas horas aparecem, à noite ao despedirem-se para dormir todos os pequeninos veem dar-lhes e receber beijos e mais beijos. É um caso muito sério nesta Casa, porque antes de aqui chegarem nunca os receberam nem de mãe nem de pai que nem chegaram a conhecer. Eles, os desalojados do coração da mãe, vêem enccontrar aqui o que na raiz do ser lhes faltou.Há um especial, o Argentino. Vem com meio sorriso, os lábios em súplica,os braços estendidos, a pedir um beijo. Não sei se quer dar ou receber. Ambas as coisas.Vai a todos os que estiverem à mesa. No fim sobe para os braços do chefe que o leva ao colo, ou nas cavalitas para a sua caminha. O pior é que nem sempre está com sono e não dá socego aos outros. Num destes dias, às onze da noite, o quarto estava em alvoroço. Ele pula, ele ri, ele canta e dança. Tem só três anos e foi necessário a Mãe levantar a sandália, para todos dormirem em paz. P.e Zé Maria

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Sr Padre Júlio. Já conseguimos retirar o dinheiro do Banco, mas foi quaase uma
 guerra lá dentro, por não quererem atender.





                                            M O Ç A M B I Q U E                      25,08.14



No alvoroço da vida não sobra tempo para pensar.Escrevo o que vem à cabeça neste momento e não serão as coisas que mais nos atormentam. Muitas são de longa maturação e discernimento demorado, como o insatisfatório  acordo de paz, agora ainda não assinado por falta de pormenores de segurança ainda não conseguidos. E o  povo esquecido e marginalizado que cada vez está mais na mesma não é tido nem havido,. Tantos mortos, tantos deslocados e à fome que até os polícias que acompanham as caravanas de carros e camiões que teimam em chegar aos destinos, cobram a todos para sobreviver naquelas longas caminhadas.
Vem mesmo a propósito, a morte do nosso Carlos Elizete. Chamo-lhe nosso porque tudo fizemos por ele, apesar de ter pai que nunca o aceitou como filho, avós e tios bem instalados na vida, que nem ao hospital foram vê-lo e o puseram inteiramente de parte. Foi recebido em nossa Casa com tuberculose resistente pela imunodeficiência do HIV. Cheguei a dar-lhe injecções porque não deixava que lhas dessem. Tomar os remédios e alimentar-se corretamente como era preciso, negava. Várias vezes foi levado ao Hospital. Tem uma grande história. Sempre falava na família, mas nunca apareceram aqui.Nas férias ia a casa de uma enfermeira que cuidou dele quando ficou anos abandonado no Hospital. Já com 18 anos ele próprio conseguiu encontrar os seus familiares que o não acolheram, prometendo-lhe um terreno para fazer uma casa e começar a vida. Agravou-se o comportamnto, chegou a ponto de não querer comer  durante tês dias.
Levou-se em mão uma carta ao Ministério da Acção Social, ao Tribunal de Menores e ao Hospital onde esteve para que o médico que o atendia soubesse da situação.
Saíu daqui com a certeza de que seria acolhido pela família. Mas esta  o rejeitou. Foi à esquadra e a polícia levou-o para o Infantário da Matola. De lá levaram-no ao Hospital. A família sempre e até à última hora não deu a cara. Mesmo ontem alertados para o estado grave em que ele se encontrava, nem quiseram saber. Hoje de manhã a avó foi avisada da morte e ela respondeu que foi Deus que quis. Mas foi-lhe respondido que Deus quer o que lhe pedimos. Agora, então, estava contente porque ele morreu.
Terá sido somente a ideia que o tio lhe meteu na cabeça do tal terreno ou outro desiquilíbrio mental provocado pela doença? Já temos assistido a várias mortes que começaram com o desânimo de viver, com a falta de acompanhamento e aconselhamento. Por isso até, temos um Centro de acolhimento e aconselhamento,  apropriada na Massaca. Os remédios provocam distúrbios até que o organismo os aceite. O alimento equilibrado é fundamentaal. Nada disso faltou de nossa parte. Nunca pedimos a Deus que o levasse. Mas agora pedimos que o tenhe junto de Si e a nós nos mantenha nesta luta de cada dia pelos nossos filhos mais pobres de saúde e espírito.  P. Zé Maria     




M O Ç A M B I Q U E                               22.09.14
  
Falar da nossa Casa não é fácil. Dos nossos Rapazes ainda menos. Da Casa, porque há tantas coisas importantes que se vão reorganizando que só quando tudo o estiver, valerá a pena. Aqui não há promessas, como andam a fazer os políticos, Há que esperar. Falar dos Rapazes, é entrar num mundo ainda para nós tão enevoado que é preciso que o sol se levante para ficar tudo a descoberto e resplandecer. E como resplandecem alguns! Depois de vinte e três anos a lidar com eles, cada um tem o seu interior oculto e misterioso e eles já são tantos que aqui passaram e cada um diferente! Assim o que fazemos por eles é paralelo ao que fazemos para eles. Todos os dias à noite há hora de queixas e correcção. Todos os dias são de trabalho para melhorar as condições em que vivemos. Claro que muito fica à espera de possibilidades. Maldito dinheiro que é estorvo na formação das crianças e na sustentabilidade das estruturas materiais, que no uso quotidiano se degradam. Graças a Deus que abrigam um organismo vivo – a Família desta Casa e não correm o perigo de virar em museu, como as nossas Casa de Portugal, se o Governo não abrir os olhos para quantos abnegadamente lá vão gastando suas vidas heróicas, sem onerar num cêntimo o erário público, sempre queixoso de não ter cobertura para o Orçamento do Estado. E gasta rios de dinheiro em funcionários que assistem às crianças, que a mobilidade programada, não deixa tempo para serem verdadeiramente educadas, nem tão pouco para ganhar afectos a quem delas cuida. Por nossa Casa vamos pensando sim, em reduzir o número para cem, das que podemos paternal e maternalmente educar. Angustia-nos ainda e muito a quase centena deles que estão fora a estudar e até a trabalhar sem um salário digno, mesmo nas grandes empresas que vêm aqui buscá-los, não digo à procura de mão-de-obra barata, mas de pessoas, que à partida lhes sirvam. O pior é que calculam o salário pelas ganâncias e não pelo rendimento sacrificado de quem as serve. As rendas chegam ao absurdo de trezentos e quarenta Euros, numa palhota. O resultado é a multiplicação de barracas nas grandes cidades em desenvolvimento. Já tínhamos nós construído muitas casas em alvenaria com quatro cómodos, modestas sem dúvida, quando ouvimos um Governador de Província dizer que não iria permitir mais casas em materiais locais. Agora ou já não é ou cala-se. E quantas crianças em Escolas assim e quantas à sombra dos cajueiros. Os grandes projectos estão a concorrer para o orçamento do Estado com menos que os pobres comerciantes de rua, de passeios atulhados e jovens a estender a mão a quem passa, para vender alguma coisa. Parece mais uma cidade de pedintes, esta que se diz princesa do Índico. Pobre Moçambique de grandes recursos minerais. O que vai ser quando a terra se desentranhar em riquezas e os seus filhos a ser afastados para onde faltam recursos, que se outros houver andarão perdidos, de trouxa às costas naquilo que é seu. Já aparecem vozes a reclamar e quem as ouve? P. Zé Maria.
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PARA A REDACÇÃO DO GAIATO 

O meu irmão Nuno Ferreira Costa morador na Amadora deixou de receber o Gaiato. Peço que renovem a assinatura. Se ele não tem pago, pensem que é ele que me dá cama, dormida e transporte quando vou a Lisboa em tratamentos e outras despesas. Merece muito. O P. Zé agradece a atenção.


                       M O Ç A M B I Q U E …………………….05.10.14

O Vicente veio para nós aos onze anos. Vinha da Matola aqui a pé. São mais de vinte  km. Toda a semana aparecia. Sentava-se à mesa cheio de fome. Regressava, porque sempre lhe dizia que tendo pai tinha de ser ele a tomar conta. Ele voltava e sempre a nesma resposta. Até que um dia o pai foi parar ao  hospital e pensava ele que iria morrer porque estava muito mal. Nesse caso ficou, mas soube mais tarde que  era mentira. O pai doente sim, era um antigo guerrilheiro e não regulava bem da cabeça. Ainda estávamos na Massaca. Um dia apareceu, acompanhado de mais uns quatro dizendo que tinha de o levar. Ia matá-lo para desfazer o feitiço, porque ele era culpado de estar doente. Antes de sair de Casa avisei o Vicente, que desapareceu na hora, saltando a sebe e esteve dois dias desaparecido. Corri à Barragem, pedi a intervençaão da Polícia que veio logo. Quando chegámos eles já se tinham afastado e a  Polícia ficou por ali a vigiá-los até que desistiram e foram embora. Passados uns anos, o pai morreu. Demos-lhe o necessário  e ele foi. Regressou no mesmo dia muito triste porque só ele no funeral. Uma tia que tinha não apareceu e aos sete dias foi depositar flores na campa, como faz sempre que vem cá. Entretanto cresceu. Um dia teve notícias de que a mãe, que não conhecia, estava em Magude. Foi à procura dela. Foi no ano dois mil. Teve de atravessar o rio com a trouxa de roupa à cabeça para a procurar em Xinavane. Não encontrou. Com muita aplicação fez o Curso médio de Laboratório e foi colocado em Inhambane. Chegado lá, com papel de nomeação do Governo, o Director do Hospital não queria rcebê-lo. Com garantia de alojamento acompleto e trém de cosinha, nada lhe foi dado e arranjou uma palhota para viver. Mas o Vicente é um belíssimo rapaz. Apresentou-se na Comunidade católica e ficou como catequista, o que ele tem desempenhado com diligência. Era especilizado em laboratório para o HIV. As Ir.Franciscanas tiveram pena e deram-lhe uma casa de quarto e sala. Após uns anos pediu para tirar a licenciatura. Ficou com meio salário e demos-lhe durante quatro anos o apoio para alugar um quarto, alimentar-se, pagar propinas e o mais. Licenciou-se. Veio a nossa Casa para Dar graças  a Deus na Celebração do Domingo e agradecer aos companheiros o sacrifício que tivemos de fazer por ele. Pus-lhe uma condição: fazer a homilia. Aceitou, mas pediu que estivesse vestido com a sua toga. E assim foi. Até me espantou o ângulo em que encarou as leituras do dia. Não pôde estar presente o Pinto, que se formou em Administração Hospitalar, por ter adoecido. Vai aparecer esta semana. Não veio  o Sebastião, ainda  a contas com o exame final de medicina. Se os outros custaram, este muito mais e está a pagar o seus devaneios até que acabe.A aplicação, o interesse são o fundamento mais forte para chegar à meta do conhecimento. De nada basta a inteligência, que tanto serve para o bem como para o mal. Os três formaram-se na Universidade Católica da Beira. Outros já se formaram, outros ainda estão a caminho, ou começaram e vão começar este ano e após outros se seguirão. Somos uma gota neste imenso Moçambique onde já há faculdades a mais e verdadeira formação a menos e muitos não encontram emprego. Pelo bem e pelo mal, graças a Deus. P. Zé Maria  




                          M O Ç A M B I Q U E                    14.10.2014



“O meu refúgio está no Senhor. Porque me dizem: foge para os montes como um pássaro?” São dois sentimentos contraditórios que hoje ao rezar a oração da tarde me chamaram a atenção. Tantas vezes me ponho diante dEle e me  parece sentir que o Espírito do Senhor está sobre mim  e por isso me ungiu e enviou para aunciar a boa nova aos pobres,  como Jesus leu na Sinagoga de Nazaré, naquele tempo e se tornou uma realidade para mim. Fez cinquenta e quatro anos que Ele também me ungiu para esse serviço. Mérito? Todo para Ele, pois dEle tudo recebi e fez-me tudo para todos. Não fui digno de ser escolhido. Outros desejaram sê-lo e não foram. Mas sim profundamente indigno de tudo o que o Senhor quis  de mim e muito egoista e injusto seria se calasse o imprescindível e até  doloroso trabalho,  daqueles que me acompanharam ao longo destes vinte e um anos, que fizemos no Domingo também. Muito mais que eu fizeram e estão a fazer, até que as forças nos permitam. Foi um dia de acção de graças, rodeando o Altar, cantando e dançando como se faz na liturgia africana. A nossa Capela está desenhada com espaços apropiados, envolvendo toda a assembleia e o Altar. Estava quase cheia, com a Comunidade da Massaca e as meninas da Halima, todos cantando com entusiasmo, ao ritmo dos batuques. Como gosto!
Houve um senão. Desde a véspera que não tínhamos corrente elétrica e o nosso gerador teve grande avaria. Não houve apoio do som.  Ainda não sabemos se o motor também queimou. O que soubemos, depois de muito trabalho para que viessem repor a energia foi que, para a garantir  na fazenda de alguém importante que lá passara a noite e o Domingo, tinham desligado todos os ramais do caminho. Coisas desta terra! Os Pobres que se danem. Parece-me, ao ver no noticiário de Portugal os rostos da Troika que também ela pensa o mesmo. Onde vamos parar?         Faz lembrar a abominação horrífica de que fala o profeta Daniel, quando os homens viraram costas ao Criador e se voltaram para o falso deus, o dinheiro.
Por isso, aquela segunda estrofe do salmo da oração: “foge para os montes como um pássaro” me fez estremecer.Verdadeiramente não temos asas para fugir. Mas de tanto fazer e agora nada poder, estamos sem asas para voar.“ É na tua fraqueza que a minha força se revela totalmente”, disse Ele a São Paulo. Acreditamos e por isso sofremos vergados ao peso das dificuldades, como aqueles que sobem as montanhas, vergados sim, mas sabem que o fim do cansaço só se atinge nos cumes. Sangue e suor ficam pelo caminho e depois brotam lágrimas de alegria nos panoramas deslumbrantes que se desfrutam. E se ainda temos forças para subir à nossa montanha, não posso duvidar, por um momento, que forças para subir o calvário da vida não faltarão.p.e Zé  




                                        M O Ç A M B I Q U E                                  20. 10 14





Meu Deus, eu creio em Vós, mas aumentai a minha fé. “Não há no mundo alavanca mais forte para fazer face à vida” como a Fé, dizia Pai Américo. Tão enfraquecido estou que não tenho mais para onde me virar e toda a minha confiança está em Vós. Sei que velais por nós até durante o sono. Posso dormir tranquilo, que é uma vantagem grande para, na alvorada, encarar outros desafios. Os problemas que nos atormentam nesta Casa de Moçambique são muitos e surgem como cogumelos debaixo dos pés em cada dia. Os dos Rapazes já bastariam para nos encher as horas do dia e da noite. São os que surgem de fora. A falta de correspondência aos apelos de ajuda. A burocracia que nos tira a alegria de viver. Por respeito não atiramos à cara  de quem tanto nos exige, que  nada têm para si nem parecido com o que temos e fazemos aos nossos. Mas é  a corrupção, engalanada com atavios  do poder, da força do poder, neste caso, só vencível com dinheiro na mão. Como não temos, baseiam-se em razões, em artigos e alíneas que desconhecemos, para nos assustar. E ficamos entre duas paredes. De um lado  está o poder de que vêm revestidos e temos de respeitar: do outro é a nossa fraqueza de não termos tido tempo para saber dos meandros burocráticos em que nos enleiam. E já apertaram tanto o cerco que chegaram a ameaças de prisão. É a falta de uma assinatura que há um mês, quase diariamente, procuramos, para receber uma ajuda da Segurança Social de Portugal. É do ministério da tutela, a quem tanto temos ajudado ao receber crianças sem ninguém, às vezes sem identidade ainda, com mais de três anos, que nos trata assim, sabendo que vivemos apertados em dificuldades económicas e parece negligenciar o que tanta importância tem para nós. Já lhes disse que este ano não receberemos nenhuma, pela necessidade de ficarmos pelas cem. Não vale a pena dizer mais, mas avaliamos os motivos. Veremos quando assentar o pó das eleições. Parece que estamos a escavar um túnel na rocha dura. Temos a certeza que a Luz está do outro lado. Porque, como dizia o Pai Américo em Fátima “o Samaritano é o único que vence todas as partidas” Que nos importam os atropelos, as ameaças, os castigos das leis dos homens? P. Zé Maria.
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Sr Padre Júlio, espero qu leia esta antes da reunião, para corroborar a carta que lhe enviei e peço que leia aos nossos Padres. Como P.Manuel de Benguela está aí deixe-o oito dias ao leme da Casa e venha.Aguardo boas novas do P. Rafael, trazidas da Argentina. Desejo a todos os meus Irmãos uma profunda alegria e confraternização nesse Encontro. P. Zé
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ao Júlio Fernandes. Vão fotos, como já têm ido daqui. Não sei se as tem tirado.
Um abraço. P. Zé



M O Ç A M B I Q U E                                 03. 11. 14

Perturba-se a minha mente quando ao querer educar os nossos rapazes, estou a conviver com adultos de problemas proporcionalmente muito mais graves. Há falta de sentido de justiça, de paz nos lares e de amor consequente. A injustiça é um problema universal e tão complicado que até as Nações Unidas se desagregam por incompatibilidades entre países representados no grande areópago. Há apelos para não deixar morrer crianças e adultos à fome ou vítimas da guerra e aparecem fundos para atenuar as catástrofes. Mas imperam bem acima de tudo, os interesses económicos que não são apenas dos Estados, que continuam a pôr e sobrepor riquezas que são de todos e amontoam os cadáveres dos trabalhadores, que com suor e sangue as produzem e as tornam veneno para os seus próprios corpos. Não há uma voz autorizada para dizer basta. Só a Fé que arrasa montanhas, poderá moderar os instintos assassinos dos grandes grupos. Mas as religiões também favorecem os ricos e lhes reservam um lugar de honra nas assembleias. A nossa católica continua a ser um “pusillus grex” como lhe chamou Jesus, um pequenino rebanho, que escuta a palavra do seu Pastor Francisco, tão simples, mas que demora a assimilar, para que cada cristão individualmente se fortaleça e revestido das armas da Fé enfrente a luta contra este mundo de trevas. À nossa volta a filosofia de vida é a mesma em proporções desproporcionadas, porque estamos num país em formação, que em bem poucos anos emparelhou com os mais ricos em estilo de pirâmide. Na ordem social, a injustiça produz revoltas em quem nada tem e por isso nada tem a perder. A família é o único reduto da formação do homem. Muito se diz de bom no povo moçambicano, mas tem os seus hábitos e tradições, cicatrizes também do tempo colonial, que agora aglutinadas no consciente da independência se interligam e reforçam. Tudo o que atrás fica dito marca-a com sentimentos que sedimentam mansamente, mas geram reacções também. Roubar a quem pouco tem ou matar para roubar ou matar a quem roubou é a mesma coisa. Não entro na linha dos sequestros que esses ou são comandados à distância pela máfia do dinheiro, ou por cópia são orquestrados por espertos, manipulando os que nada têm, que esfomeados aproveitam a oportunidade de apanhar um pouco do bolo. Há também os oportunistas e aqui mexem connosco, arranjam esquemas para os seus negócios, servindo-se do seu lugar e posição no trabalho, para roubar e desviar a desconfiança para os colegas. Se formos a analisar são pais que em casa não vivem bem. Há maus tratos à esposa e filhos. Há uma inconsciente mania de grandeza, que se manifesta em carro novo ou empresa próspera, á custa de roubos encapados, com jantares em grupos de amigos com iguarias roubadas, negligência sorrateira do trabalho, driblando os até então amigos em atitudes estudadas que perturbam o nosso viver e o relacionamento com trabalhadores inocentes ou tolhidos pelo medo. Para onde vais Moçambique com gente assim! P. Zé Maria                      




                            M O Ç A M B I Q U E           17.11.14


Esta quinzena tem sido muito tormentosa e ao mesmo tempo de radical organização estrutural, do futuro desta Casa. Bàsicamennte ficou definida em Estatuto a nossa interligação com a Obra da Rua e com a Igreja Diocesana. Para mim foram estafantes os dias de reuniões e as caminhadas necessárias à cidade, que ficando perto nos roubam metade do dia. Mas tudo isso é oração de trabalho, acção de samaritano, para procurar melhor dignidade de vida para aqueles mais de duzentos e vinte rapazes que Deus entregou em nossas mãos. É como que um redobrar de entrega. Entregámo- nos nas mãos dEle, Ele entregou-se a nós na pessoa dos mais pequeninos, e carregamo-los como uma Cruz com a Fé de chegar junto dele um dia e poder dizer: Senhor aqui estão os que me deste. Eram teus e Tu mos deste.Olhando para a nossa vida com os olhos da carne, é de loucos. A nossa Casa de Maputo gasta do vil dinheiro mais que todas as de Portugal. Olhando à nossa volta aqui, parece todo o mundo de cabeça perdida à procura de lucros ainda que justos e assim fosse todo o modo de acumular. Mas a engenharia da corrupção é maior e mais engenhosa que a da justiça e até das leis. Até quem quer ser honesto não o consegue. Num mundo assim, encontrar corações caridosos que percebam e ajudem o nosso trabalho é quase impossível. É mais fácil entregarmo-nos nas mãos de Deus e dizer como Pai Américo.”Senhor toma conta, que eles são mais Teus que meus”. E sabemo-lo por experiência, porque a Obra é de Deus, mas também sabemos que Ele nada faz sem o nosso concurso e há que ir até ao esgotamento dos nossos recursos espirituais e físicos e fico assombrado como ainda tenho forças para ir tão longe. Como não é a primeira vez que me acontece, penso que não é desta que vou morrer. Vamos em frente com um sonho ou um projeto, como agora se diz. Transformar os recursos dos 1.062 ha da nossa fazenda em fonte de sustentação dos nossos duzentos e vinte e tal rapazes. Se a sociedade, tão convocada hoje a um compromisso de justiça social pensa que isso é para Chinês ouvir, perdoem-me o sarcasmo, quando afinal é a maior beneficiária dos que saem do nosso coração e das nossas mãos, e não nos quer ouvir. Se temos à nossa disposição terra que baste para nosso sustento, não podemos hesitar nem duvidar de que Deus o quer. Mais uma vez me vem o nosso Poeta; “o homem sonha, Deus o quer e a Obra nasce”. P. Zé.



M O Ç A M B I Q U E………………………………14. 12. 14

Tem sido impossível ir à cidade. Não fossem alguns compromissos com nossos Amigos que esperam, nem iria. É muito mais saborosos recebê-los aqui em Casa com os nossos Rapazes à volta, em clima de festa, porque amados. Tem vindo grupos de empresas e de famílias partilhar os seus bens e saborear o nosso almoço. Estamos sempre prevenidos, não aconteça que de religião muçulmana alguém não possa saborear a feijoada. Quantos para não nos desgostarem fazem a caridade de comerem, procurando que não demos por isso. Como gosto desta comunhão de amizade, que na hora que vivemos para boa parte do mundo é um exemplo de convivência possível. São sinais de que a perversidade dos homens não vencerá. “O humilde vence sempre”, como ensinamos aos rapazes. E ninguém mais humilde que Deus. Fez-se homem e nasceu nu, perante o olhar embebecido dos pais, que constituíam a sua família terrena. Outro ensinamento. A família vencerá, essa é a vontade de Deus. A ideologia materialista sem dar por isso, opôs ao Natal o dia da Família e deixou a porta da verdade escancarada. É a raiz a clamar o seu direito natural. O que for desenraizado definhará. Pelo conforto que neste tempo nos sentimos possuídos, pelos sentimentos que trazem até nós tantos amigos, o Natal é e será sempre uma Luz a brilhar. Uma estrela encaminhou os magos do oriente. Até por aí vemos que Deus conduz o mundo para si. Só é lamentável, até que se concretize esse desígnio, tenham tantos transformados Deus em bezerro de ouro e multidões sejam imoladas em holocausto sacrílego, anti-humano e anti- natural. Como pode o homem ambicionar riquezas de sangue se nem Deus o quer e ele não é nada? O poder, a glória, a grandeza deste mundo hão-de perecer, como o capim das estepes ou a semente plantada à beira do caminho e nem a alma se aproveita. Será que Deus que é infinito em sua misericórdia o quererá acolher? Se Jesus chorou sobre Jerusalém é porque o homem não quer mesmo nada de Deus. Que Deus proteja de ambições quantos têm sido a Sua presença junto de nós. P.e Zé Maria

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Querido Padre Júlio
Foi para nós um grande consolo ter vindo. Um obrigado do coração. Já me custava senti-lo perto de nós, pois se tinha tornado tão distante que parecia impossível. No Brasil, contactei com padres diocesanos “ ad gentes”. No próximo ano virá aqui o superior de um deles. A acção apostólica da Aliança de Misericórdia é muito diversificada e está espalhada de São Paulo ao norte e sul. Digamos que abarca actividades, embora muito simples, iguais às do Calvário, Gaiato, Património dos Pobres, os sem terra nem casa.
Não sei se aqui chegou a conhecer o P.e António, visitador das cadeias. É a matriz donde saiu do Brasil. Veio aqui, depois de eu chegar, o Superior de Roma. Viu tudo, falou com todos que puderam falar-lhe e levou para Roma o assunto para estudar. Ainda um outro, pároco de Igreja onde batizei a minha sobrinha também é “ad gentes” Vou manter-me em contacto com eles. Deus fará o resto se for essa a Sua vontade. Qualquer notícia comunico. Não esqueça o nosso Lar na cidade. As despesas são um pesadelo tremendo. Um Santo Natal para si e para todos. P. Zé


G A I A T O                                         29.12.14



 Estamos no final do ano. Foi difícil superar as dificuldades, mas já no ano passado assim foi. Não acredito que seja a nossa fé a arrazar montanhas, mas que Deus está lá no cimo a olhar por nós e a vir ao nosso encontro com pessoas que têm um amor concreto nas suas vidas, que as impele à partilha. Mesmo que por rotina algumas o façam, para nós traz um sentido de alegria e justiça, Natal é mesmo tempo de partilha. Cristo veio mesmo como um irmão, carne como a nossa, partilhar com o homem todas as alegrias e tristezas, como um verdadeiro irmão. O nosso Natal foi um céu aberto, com sol e nuvens como é próprio deste tempo. Vieram passar uns dias muitos dos que estão longe ou perto, alguns com suas mulheres e filhos.Momentos de reencontro como família que aqui é verdadeiramente grande. Na casa dos pais há sempre lugar para todos.  Rapazes que trouxeram esperança, alegria a todos nós e fez aos de Casa rever seus comportamentos, perante o exemplo de mais velhos que até os subtituiram nas limpezas da cosinha, casas, copa e refeitório. Alguns ainda sem horizonte para constituir família. Não está fácil e sabem acautelar-se, assegurando o terreno, alguns materiais para depois concretizarem por suas mãos, como aqui aprenderam, o sonho que foram acalentando. Como fico contente. Mostram  a planta que fizeram e levantam a sua casa, aos fins de semana. Demorará anos. Mas a vida dos pobres é assim, um caminho doloroso para amadurecer e saborear esforços, depois. Vamos começar o ano nas mãos de Deus. Planos não  faltam, como se tudo dependesse de nós. Começaram as chuvas,recomeça a esperança da terra a florir e as sementes vão nascer. O resto é com Deus e com com quem O traz no coração. Também quiseram passar aqui o Natal dois voluntários. O Raúl de Espanha e a Cíntia dos arredores do Porto. A eles e a todos que vieram ao nosso encontro agradecemos e oferecemos o coração em Festa e esperança de todos os nossos Rapazes e que a alegria permaneça em todos como se fosse sempre Natal, no ano que começa.Também para nós desejamos que o Menino, já saído do presépio, nos ajude a crescer no vigor do nosso carisma, em sabedoria e graça perante Deus e os irmãos.P. Zé




G A I A T O                                             25-01.15


Queria saber escrever. Quanto mais leio mais o desejo e não consigo. Acho que é pretenciosismo saber escrever.A Pai Américo saía em borbotão o que queria dizer. O Abel seu motorista disse-me que fazia parar o carro e quando ele demorava, dizia: “escreve depressa, se não perco a veia”.Ele tinha água viva a jorrar quando escrevia e até quando falava a gaguejar.Também se chama veia de água àquela que na profundeza da terra.Quem já entrou numa mina debaixo da terra e vê a água a borbulhar das paredes, fica maravilhado. É um milagre para quem acredita, uma delícia pela frescura, pela satisfação, que traz ao corpo sedento. Debaixo da terra a água  segue um caminho, que só especialistas dotados, são capazes de descobrir, à superfície. Passei uma hora com um célebre Padre Salesiano que  localizava até pessoas desaparecidas e ele com um objeto dessa pessoa  numa das mãos, percorrendo vários itinerários em cima de um mapa de Portugal e na outra um pêndulo com fio de seda, quando este começava a girar violentamente dizia: “está aqui. Procurem lá”. No meu caso em que buscava água para a colónia de férias da Ericeira, nada apareceu. E ele ao fim estava cansado. Outros a localizaram a cem metros de profndidade mas também não estava la. Porque será? Deus me faz refletir: “quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede e a água que eu lhe der tornar-se-á uma torrente a jorrar” Significa que estou seco por dentro.Tão seco, por dentro, como está a nossa terra por fora. As sementeiras em perigo de perder-se. A água é imprescindível, seja para mim a água que Cristo dá, seja para a natureza que nos ampara com seus produtos. Mais seco ainda pelas agruras da vida que alguns rapazes transportam em si e neste recomeço do ano lectivo estão  inseguros quanto ao ideal de vida. Nós temos de pensar por eles, limitados pela insegurança em que vive a sociedade, insegurança maior a deles ao viverem num ambiente de desiquilíbrios tentadores ao deixa andar, que faz esquecer  que está na hora de formar afincadamente a sua personalidade. Mas a água Senhor! A secura do ar até me perturba o discernimento. Se há em mim, como não  neles? As palavras que tenho de lhes dizer têm de ser vivas e para o serem preciso dessa água. Senhor dá-me sempre, mas sempre dessa água e que a da chuva caia abundante sobre os nossos campos, do nosso povo tão sofrido pelo trabalho em vão. Tanto se continua a dizer que vai acabar a pobresa absoluta e como penso, não será possível sem a água viva que vem de Vós. P. Zé Maria



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Padre Júlio. Duvidei se devia mandar esta. Creio qu é mesmo o calor que me faz sentir seco e por isso aqui vai assim mesmo. Um abraço Amigo P. Zé



                                       M O Ç A M B I Q U E      08.02.15

No início do ano lectivo, há que arrumar muito da nossa vida, em Casa. São as matrículas nas Escolas dos que estudam fora, mais os seis deste ano pela primeira vez. Os livros, que o Estado não dá a partir da sétima, as mochilas, cadernos para todas as disciplinas e uniformes. Tudo preparado para o dia da abertura das aulas e para cento e cinquenta deles que estudam em Casa. Não fosse a ajuda preciosa da Tia Maria José, da Cíntia e do Raul, voluntários que estão connosco, seriam dias, sem noite para descansar. Que alívio nos dão. Uma vez arrumado, houve lugar e tempo para a eleição do Chefe e sub-Chefe da Casa.  Os que até agora mantinham todos na ordem e tudo no seu lugar para não parecermos uma organização desorganizada, vão estudar na cidade. Houve um período de tempo para pensarem nos elegíveis, Escolheram quatro: Carlos,Orlando,Zito e Moisés. Na tarde deste sábado tudo se preparou para a eleição: os boletins de voto com a cara dos elegíveis, a lista dos eleitores, a mesa com a urna. Porque se há-de chamar urna nem eu percebo. Seerá para enterrar uns e deixar  outro de fora? O lugar apropriado para o preenchimento, com observadores, que por verdade irónica foram até  internacionais, uma portuguesa e um espanhol, que conferiram o nome dos eleitores e a totalidade do votos depositados. Eleitores os que tinham a quarta classe. Mais de cem. Depois da introdução do voto na urna, cada um se retirava para as escadas da Capela. Após o que   dentro desta, num acto solene como o local exige, foi desdobrado o voto e feita a contagem, pela  Comissão Eleitoral constituída pelo Francisco e o Félix, chefe cessante. Depois da oração da noite viemos ao refeitório e foram aclamados eleitos: Chefe O Carlos e Sub o Zito e “as eleições livres, justas, democráticas e transparentes”. Os respectivos foram convidados a pronunciarem-se. Aí começou a brincadeira. O Armindo e o Dimão, que até pareciam profissionais da Comunicação, armados de celulares  em respórteres, tudo à maneira, fizeram as mais adequadas e disparatadas perguntas acerca do programa do governo da Casa. Repetidamente foi preciso pedir silêncio para se ouvirem as perguntas e as respostas, porque as gargalhadas dos ouvintes atroavam o refeitório. Vale dizer que tudo foi filmado por Eugóglio, um profissional e bem apetrechado fotógrafo que está de visita, com a incumbência  de filmar tudo quanto tem sido cooperação da Fundação Moçambique-Sur conosco. No próximo Domingo o Conselho Constitucional procederá à investidura. Ora bem, ora bem acrescentaria Pai Américo, tudo muito certo aqui em Casa, mas quanta astúcia, quanta malícia, quanta arte os nossos rapazes, malandros mesmo, meteram de princípio e de permeio para o imprevisível para nós dar certo. Certo? É o que se verá logo que o Chefe eleito e o sub- Chefe iniciem seus mandatos. Afinal pretendíamos que aprendessem a votar em democracia e foram eles que nos ensinaram como é mesmo a democracia em Moçambique. P. Zé.




MOÇAMBIQUE                                          22.02.15

Tem sido atroz, para a nossa pobre lavoura a falta de água. Primeiro foi o pivot que falhou. O material antiquado e por mais que se tentasse alinhar para iniciar a rega tínhamos de o parar. O milho já semeado, começou a estiolar. Houve que ir à África do Sul encomendar uma remessa de peças novas e na semana seguinte ir buscá-las. Demorou a montagem e de tanto mexer no quadro de arranque falhou a peça de comando. Mais outra ida e outra volta. Fez-se entretanto a limpeza do reservatório de água para não sermos surpreendidos com entupimentos e o depósito ficou vazio. Quando se vai a ligar a captação da lagoa de água das chuvas, a única reserva que temos, a bomba não dá rendimento. Empanques novos, fugas no chupador, tudo se renovou e nada. Abriu-se a bomba e está gasta. Dois dias à procura de uma turbina na cidade e não há. A que aparece, não bem igual e portanto de um rendimento suspeito fica por mil dollares. Não temos. Há que guardar o pouco que nos dão para outras necessidades. Temos um grupo de socorro para o pivot, mas é preciso adaptá-lo. Espero que ao final do dia fique a tirar água. Entretanto passou-se um mês sem chuva e o milho perdeu-se. Vamos valer à soja já semeada, que as senhoras da Aldeia andaram a sachar. As hortaliças vão-nos alimentando com a rega gota a gota que um amigo quase nos ofereceu, de tanto que descontou com o muito que nem chegamos a pagar. Como a água é importante para a vida! Até o corpo humano tem uma percentagem elevada. Damos conta quando há uma desidratação. Mas quando corre á vontade na torneira nem ligamos. Quando a bebemos num dia de calor é maravilhosa. Quando chove e nos molha da cabeça aos pés, ficamos incomodados e desprezamo-la. Quando sabem de tantos que morrem à sede, nem ligamos e nem pensamos que um dia pode acontecer connosco. É caso para dizer com a água não se brinca. Mas brinca-se nas praias e nas piscinas e nem pensamos que é a mesma que sobre por evaporação e cai por condensação nas camadas atmosféricas mais frias e transforma-se em chuva que alimenta as nascentes, os rios e os mares. Mas não nos que no princípio “o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. São Francisco cantava “Louvado seja Deus na natureza, louvado seja pela preciosa, bondosa água, irmã útil e bela, que brota humilde, é casta e se oferece a todo o que apetece o gosto dela” Deus fez, os poetas cantam e nós alienados ou sequiosos, utilizamo-la ou desprezamo-la. Cortamos o espiritual ao material, desumanizamo-nos. P. Zé Maria.


                                       M O Ç A M B I Q U E      09.03.15

No início do ano lectivo, há que arrumar muito da nossa vida, em Casa. São as matrículas nas Escolas dos que estudam fora, mais os seis deste ano pela primeira vez. Os livros, que o Estado não dá a partir da sétima, as mochilas, cadernos para todas as disciplinas e uniformes. Tudo preparado para o dia da abertura das aulas e para cento e cinquenta deles que estudam em Casa. Não fosse a ajuda preciosa da Tia Maria José, da Cíntia e do Raul, voluntários que estão connosco, seriam dias, sem noite para descansar. Que alívio nos dão. Uma vez arrumado, houve lugar e tempo para a eleição do Chefe e sub-Chefe da Casa.  Os que até agora mantinham todos na ordem e tudo no seu lugar para não parecermos uma organização desorganizada, vão estudar na cidade. Houve um período de tempo para pensarem nos elegíveis, Escolheram quatro: Carlos,Orlando,Zito e Moisés. Na tarde deste sábado tudo se preparou para a eleição: os boletins de voto com a cara dos elegíveis, a lista dos eleitores, a mesa com a urna. Porque se há-de chamar urna nem eu percebo. Seerá para enterrar uns e deixar  outro de fora? O lugar apropriado para o preenchimento, com observadores, que por verdade irónica foram até  internacionais, uma portuguesa e um espanhol, que conferiram o nome dos eleitores e a totalidade do votos depositados. Eleitores os que tinham a quarta classe. Mais de cem. Depois da introdução do voto na urna, cada um se retirava para as escadas da Capela. Após o que   dentro desta, num acto solene como o local exige, foi desdobrado o voto e feita a contagem, pela  Comissão Eleitoral constituída pelo Francisco e o Félix, chefe cessante. Depois da oração da noite viemos ao refeitório e foram aclamados eleitos: Chefe O Carlos e Sub o Zito e “as eleições livres, justas, democráticas e transparentes”. Os respectivos foram convidados a pronunciarem-se. Aí começou a brincadeira. O Armindo e o Dimão, que até pareciam profissionais da Comunicação, armados de celulares  em respórteres, tudo à maneira, fizeram as mais adequadas e disparatadas perguntas acerca do programa do governo da Casa. Repetidamente foi preciso pedir silêncio para se ouvirem as perguntas e as respostas, porque as gargalhadas dos ouvintes atroavam o refeitório. Vale dizer que tudo foi filmado por Eugóglio, um profissional e bem apetrechado fotógrafo que está de visita, com a incumbência  de filmar tudo quanto tem sido cooperação da Fundação Moçambique-Sur conosco. No próximo Domingo o Conselho Constitucional procederá à investidura. Ora bem, ora bem acrescentaria Pai Américo, tudo muito certo aqui em Casa, mas quanta astúcia, quanta malícia, quanta arte os nossos rapazes, malandros mesmo, meteram de princípio e de permeio para o imprevisível para nós dar certo. Certo? É o que se verá logo que o Chefe eleito e o sub- Chefe iniciem seus mandatos. Afinal pretendíamos que aprendessem a votar em democracia e foram eles que nos ensinaram como é mesmo a democracia em Moçambique. P. Zé.




M O Ç A M B I Q U E     23   03  15


Eu não queria ser Papa. Mas queria ser um homem vestido de branco que vai aos lugares em que as crianças com fome, só vivem o medo da guerra todos os dias, onde não há mão que leve pão, mas há bombas a rebentar com elas e a despedaçar a ânsia de ter alguém à beira que as aconchegue  e beijá-las, abraçá-las a rir-se para elas, com o  coração em festa, para lhes transmitir a alegria de estarem vivas e fazer florir o seu coração de esperança. O “Tu es petrus” que cantávamos outrora já não é deste tempo. Ninguém pensa em pedra nem em basílicas de pedra, nem em santuários de pedra, quando vê este Papa.  Haja um poeta que cante um hino onde caiba: tu és a alegria do meu povo, os olhos da minha alma, os braços do meu corpo, os meus pés de mensageiro da Paz, do peregrino que sempre fui entre os homens, do coração que tanto tem amado.
Ando porém aqui, às vezes de camisa e calças sujas, de mãos sujas de tirar hervas bravas, de sandálias enlameadas de pisar o chão molhado do gotejar precioso, porque a água é preciosa numa terra árida sem chuva, onde o povo morre à fome e eu como filho pródigo, não consigo ser igual , porque sei o que fazer, onde tantos não sabem fazer, onde a cultura se confunde com a terra e os costumes, como de há milhares de anos. Não têm o que comer, porque não têm escolas, se as têm não há carteiras para apoiar os braços e fazer letras, ou os professores também têm fome e dizem um pedacito do que têm para ensinar e vão a outros lados onde há mais crianças iguais e eles não querem ser iguais. Com o Papa Francisco nasce em mim um desejo irrealizável de ser igual, indo ao encontro dos outros, mesmo que tenha de derrubar muros ou rezar de cabeça encostada a um muro de lamentações, uma oração sem palavras, num silencioso escutar a voz de Deus que se confunde com os murmúrios dos que querem a paz. Que maldição Deus guarda até ao fim dos tempos para aqueles fazem armas para enriquecer, postas nas mãos inocentes de crianças, iguais aos milhares que são mortas todos os dias. 
            “Quanta paz e quanto bem, quanta alegria nos vem de vivermos como irmãos”. Não há meio de atinarmos que para sermos irmãos tem de haver um Pai comum. Que a paz tem de ser bebida na fonte. Se não aceitamos o invisível, aceitemos o Papa Francisco, a imagem do que gora que descobre a cara de Deus naqueles a quem o mundo vira a cara. P. Zé Maria






                                                    G  A  I  A T O                             07-04.15

Escrever depois da Páscoa é emocionante, mas muito difícil. Vivemo- la com uma intensidade especial, porque este ano não saímos de Casa para partilhar com a Comunidade Pai Américo, como nos outros. Por um  lado uma tristeza que habitou em mim nesses dias, mas por outro foi muito melhor e creio que muito mais frutuoso. Lá a dispersão dos Rapazes, o barulho que faz a participação, por simples curiosidade de muita gente que só nesses dias aparece. Ia-se tornando folclore religioso, como acontece em Portugal, por muitas terras, banalizando o espírito do sagrado que só no recolhimento é possível. Aqui os três dias fecharam um ciclo de esforço iniciado ao longo de quarenta dias. Foi uma verdadeira caminhada na vida do dia a dia desta Casa, tendo em vista sempre a melhoria de cada um na atenção a si mesmo e aos outros. No Sábado Santo apareceram muitos que estão fora. Alguns que há anos não víamos, nem deles sabíamos. Alguma semente ainda por germinar em terra seca, que espera a oportunidade. Só regressaram na tarde de Domingo.Também na Celebração da manhã, alguns amigos da cidade que depois partilharam da nossa mesa. Foi um tempo cansativo para as pernas trôpegas e inchadas que me carregam. O Lava pés de Quinta Feira Santa de modo especial. Arrastei-me penosamente perante os pés dos  meus Rapazes que lavei e beijei, para que eles sentissem bem a seriedade e necessidade de eles mesmos, sobretudo os mais velhos, terem a mesma atitude diante dos mais novos. É consolador verificar o zêlo que muitos já põem nisso, enquanto outros ainda se tratam com desdém.
Não deixámos de acompanhar que pelo mundo avança uma onda de feroz ódio e atrocidades até de alguns que julgam servir a Deus, tirando a vida a quem nem tempo teve para a viver. É caso para dizer que o demónio anda à solta, na hora em que muitos milhões de crentes, católicos ou não, celebram a verdadeira libertação que Cristo ofereceu a todos. Mas Ele também morto em nome de Deus. Que terrível ironia nascida do livre arbítrio e que responsabilidade perante Deus a da própria humanidade, que nem é capaz de se julgar a si mesma.Parece terrível a palavra globalização. Para quê? Prenúncio de implosão ou de explosão? Esta mudança é catastrófica e só a Cruz levantada é sinal de esperança e de certezas que o homem é chamado a realizar e há-de realizar. Doutro modo Deus também se destruiria a Si mesmo. É tempo de Fé e Comunhão com o próximo. Não tempo de teorias intelectuais e estratégias globais. Há muitas sementes de bem a germinar no subconsciente dos homens. Deus não pára de trabalhar. P. Zé Maria
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Sr Padre Júlio. Só hoje o Ministério dos Estranjeiros entrega a carta autenticada. Ontem foi feriado nacional aqui. Hoje mesmo irá por DHL mas não sei que avião a levará. Se houver hoje amanhã estará aí. Se não só na 5ª feira. Um abraço. Tentei telefonar-lhe na Páscoa e não consegui. Santa Semana Pascal. P. Zé



G A I A T O                      3.5.15
Defendei-me Senhor, Vós sois o meu refúgio. Nesta hora em que há homens malucos e gananciosos que dominam outros através de fornecimento de armas, de manobras políticas sujas, de teimosia de poder, de greves,  fazendo pouco dos outros ou reduzindo-os à insignificância ou até meros que escravos da sua opulência. Os fanáticos que em nome de Deus ou será da sua loucura, matam, destroem e entronam-se como futuros donos do mundo. Há os que perante toda a loucura sarcasticamente castigam as ideias e as loucuras e conseguem desanuviar um pouco a paisagem humana, com desenhos expressivos, com filmes, com mensagens que correm o mundo e dizem que “o rei vai nú”. Quem um dia quiser fazer a história, até vai rir-se de tanta parvoíce, tanta fantochada, tanta asneira e no mar encapelado deste século houve tanta disparidade, desigualdade, desumanidade, atrocidade. Será que no meio de tudo vai triunfar a reconciliação, o amor de irmãos, para os homens que restarem neste mundo descobrirem o Caminho a Verdade e a Vida?
A nossa Casa é um refúgio, autentico dom concedido por Deus, no meio desta confusão. Posso deliciar-me quando, ao fim da refeição, vejo os mais velhos que vêm da cidade a discutir entre si a política corrente, apreciando ou depreciando comportamentos da semana. Olho para eles e penso: o que será o mundo deles se houver muitos que saibam fazer crítica e autocrítica que era um dos apanágios de Samora e que hoje desapareceu da linguagem corrente e foi substituída pelo deixa andar. Delicio-me, no fim da oração do final do dia, com o Chefe a perguntar se alguém tem alguma coisa a dizer e há sempre um mais velho ou nem tanto, porque esses andam nos dezassete, dezoito anos, que em vez de acusarem, se  levantam a dar conselho aos que viram fora do seu lugar de trabalho, ou deixaram obrigações por fazer, explicando como esse comportamento prejudica os outros. Delicio-me quando todos sobem ao refeitório, alguns até pequenos e trazem às cavalitas os mais pequeninos. Como eles aprendem o dever do acolhimento e que lição aos grandes deste mundo, que largam na marginalidade e na extrema miséria milhões, em nome da economia. Deliciam-me as vocações dos nossos rapazes. O Lucas teimou enveredar pelo direito e agora candidata-se a uma bolsa do Japão, que o pode levar para outras paragens. Ironia da sua vida, que teve um princípio tão difícil e agora vê  caminho desafogado para se realizar. Deliciou-nos a todos a vinda do César à mesa do refeitário, com um braçado de peças de roupa dobradas nas mãos. Ele tem doze anos. No início do lectivo pediu para trabalhar na sala de costura, iniciativa dele, que até estranhámos. Pois veio mostrar uma série de aventais de refeitoreiro e quardanapos de mesa com a respectiva saca. Foi ele sosinho que cortou e costurou, para ninguém pôr defeito. Isto fora do tempo de aulas e estudo. Á nossa mesa estava uma visita que dá cursos de corte e prometeu-lhe a admissão a um curso que dá na cidade. Outros três com o curso de hotelaria e turismo feito e praticado em hotéis, durante vários anos, mas a cosinha aprendida aqui, abandonaram os hotéis  e dedicaram-se a uma sala de ginástica onde vai gente de posses. Ao mesmo tempo atendem demandas particulares e até o Alberto Ricardo que estuda nutrição na universdade foi convidado, como melhor aluno, para durante uma semana confeccionar as refeições, todas diferentes, num Congresso. Quiseram saber quem era para o parabenizar. Esta Casa do Gaiato é verdadeiramente um refúgio de bem concedido por Deus e Pai Américo deve estar contente pela pedagogia que nos deixou.P. Zé Maria    





M O Ç A M B I Q U E      30.06.15
Tenho raiva de mim mesmo. Deixo encher a cabeça com tanta coisa, quando só uma é necessária: estar na graça de Deus para escrever estas notas que vão chegar às mãos dos leitores. São as preocupações, as aflições e até as tentações, que Deus permite que me assaltem, quando necessito de paz interior. Ai de mim se não rezar, se não me deixo embeber com as palavras de Francisco que no seu dizer, é um homem normal, que conserva os seus bons hábitos de sempre e não aceita a sumptuosidade com que normalmente era rodeado o Papa. Hoje é dia de São Pedro e São Paulo. Um, pobre pescador, que até depois de ver o Mestre ressuscitado, voltou às suas redes na Galileia: outro letrado aos pés de Gamaliel, devorado de zelo pela Lei, perseguia os cristãos, até que Cristo o atirou do cavalo abaixo e lhe fez ver que não podia mais recalcitrar e tal foi a aguilhoada que se converteu no mais entusiasmado pregador do Evangelho. Esteve na Celebração um grupo de Senhoras da Paróquia de São Gabriel da Matola,que vieram conhecer os seus ”netinhos”  e trouxeram coisas de primeira necessidade que entregaram ao Altar. Belo gesto de partilha cristã! Já têm vindo outros até de Jovens que passam o dia conosco. É também o segundo grupo de Seminaristas a estar quinze dias. Bom fermento da nossa Obra da Rua.
Este é mês da criança. Foi distribuído pelo Governo um folheto com os direitos da criança, mas tão envolvido em reclames de patrocinadores que por aí se pode avaliar os interesses reais por ela. Se há muitas que têm escola há outras que não ou desistiram; se as há  com carteiras, outras não. Se há muitas com mãe ou ao menos pai, outras não. Muitas com família, outras não; muitas atendidas em postos de saúde,  outras não, muitas que estragam comida, outras morrem de fome. Umas com nome e outras não; muitas com todos os privilégios  e muitas sem nenhuns. Enfim. Apesar da oficialização dos Direitos da Criança, as coisas nem nos jornais e tv chamam a atenção. Uma lembrança aos coitadinhos de Senhoras pobrezinhas, até do coração, é o que basta.
Partiu, esta madrugada, um grupo dos nossos a caminho de Espanha, apoiados pelo Real Madrid que tem escolinhas de futebol por todo o mundo para   um torneio internacional, no Santiago Barnabeu. É na mira de descobrir aptidões, que desenvolvam interesse ou “ganâncias” muito bem dito em Espanhol. Já com tempo tiraram o passaporte. Foi o bico dos trabalhos para  que o Tribunal de Menores liberasse a saída. Nada menos de cinco vezes foi preciso lá ir. É a defesa, imposta por Lei, para não incorrerem nas malhas da venda de crianças para fins obscuros. Tudo bem. Mas, toda a vez foi explicado que na cédula de nascimento de alguns, não vem nome de pai ou de mãe, porque se tivesse não estaria aqui; que até um foi encontrado pela polícia que no-lo entregou e nem ele sabe donde veio. Foi dito e redito. Queriam por força  que o pai ou a mãe já morta se    apresentasse ao douto Tribunal para “assinar” a autorização. Depois que fossem os avós apresentados em Tribunal. Alguns são dos confins de Moçambique, outros andam em cadeiras de rodas ou bêbados por costume. A tudo demos réplica. Por fim foi assinada pela Juiza a autorização. Esta tarde quando já vão no ar, perto de Lisboa, nova chamada para a manhã se apresentarem os mesmos com parentes ou vizinhos, mais o que já foram no ano passado, para darem a autorização final. É o que se pode chamar brincar aos tribunais, E tantos jovens na cadeia, sem culpa formada; tantos esquecidos lá dentro, que para o nosso Amigo Padre António, fazer alguma coisa por eles vê-se e deseja-se. De tento teimar já lhe concedem livre trânsito. Enfim, não passam do papel os direitos da Criança P. Zé


                                       M O Ç A M B I Q U E                                   22 .07.15

Este mês é dedicado a Pai Américo. É urgente dá-lo a conhecer. Antes de mais como profissional de êxito, como cristão atormentado com o dinheiro, que viria a considerar tudo o que ele dá, como esterco, deixando tudo para se dar aos Pobres. Aqui em Casa, ouvimos a sua voz na abertura do Filme ”não há Rapazes maus”, inflamada quando prègou em Fátima. Vimos o filme da Casa do Gaiato de Setúbal e do Calvário. Os rapazes mais artistas fizeram pinturas e o Osias já artista consagrado, fez uma cópia muito fiel da foto que lhe tiraram aqui em 1951, quando passou a rever os encanecidos, os Gaiatos que por aqui trabalhavam e lançar o Património dos Pobres. Procurei e não encontrei o filme, mas ele repete-se todos os dias. No 16 com os nossos trabalhadores, alunos externos da tarde e Professores, mais algumas pessoas da Comunidade Pai Américo da Massaca, as meninas do Orfanato e amigos da cidade, a Capela encheu-se com quase mil pessoas, sob a presidência do Sr. Núncio Apostólico. Não tivemos o Papa. Mas ele vinha vestido de branco e foi como se se tivesse abeirado de nós. Celebrámos na nossa Catedral coberta de capim, mas com a cobertura de Deus e de Nossa Senhora do Carmo, a alma a transbordar nos cânticos e danças, a entrada de Pai Américo no Céu para ouvir o “Vem bendito de meu Pai, porque tive fome e me deste de comer”. É bem sabido como ele os serviu, como aos verdadeiros senhores da sua vida. Durante a tarde, as seis Casas apresentaram o que tinham preparado, que com o barulho dos apresentadores e trotear dos pés atroaram os ares. Vieram dizer-me que as colunas da Capela pareciam estremecer. E foram bem forçadas a isso pelos mais velhos. Mas foram os da Casa 2 que melhor atuaram. No Domingo, na Massaca, a nossa Celebração com Batismos de doze adolescentes. O Ofertório foi tão significativo e tantas coisas trouxeram ao Altar que foram distribuídas, no fim da Comunhão, pelos velhinhos ali presentes. Depois na refeição, em Casa, a presença de muitas pessoas da cidade que nos retribuíram cem por um e saborearam a nossa refeição. Ainda houve tempo para dois jogos de futebol entre os nossos e das Comunidades vizinhas. No dia 17 estiveram aqui os actuais responsáveis da APARF. Tão amigos sem nunca nos termos encontrado. Estiveram à nossa mesa e foram ver a Massaca. Deixaram-nos a firmeza do seu apoio, aumentando-o este ano, por causa da assistência aos portadores de Sida. Raoul Follereau deixou labaredas em apaixonados pelo mundo fora. E aqui, neste quarto mundo, aquecem o coração e mantêm a vida em muitos “doentes de lepra e outras doenças”. É na verdade uma endemia que nos atormenta, porque os temos conosco e à nossa volta. No amor todos nos sentimos irmãos.E sem amor não haverá justiça, sem ela não há paz e sem Deus, fonte de amor de paz e de justiça, a vida não presta. Só na segunda-feira o sr Arcebispo pôde estar presente. Trouxe um delicioso bolo para todos e uma bebida para acompanhar. Têm sido dias cheios acrescidos ainda com visitas de trabalho de Portugal e Espanha. P. Zé Maria.



                                                                  M O Ç A M B I Q U E                         01.08. 15

Veio mesmo a propósito, sentar-se alguém ao meu lado, quando iniciava a escrita para o Gaiato. Gosto de estar só. Como terminámos o mês de Pai Américo, lembrou-se, como que envergonhada por nunca o ter dito a ninguém de contar o seguinte: Acompanhou um dia um casal de professores da nossa Casa. Tinham uma menina de meses, muito doente. Fora-lhe diagnosticado um tumor maligno nos rins e ia ser operada. A cirurgia foi feita de urgência e  a criança ficou em coma profundo nos cuidados intensivos. Foi batizada “in extremis” e encomendada a Pai Américo. Os pais precisavam de apoio naquela aflição e ali ficou ao lado deles. Eles choravam, porque as esperanças dos médicos eram nulas. Desenganados, continuaram fora do hospital, todo o dia e noite com um casal amigo em oração. Durante uma semana, naquela angústia,  corriam para o berço da menina, que ao fim de seis dias saiu do coma. Esteve um ano a fazer quimioterapia. Já lá vão dez anos e está cheia de saúde e alegria. Outro caso: veio uma criança no colo da avó a pedir apoio. A situação era crítica, a mãe tinha perdido a vida, vítima de Sida e o  menino estava com um alto nível de má nutrição. Foi encaminhado ao Hospital e diagnosticado portador do vírus de HIV. Foi observado por um grupo de médicos da Comunidade de Santo Egídio e a sua carga viral era muito elevada, havia poucas esperanças de vida. Foi acolhida por uma família que sob orientação médica procurou dar todo apoio que era necessário. Diariamente não faltou um pedido especial de intersecção ao Pai Américo. Depois de todas as análises aos dois anos, negativisou. Os médicos achavam impossível e  nem queriam acreditar. Hoje tem quinze anos e é um dos melhores alunos na Escola onde estuda. Os pais que o acolheram trataram do processo de adopção,  são hoje os mais felizes do mundo e tanto que há quinze anos casados não tinham filhos e um ano depois nasceu uma filhinha encantadora. Quem me contou isto foi quem sempre acompanhou os dois casos, sempre sentiu pudor em contá-lo porque em todo  o percurso da doença os entregou à intercessão de Pai Américo e nunca quis revelá-lo,  embaraçada ou até com pudor  de que  alguém a julgasse uma piedosa fingida e até oportunista. Que pena não podermos ter relatos dos médicos de então. Será que ainda valerá a pena? Por mim penso que não hão-de faltar outros casos em que a ciência se intrometeu, sem esperanças de acertar e o milagre aconteceu. São tão pragmáticos  no Ministério da Causa dos Santos em Roma que é um grande milagre já,  poder passar na rede fina do julgamento final. Mas as coisas de Deus são assim. Nem tudo o que parece é, mas  quem vive com Fé saboreia,  a cada passo, as maravilhas de Deus. Nem pensamos em milagres, mas se não fosse Ele, o que seria de nós nesta Casa do Gaiato com problemas a toda a hora do dia e até da noite? P. Zé Maria.



M O Ç A M B I Q U E                              21.09.15


Eu tenho uma aversão a formigas. Sou capaz de esborrachar com o pé a mais pequena que vir à minha frente. Mas sei  dum homem que um dia reparou  numa formiguinha, que no chão, mexia as pernas sem poder sair do lugar. Pegou nela com mil cuidados, olhou-a, teve vontade de a beijar. Alguém passou e com desprezo passou-lhe um pé por cima. Quase a matou. Mas este homem, como o samaritano do Evangelho, levou-a consigo, preparou lhe o lugar mais acolhedor que pôde. Arranjou comida, talvez açúcar ou bolos ela gostasse. Ela refez-se, mas ficou sempre aleijada. E nunca se soube a que família pertencia. Fora abandonada, mas agora acarinhada.Não lhe faltava nada. E daí o homem pensou que haveria mais formigas como aquela e começou a encontar muitas. Que fazer? Como era bom desenhista pensou num hospital para elas. Reparou que nem todas eram iguais. Umas pequeninas, outras grandes. Umas paraliticas, outras já muito destroçadas dos membros. Algumas só mexiam a boca a pedir comida, outras tão deformadas que a um qualquer causariam nojo. Umas bebés que só mexiam as mãos como sinal de alegria, quando o sentiam perto. Pensou num hospital para as grandes, noutro mais maneirinho para as pequenas, Umas casinhas isoladas para aquelas que por tanto sofrer, precisavam de isolamento. Um lugar onde se confeccionasse o alimento apropriado. Era uma maravilha olhar como vinham em fila para o refeitório aquelas que podiam andar. E no fim da refeição a maravilha repetia-se. Levavam, uma a pão num saco, outra a panela da sopa. Outras o conduto e até uma sobremesa de fruta e doce. Chegados ao hospital aquelas que se podiam mexer-se levavam a comida à boca às estropiadas. Os olhos riam-se de gratidão.O Samaritano eram um homem feliz. Ele até era padre. Transformou para ele um velho espigueiro que ali havia. em Capela. Alargou-o rasgou-lhe janelas onde colocou lindas pinturas em vitral. Um Cristo no Calvário, quase em tamanho natural, atraz do altar. O seu segredo estava ali. Até as formigas o descobriram depressa. E vinham atrás dele quando o viam caminhar para lá. Era um lugar maravilhoso, aquele formigueiro. Pensou num lugar apropriado para quando morressem.Aí teve o primeiro desgosto. Foi chamado ao tribunal dos homens, porque sepultava formigas como se fossem seres humanos. No tribunal segurava um livro na mão e o juiz que até acreditava em Deus,  declarou: “sepultar os mortos é um acto de misericórdia e nã há lei humana superior.” Muitos anos se passaram. Muito desgaste físico o seu corpo suportou. Muitas formigas e formiguinhas  passaram por suas mãos a ponto de já nem poder pegar nelas para os tratar, mas eram o seu maior tesouro. Aliás nunca teve outro. Um dia aparece-lhe uma autordade hirta a dizer: tem aqui uma pessoa para o substituir. Estendeu-lhe uma  carta e ele baixou os olhos até que se fosse embora. Por artes do diabo aparece uma chamada a tribunal. Acusado de maltratar doentes. Sentença de morte! Não pode mais entrar ali onde se gastou. Morre de pé.  P. Zé Maria                             

           
Padre Júlio. Será que assim passa a história do P. Batista? Só digo a verdade e revolta-me interiormente que nos calemos. Quanto de sofrimento vai no coração dele pelo nosso silêncio! Um abraço aos dois



M O Ç A M B I Q U E                               05.10.15


Enquanto o mundo se revolve, Cristo permanece. Era esta frase em latim que Pai Américo mandou gravar na base do Cruzeiro frente à Capela em Paço de Sousa. Já lá vão mais de sessenta anos. E quantas voltas já deu o mundo desde então. E quantas voltas já deu a Obra que fundou. Neste mundo tudo é mudança só Deus não muda. Mas de quanta coisa foi ela o fermento da mudança. Quando começou, dizia um Juiz transmontano: “nós tínhamos o melhor Código de Menores da Europa. Chegou o Padre Américo e tudo foi posto em causa”. Nas visitas ao Barredo, a que chamava terra de mártires de heróis e de santos” não deixava os seus olhos perderem-se nas lages gastas do caminho, nos degraus escuros que subia ou amargura que ia encontrar nos dramas que já conhecia.Admirava a traça dos prédios:” O barredo é bonito.Com suas ruas tortuosas, seus cachorros de granito e varandas de ferro batido; nos seus largos, seus ninhos, e  alminhas - o Barredo é bonito.Se dentro das casas houvesse pão, a Escarpa do Barredo poderia ser mostrada. Assim tem de ser escondida!” Passados muitos anos, o Barredo transformou-se não para os Pobres, mas para dar lugar empresas de marcas e de negócios sem alterar a fachada. Quando no grande arranque do Património dos Pobres, levou de Àfrica o coração a transbordar, para implantar na encosta do Palácio de Cristal, e sobranceiro à Alfândega e ao Douro os seus Pobres. No Bairro que chamou: D. António Barroso, perpetuando a memória do grande Bispo. Era o seu amor à Igreja que lhe brotava do coração. Até esta para vele mudou, hoje. Mas ele andou sempre.Enquanto pisava com o coração as escadas do Barredo, ansiava por um Barredo transformado com casas e armazéns de negócio ribeirinho. Fontes. Pracetas. Mirantes. Jardins. Gente limpa e bem disposta. “Chegado a este ponto de um futuro e segundo volume do Barredo e tendo feito a narrativa da demolição, as ultimas paginas haviam de ser dadas com a notíciada repetição e extensão dos bairros da Corujeira”. Pai Américo era um revolucionário pacífico, mas sabe Deus a revolta  que lhe atormentava a alma, por ver tanta injustiça. Ninguém o deteve no pensar e agir. Mas não chegou a ver a realidade. Desejaria ter vivido “para assistir à demolição, acompanhar os transferidos, ver como se instalaram nas suas novas moradas.” Quantos bairros sociais dos municípios e até da Igreja de Lisboa! Nem tudo mudou, mas é certamente uma página da história de Portugal. Ele foi a consciência social que a fermentou. P. Zé Maria



G A I A T O                                      02.Nov. 2015




Ando a saborear aos poucos o “Cantinho dos Rapazes” feitos de pequenos artigos de Pai Américo, no Gaiato, endereçados aos Seus Rapazes. Digo seus, porque eram ao tempo os que tinha. Muitos temas ali se encontram que têm validade perene. Primeiro porque os Rapazes são iguais, segundo porque os problemas em que hoje temos de os ajudar a enfrentar são os mesmos e ainda porque em vista está a formação da sua consciência, para saberem defender-se no meio adverso, esse sim muito diferente. 
Já pelo meio do livro encontro esta passagem deliciosa: ”abri a vossa inteligência às realidades da vossa Obra. Ela é que é a vossa família. Ela é que dá o leite de mãe, as aflições de pai, o carinho de irmãos. Ela dispõe de todos os meios para vos dar uma situação airosa e decente na vida” Isto vem de encontro ao que dizia noutra crónica. ´” Coração avesso ao mundo, como a famíia é verdade” Se os nossos dirigentes em Portugal abrissem a inteligência às realidades do que se passa em nossas Casas, e tivessem real vontade para ver, ouvir e ler com os olhos da alma, não procederiam conosco como porfiam fazê-lo. Antes aproveitariam de mãos estendidas quanto temos oferecido em bons frutos à sociedade.
Ali fala, logo no primeiro cantinho: “meus filhos. É precioso saber ler e escrever. Mas isso não basta. Há outra coisa muitíssimo mais importante à qual deves atender. Quero me referir à consciência que é uma coisa que te pica naquela mesma ocasião em que praticas acções e te diz se elas são boas ou más. Mas faz mais a consciência, julga-te. E ela é a voz de Deus”. E vai por aí fora a dar os exemplos de rapazes que fugiram e depois voltaram e de como foi a casa de alguns para ver as condições em que vive a mãe que os não pode ter. Por outro lado, fala da formação em nossas Casas, do valor educativo das ocupações mais humildes até às maiores, “porque quem for fiel nas mais pequeninas, também o será nas grandes”, tendo em vista a futura colocação deles em empregos, para corresponder a tantos amigos do Porto, que os querem ao seu serviço. Hoje não se pensa ssim. Trabalho de menores é contra os direitos da criança. Só na idade própria. Nem em família, nem na sociedade. E quem garante que está preparado para assumir a vida quem nunca fez nada? Temos tantos em nossa Casa que fizeram o secundário à noite, trabalhando de dia e com que sacrifício, pelos perigos da noite e estão agora na universidade ou até já formados e começaram aqui em Casa, arrumando a sua cama, o seu quarto, as limpezas de refeitório e da cozinha, acolhendo os colegas no Posto de Saúde ou aprendendo nas oficinas e no campo, onde foram descortinando e amadurecendo a sua vocação. Foram oprimidos? Foram humilhados? Não! Aprenderam as coisas como quem brinca. Aqui em Moçambique até cantam e dançam, ao lavar a loiça. Contrariá-los por isso? Basta o barulho, quando os pratos caem ao chão. E assim vão ganhando alicerces para o seu futuro. Se estivéssemos sujeitos a fiscais e defensores dos meninos, teríamos de fechar as portas, mas nunca dobrar-nos a outros critérios, por mais científicos que pareçam. P.Zé Maria, 





                     M O Ç A M B I Q U E             15.11.15


Liturgicamente estamos ao chegar ao fim. Não um fim determinado, porque até Cristo quando o anunciou aos discípulos lhes misturou o fim de Jerusalém com o do mundo e quando lhe perguntaram quando seria respondeu: onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres. Ora estas duas palavras são mais que atuais. Quantos corpos são estendidos mortos pelo mundo fora desde a Ásia, à África, à  Europa e até à América Latina e a quantos mais lugares nem sabemos e os abutres aí têm os olhos. Não sei se estes ao fazerem o seu banquete grasnam de contentes, mas que fazem barulho ao prepará-lo fazem. Tantas bombas, tantas metralhadoras, tantos aviões de guerra e navios por esse mundo, que se concentrados dariam um tal tremor de terra que abalaria os seus alicerces. São milhões os desesperados que fogem e não há quem os acolha.É preciso classificá-los entre possíveis infiltrados e os desesperados que arriscando a vida procuram um lugar tranquilo. Até se fala em campos de concentração para eles. Quanto sofrimento inocente de que só Deus é testemunha e só por eles, Deus tem piedade de todos e está morrendo novamente neles, pela humanidade desavinda que perdeu o sentido do próximo e o caminho de Deus. E até em nome de Deus se mata. “ É uma heresia” diz o Papa Francisco.  Será a ganância do dinheiro ou a sofreguidão do poder e do prazer de estar por cima dos outros? Será a cegueira da alma se é que a sentem? Querem o mundo para si e ficarão sem quem os sirva! Um nos ensinou a servir aos outros, mesmo aos tiranos. os que servem são os maiores. Se eles o soubessem, o sentissem e compreendessem teriam ódio, mas a si próprios. Nem esperam que há Quem os julgue, porque eles é que são os juízes infelizes de tudo e todos e na última hora, porque morrerão como todos nós, descobrirão uma a uma as tragédias do holocauto que fizeram no mundo, onde quizeram ser imperadores. Subiram ao alto do monte, donde rolaram para o abismo. Os acontecimentos de Paris, nesta última semana fazem chorar  e   odiar ao mesmo tempo e tiram a serenidade para a possibilidade de reverter a desordem, tão culpàvelmente estabelecida e parece-me que mais desordem está a ser incrementada. Só se pensa numa retaliação às fontes do mal. Muitos minutos de silêncio,  bandeiras a meia haste e ramos de flores por todo mundo. Os cristãos mais que ninguém ofendidos, precisamos de levantar as mãos a Deus e orar incessantemente, para que Deus Autor e Senhor de todas as coisas, tenha o Seu lugar no mundo. Ou então cada vez pior.   P. Zé Maria                                                           
                                                
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M O Ç A M B IQ U E      28 de Nov. 2015


A natureza está mesmo zangada, contrariada por não cumprir o desígnio de Deus.   Todo o povo espera chuvas e as trovoadas altas a anunciam, mas a chuva que chega à terra parece mais um arremedo que uma promessa. Porque Deus não falha a quem nele confia, já lançámos algumas sementes de soja e feijão nhemba. Agora vamos libertar a semeador para espaços mais largos . É o milho. Não o temos para ração, para alimentação só em farinha. A África do Sul não tem reservas, nem mesmo o Zimbabwé, até há pouco o maior produtor de África. Ontem foi  rubricado  o primeiro acordo com a Agdveco, empresa inglesa que vai implantar no nosso terreno cerca de duzentos e cinquenta ha de bananal e nos terrenos de visinhos ligados ao mosso, outro tanto. Isso implica antes de mais uma conduta de água, já avaliada em um milhão e meio de dollars, fora a implantação do bananal e o devido sistema de rega para todos. Este, de muitas páginas, é só referente ao campo de ensaios, onde se vão instalar dois ha a servir de escola para os produtores. Os Rapazes estão a encher as bolsas de plástico que foi necessário ir comprar na África do Sul, com areia e matéria orgânica dos nossos currais. Nesta fase ficarão no viveiro florestal, já devidamente arrumado e coberto com rede solar, para que cresçam, pois vêm de laboratório. O transplante, instalação de rega gota a gota, o acompanhamento na limpeza das plantas até à produção e colheita daqui a dois anos, vai servir de escola prática aos futuros donos do bananal. Todo este processo é um enriquecimento para os beneficiados e  uma garantia para nós pela idoneidade das pessoas que estão a trabalhar conosco. Dá vontade de dizer: assim é que se faz. Não é pôr-nos o dinheiro na mão e dizer agora façam. Como em tantos projetos megalómanos por esse Moçambique fora. Quanto se tem perdido e dado até com reta intenção. Quantas pessoas têm sido mandadas embora daqui, que estão a ssegurar projetos, com  a simples razão de “nós também podemos fazer”. Para nós é uma autêntica batalha, não uma guerra claro, que essa ou essas já saturam, não só aqui, mas pelo mundo fora. Grandes guerras estão em curso para calar desesperos de quem não vê saídas para as suas angústias, a ponto de invocar a Deus como único garante do seu direito à liberdade, imolando-se a um ideal que nasce como última esperança. O Papa Francisco apela ao diálogo, para estabelecer pontes de boa convivência. Mas o que vemos e ouvimos são acordos políticos de adesão ao combate. Aviões e porta aviões, bombas de destruição total para erradicar o outro como se só ele  fosse a causa e origem do mal. E este aumenta e alastra. Ninguém se pode julgar em segurança. Nem podemos dizer: estamos na mão de Deus. P. Zé Maria



                          M O Ç A M B I Q U E                                 26 DEZ 2015



Estou a escrever no dia dos Santos Inocentes. Uma data a que a Igreja dá grande relevo, mas a sociedade, mesmo dita cristã, nunca deu alguma importância. Talvez mais para esconder a cara, com vergonha ou até sem ela, do que por não lhe merecer atenção. Aliás banalizou de tal modo a ideia de que uma criança só merece ser gente, após nem sei quantas semanas de concebida e que simplesmente é banal descartá-la para lixo. . Mas naquele tempo, em Belém, cidade pequena em que toda a gente se cconhecia, os brados das mães aflitas e dos pais com impropérios, por lhes arrancarem os filhos dos braços e diante delas os soldados as trespassarem com os seus punhais, foi uma verdadeira carnificina e não havia contra quem reclamar, muito menos contra uma ordem do prepotente Herodes. E hoje? Serão milhões as que são sacrificadas, quer pela permissão das leis, quer pelo recurso a outros meios, aqui entre nós muito vulgares. Se tudo fosse exposto à luz do sol, lado a lado, com o que se faz a outras coisas vergonhosas que se tornaram espetáculo de grande gáudio, pergunto se os homens e as mulheres seriam capazes de manter os olhos abertos. É sem dúvida um acontecimento arrepiante. Hoje queixamos-nos por tudo ou por nada, apelamos a quem de direito, em nome dos direitos humanos, esquecendo os dos outros. E os das crianças? Ninguém suporta contrariedades ou esforço suplementar. Cada um quer é saber de si mesmo. Os pais renunciam a ter filhos ou rejeitam mais, se já os têm. A família não é o que devia ser, arrostando as dificuldades de convivência, repartindo tarefas, sendo exemplo de vida para os flhos, preservando a lei do amor a todo o custo. A nossa grande família desta Casa,despediu-se e foi a casa de alguém: uma avó. uma tia, uma professora, alguma casal amigo que veio pedir o afilhado para passar o fim do ano em sua casa. É importante para eles a experiência do viver numa família pequena. Ficaram só aqueles que não têm ninguém que os queira.       Cerca de trinta. Neste dia dos Santos Inocentes quis celebrar para eles explicando-lhes com cuidado o sentido de estarem ali. Com medo de abrir feridas, falei de tantas crianças sem família, sem casa, sem ninguém. Mas estando na sua Casa estão melhor que todas elas, talvez até melhor que aqueles que foram para algum  lado. Na hora da paz, sentei-me na cadeira e todos me vieram beijar, até os já crescidos Mas celebrei sobretudo para mim para agradecer a Deus o sentido que deu à minha vida, porque deixando, por minha vontade, a minha Família, pude ser o pai de alguns milhares, que nestes cinquenta e sete anos passaram pelo meu coração, chorando ao mesmo tempo o esquecimento da maior parte deles. É o sal, como dizia Pai Américo a temperar, para melhor saborear a verdade da vida. P. Zé Maria 




                   M O Ç A M B I Q U E                                        16.JAN.2016


Encontrei no Cantinho dos Rapazes esta passagem saborosa  e profética: “Virá pempo em que nenhum dos Padres da Rua, terá necessidade de andar por lá de saco na mão, porque o trabalho das nossas Casas responderá  por todas as despezas” É precisamente isso que estamos a tentar na nossa Casa de Maputo. De Paço de Sousa vieram máquinas quase novas para reorientar o trabalho da Carpintaria. Parte dele será com madeira prensada para móveis de cosinha e sala. A outra continuará em madeira massiça. Temos muitas encomendas. A serralharia, para já terá sua parte complementar à Carpintaria no fabrico de carteiras escolares. A Fábrica de Blocos porém está a dar-nos dores de cabeça. O trabalho é muito. Os trabalhadores, vários deles rapazes nossos, têm-se esforçado por ultrapassar as metas, mas até agora não recebemos lucros. Há que rever as contas e porque os orçamentos sofrem de concorrência de centenas de pequenas oficinas à margem da estrada, onde os salários são muito baixos e não podemos ir por esse caminho. Paço de Sousa já deu para uma máquina nova que deve chegar este mês da China. Nem tudo o que vem de la é mau, mas tudo o que vai daqui é muito melhor e se o Governo não põe mão dura acabamos sem madeira.. No Campo é que está o grande problema. Da  horta pouco sobra para venda. O melhor que temos é a couve galega que trouxe de Setúbal e condimenta a sopa e a comida de todos os dias, há quase um ano. Das sementeiras  que fizemos de sequeiro, está tudo perdido. Temos de reduzir os porcos, os pintos e outros animais por não haver milho para rações, nem dinheiro que aguente. Parece que na Zambézia tem chovido e há previsão de boas colheitas, mas é nada para Moçambique inteiro. Aqui vai ser um ano de muita fome. Já contactámos o Programa Mundial de Alimentação, que às vezes tem aparecido, mas este ano ainda estão a organizar-se, dependendo de donativos de doadores. Para já não esperamos nada. A metereologia tem-nos enganado com previsão de chuvas, mesmo para Boane. E nada. Ás vezes uns relâmpagos ao longe. Estou a ouvir no noticiário que a previsão vai até Fevereiro com temperaturas altas, que já estão a produzir efeitos maléficos na saúde de crianças e idosos. Aqui todos os cuidados são poucos para que não aconteça o mesmo e o calor tem subido a quarenta e três graus que quase impede andar fora de Casa, desde a manhâ ao entardecer. Mas vamos confiando em Deus e rezando para que nada de pior aconteça. E voltando ao começo, terei de continuar de saco na mão e procurando a todo custo que em Casa as coisas andem de feição à profecia de Pai Américo. P. Zé    


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Sr Padre Júlio. Estou a mandar hoje a crónica para o Gaiato, porque àmanhâ às quatro horas saio para o aeroporto. Chego à noite.Vou a Setúbal celebrar com P.e Acílio e volto a Lisboa ainda no Domingo. Dia doze de manhã estou no Hospital e não sei quando acabará a via sacra. Logo que possa passo por aí. Se tudo correr bem gostava de dar um pouco de apoio ao P. Batista no Calvário. Depois caso aconteça combinaremos. Um abraço amigo. P. Zé


                                     M O Ç A M B I Q U E   27 de Março de 2016

Vejo a Casa cheia de vida. São os pequeninos que entraram no início do ano lectivo. Alguns tão sedentos de amor que no fim das refeições saltam ao colo da gente, porque são pequeninos e não chegam à cara para dar um beijinho. Outro mais manhoso vem com o seu prato na mão para que a Mãe lhe ponha a comida na boca. Outro quer se chegar à gente e fazendo de conta que não sabemos o nome diz: Fernando, Fernando quê? Fernando Pupula. É gordo dos pés à cabeça, mas já está a tomar as medidas normais, alteradas pelas lombrigas e a fome. Estes são os mais notáveis. Outros ainda não têm peso para a sua idade. Entraram este ano vinte. E outros vinte e seis saíram para cursos profissinalisantes, por em Casa só temos até à décima. A maioria vem de Centros Infantís onde ficaram até agora. Alguns trazem o martírio de serem positivos e ter de viverem dependentes de controlos médicos e com muito sentido de autogoverno em tudo o que fazem. Dizia Pai Américo: “cada um tem a sua história e todos a mesma, eterna porque divina. É da boca das crianças que sai o verdadeiro louvor a Deus. Esta verdade é o fundamento invisível, a única razão de tantos louvores que o mundo dá ao bem que se lhes faz.” A minha alma fica cheia de alegria ao ouvir, em destaque, na oração da noite a voz dos mais pequeninos. Nesta semana Santa a Casa ficou mais rica com os mais velhos a partilhar com os mais novos. Alguns vieram com esposas e filhos. Tem sido assim nas grandes Festas. Sinto-me feliz pelos filhos que tenho, mesmo sabendo que alguns são o que são. É Páscoa, tempo de esperança. Gostava de ter o coração livre para viver este tempo, mas as preocupações do dia-a-dia atrapalham. Desço à fazenda ver as sementeiras. Até um campo de soja que estava a florir, desapareceu sob as ervas daninhas. Nos outros campos nada. Apesar de nos termos acaulelado com sementes de sequeiro. Só capim rasteriro que o gado vai tosando. Ao outro dia passei pelo caminho da Aldeia. Tudo secou e havia milho já crescido. Agora que veio umas chuvas, o povo está semeando pequenos canteiros do resto que reservava para alimentação. Levanto as mãos ao Céu e só me apetece dizer como os Apóstolos: “onde iremos comprar pão para tanta gente”? Padre Acílio já comprou quinhentos Kg de conserva que vão chegar em princípios de Maio, num contentor que está a encher de coisas na Coperol em Frielas, mas de alimentação mais nada. Quem tiver coração e queira ajudar pode falar pelo telefone para Associação Capulana cel 917276549 ou 917272011. 
Vou à cidade e oiço vozes de mau agoiro. O Governo está a afundar-se. A sociedade civil crítica. Este primeiro ano de governação não foi o prometido. Parece que o Presidente está manietado. A guerra aproxima-se. Mortes de um lado e outro. Do lado de cá esconde-se os quantos estão a ser mortos, apesar de tanto material de guerra e do pesado ter passado para lá. Os nossos Bispos reclamam: “Sejamos aliados da vida e não da morte”. Falam dos sinais da paixão e morte, numa analogia clara aos últimos dias de Cristo. E anunciam com clareza o que está a acontecer por aí fora, falando mesmo no agravamento da pobreza e da fome que assolam a zona sul do país. Urge o abandono absoluto das armas e a consequente retomada do diálogo. A ver vamos. P. Zé Maria.



MOÇAMBIQUE                       19.Abril.2016

Há 25 anos atrás, estávamos a preparar o nosso regresso a Moçambique. Quanto entusiasmo! A equipa que tinha vindo em 1967 ajudava em tudo. Pensávamos em todos os detalhes, desde onde ficar, o que fazer e o que trazer. Era tempo de guerra. Por maior que fosse a certeza de tempos difíceis que se avizinhavam, maior era a vontade que tinhamos em vir para estar com o Pobre mais carenciado, na pessoa das crianças órfãs e abandonadas.
Chegou a hora de saída e um autocarro cheio de gaiatos da Casa de Paço de Sousa acompanhou-nos até ao aeroporto. Em Lisboa um grupo de amigos estava à nossa espera. Era hora de despedida, no entanto, não víamos a hora de chegar. No aeroporto, estavam à nossa espera o Padre Ernesto e a Secretária do Sr. Eng.º Braz de Oliveria, que de imediato fez tudo para vencer a burocracia que se levantava.
Os primeiros dias foram de apresentações e tudo o que estava na nossa cabeça quase que se desmoronava. Era uma prova de fé. Lembrámo-nos então das palavras do nosso querido Pai Américo, quando falava de África: “Não levo título, nem credenciais, nem programa, nem nada daquilo com que os homens se costumam recomendar aos homens. Procurador Geral dos Pobres que sou, é justamente em nome deles e por amor deles que vou aí falar das minhas experiências”. Os meses foram passando e a dura realidade foi sendo confrontada.
Os acordos iniciais com o Governo, para recebermos o apoio para o início das nossas actividades já não fazia agora, parte dos seus planos. A Igreja, que também foi a interlocutora neste processo da nossa vinda, passava por muitas dificuldades. Era preciso começar a bater às portas e enfrentar os desafios e as incompreenções. Em todos os momentos, Deus esteve connosco e nunca nos faltou o essencial. A Academia do Bacalhau, que no dia 13 de Abril deste ano celebrou os seus 25 anos, esteve connosco desde o primeiro momento, abrindo-nos muitas portas até ao dia de hoje, como amigos fiéis, nesta luta contra os mais necessitados. O seu papel principal, sempre foi o pautar pela amizade, encaminhando as nossas preocupações a quem de direito. Sendo a Obra da Rua uma Instituição nascida em Portugal foi, por parte dos membros desta Academia, a maior prova de solidariedade para com as crianças moçambicanas.
A primeira pedra do nosso pavilhão das oficinas foi lançada por eles e foi através destas mesmas oficinas que formamos muitas pessoas nas áreas de Carpintaria, Marcenaria e Serralharia, durante a construção desta Casa. Actualmente com as máquinas que recebemos de Paço de Sousa procuramos rentabilizar ao máximo este espaço.
Pai Américo sonhava com Aldeias em África, semelhantes àquelas que eram as Casas do Gaiato  já existentes em Portugal. Voltamos para começar tudo do zero. A guerra cada dia fazia mais miséria. Todos os dias mais amigos se juntavam a esta causa, e hoje estamos aqui para, com grande alegria, agradecer a Deus as maravilhas que ele operou, fazendo chegar até nós tantos corações de mãos abertas para ajudar os que sofrem.
Em Agosto completamos 25 anos de regresso a Moçambique e o que desejamos é que o Pai Américo nos continue a ajudar lá do Céu e a fazer com que a “sua” Obra continue a prosperar e a dar bons frutos.

M O Ç A M B I Q U E       03.05.16

Deixámos de ver e ouvir a voz autorizada e poderosa do Bispo D. Jaime da Beira. Nenhum como ele a levantou  para denunciar e causticar os problema actuais que Moçambique enfrenta. Enfrenta não digo bem porque a classe política desvia sempre a bola para canto fugindo à verdade. Como diz o Salmista: quando falo em paz, logo pensam em guerra. E a verdade está aí, escancarada nos jornais que não dão tréguas  e cada dia vão dando conta dos acontecimentos. Pois Dom Jaime só pensava e falava em Paz. Morreu sem a ver. Muitos, nos elogios fúnebres, prometeram nunca esquecer, a sua obra de amor paz e reconciliação. Mas  nunca o quiseram ouvir enquanto vivo. Pura retórica. Não fosse o homem humilde  e humilhado por não lhe darem ouvidos, seria um revoltado por lutar inglòriamente por um ideal que a sua Fé sempre alimentou. Parece que há uma lista de pessoas a abater, porque são do partido oposto. E a asserção é confirmada por notícias semanais que vão chegando a público. É uma guerra solapada e suja a homens válidos que vão desaparecendo. Uma visita quase às escondidas foi denunciada como a procura de meios técnicos para resolver o problema do opositor angolano, a ser aplicada aqui. Por aí vai Moçambique. Entretanto a seca dizima sementeiras e gado sobretudo no sul e não há preocupação ou se há é a fingir. Não há recursos para enfrentá-la. Não há dinheiros nos cofres públicos. Foram-se em aquisições muito suspeitas de outros bens que encheram os bolsos de alguém. O problema é geral à África austral com reflexo muito grande em Moçambique que depende da África do Sul, donde vêm os bens alimentares. Por via disso o Governo já tomou medidas, de modo a baixar os preços. Os salários não davam, o salário mínimo muito menos. Nós estamos verdadeiramente entalados nestas circunstâncias, As sementeiras perderam-se totalmente. Procuramos alimentação em verduras no mercado grossista da cidade. Teremos de reduzir a criação de gado e porcos que vinha sendo a nossa luta de há anos? Dependemos absolutamente da Providência de Deus e de quem tenha alguma moedinha para nós. Soube que já duas pessoas ouviram o nosso apelo e mandaram para a Associação Capulana. Abençoados corações ,como pedimos a  Deus todos as vezes que nos sentamos à mesa. Estão a chegar todos os dias a nossa Casa, pedidos de ajuda, em trabalho, em qualquer projeto de rendimento, nem que seja comida pelo trabalho. Porque perderam as sementeiras e não tendo nada nas machambas estão a passar fome. Os filhos com fome não vão à escola. Só falta começarem a morrer também. Pedem-nos,e não sabem dizer por amor de Deus, porque nesta aflição até dEle se esquecem, que lhes acuda. Mas nós não e em S  eu nome e apoiados na Sua Providência, vamos dividir com eles do que temos que também nos dão. Como no tempo do profeta Elias não vai faltar a farinha nem o óleo, até que a crise passe. Não sabemos por quantos anos, porque as mudanças climáticas mudaram. O calor sufoca, as chuvas não caem, as trovoadas levam as nuvens para as alturas, o vento carrega poeiras pelo ar. Quando um dia na outra Casa, perguntei aos técnicos que faziam um furo para água, porquê o solo mais profundo era areia, responderam-me que eram dunas recentes de há dez mil anos. Será que volta um novo ciclo nestas terras?. É impressionante, mas mais do isso é assustador que as mudanças climáticas provocadas hoje conscientemente pelo homem, possam arrastar esta casa terrena em que habitamos para o abismo. Entretanto vamos fazer tudo mesmo que saia do nosso alcance e se Deus nos faltar como dizia o Pai Américo,”vamos rasgar os Evangelhos”    P. Zé Maria     


            M O Ç A M B I Q U E                                  29.05.16


Falar de Pai Américo é nomeá-lo com o mesmo carinho com que faziam os seus filhos do coração, os Gaiatos. Conheci-o através do Jornal que era lido no refeitório do Seminário de Almada. O primeiro contacto directo que me lembra nitidamente foi na Ericeira onde, ao tempo a Casa do Gaiato de Lisboa, tinha dois barracões de madeira. Um servia de camarata outro de refeitório e lugar de dormir para os seminaristas que os acompanhavam. Quantas saudades desse tempo e quantos seminaristas ali passaram, alguns deles como eu padres da Obra da Rua, outros que o não foram mas muito o desejaram. Pois dizia, já tinha vindo da praia antes dos Rapazes e estava ele à nossa espera. Alto sorridente a olhar para eles conforme vinham chegando. Não me lembro de mais nada, nem se comeu connosco, nem se o motorista era o Abel. Tudo se varreu da memória. Só ele não. Perdura ainda e apenas a sua figura diante de mim. Marcou-me e talvez tenha pensado, este vai ser dos meus no seu olhar penetrante e profético. Ainda seminarista, já dos Olivais, lembro-me de lhe ajudar à Missa, no Tojal. Com que unção, embrulhado na sua capa antes e depois da celebração, ficava longo tempo recolhido. Os joelhos doíam-me para o acompanhar. Quando ia a Paço de Sousa, a caminho da casa de meus pais, era o mesmo recolhimento e não tolerava, fosse porque fosse que alguém o interrompesse. Gravada tenho na memória a Via-sacra que fazia no fim da Celebração, de manhã bem cedo. Era um homem de Deus que se enchia d’Ele se extravazava depois para os seus. Lembra-me de uma vez ir jantar com ele à casa do bairro, mais o António Teles, chegado de férias do Luabo no Sena Sugar. A conversa foi todo o tempo entre ambos. Ele lembrava os meandros do Zambeze por onde andou no seu tempo do Chinde, Quem sabe um pouco da sua vida e olha ao percurso do despachante despachado, ao comerciante inquieto que ainda antes de entrar no Convento, escreveu talvez centenas de cartas com interesses comerciais ao seu amigo da Madeira, e ao escritor que enchia as páginas do Gaiato, fica abismado com a caminhada que Deus o fez percorrer até se encontrar verdadeiramente com Ele. Como são imprevisíveis os Seus caminhos! Que diferença entre o despachante e o comerciante e o que aprendeu com os Gaiatos, desenvolvendo a verdadeira pedagogia da família “ uma casa de família para os sem família”. O testamento aos seus Padres onde expõe os fundamentos da Obra da Rua vincando com “que jamais ninguém deturpe”. A sua determinação em tudo o que dizia ou fazia, fez estremecer muitos Padres e até Bispos, demonstra a sua firmeza interior, a luz que iluminava os seus passos nas escadas do Barredo e o fez o Santo dos Pobres e no interior da Igreja um percursor do Concílio, vinte anos antes que este fosse. Ele, um Santo de Portugal que quando for canonizado vai indignar e fazer ranger os dentes àqueles que hoje perseguem a sua Obra da Rua. Conservamos em segredo aqueles que a roubaram e ultimamente aqueles que tentam fazê-la desaparecer. Olhem o Calvário. Eles sabem, nós também e Deus muito mais. P. Zé Maria 




M O Ç A M B I Q U E   14.6.16


Esta nossa Casa tem três patamares diferenciados. Um a que podemos chamar o Jardim. São os mais pequeninos de três a cinco anos. Aqueles que no fim das refeições vêem ao nosso colo dar beijinhos e pedir outros tantos ou mais. Frequentam a Escolinha onde começam a rabiscar as primeirads letras e a sala de Artes que serve de observatório para nós avaliamos a sua idade mental. De alguns não temos registo  de cartório. Ainda não aquiriram direitos de cidadania e o que é pior não têm raízes familiares. Tem de haver um trabalho muito grande para saber a sua origem. Nasceram no hospital e porque a mãe morreu de parto, não houve o cuidado de apontar ao menos o seu nome. Há-os que foram vendidos e recuperados pela polícia e aqui vieram parar. Outros vieram do mato e por mais que tentemos a quem pediu por eles, quando muito sabem que têm uma avó muito velha, que passa o tempo bêbada. São os amores desta Casa a quem os mais velhos ao sair do refeitório levam às cavalitas, trocando ternuras, que eles próprios nessa idade não tiveram, criando afetos que os equilibram no seu comportamento. Levantam-se mais tarde que os outros e vão para a cama mais cedo. Ajudam-se a fazer as camas a tomar banho e vestir-se. São verdeiramente os príncipes do nada, como alguém lhes chamou um dia, Que falta fazem nas Casas do Gaiato de Portugal, agora impedidas por uma pedagogia manca de os receber.
Depois, temos os de cinco aos dezoito anos, que vão crescendo e desdobrando as suas tendências que, se más, ao fim da oração em Família, à noite, são admoestados.Desde o mês de Maio que todas as noites    vão lendo o Cantinho dos Rapazes. È uma compilação dos escritos de Pai Américo em que ele escreve para os seus filhos daquele tempo. Servindo-se de exemplos dos Rapazes, os vai puxando à necessidade da formação escolar, da responsabilidade e da humildade, como base para a entrada no emprego. Lá como cá, os Rapazes são iguais e as oportunidades também. Que boa, que oportuna leitura! Por vezes é preciso explicar bem ou até eles fazem perguntas para entender melhor,  o que demonstra não apenas o interesse, mas até o querer  saber melhor quem era o Pai Américo.
Chegados aqui são cento e cinquenta os que ouvem a sua voz. Depois temos os que estudam na cidade, em Cursos médios profissionalizantes ou na Universidade. Uns recebem a mesada pelo Banco, tudo muito bem calculado e lá se haveem. Se pouparem, estão já num bom caminho. Outros é ao fim de semana, os do Lar da cidade. Comida quanto baste e dinheiro para as despezas e continhas muito certas para os trazer seguros e caminharem na vida que os espera.Muitos acabaram licenciaturas e estão bem colocados. É o milagre de Pai Américo que um dia disse que “não há rapazes maus” e se os há, fazem muito bem aos outros. Mas sobretudo o milagre diário que passa pelas nossas mãos de manter duzentos e vinte Rapazes sem termos nada de nosso. Quando virá o dia da sua Canonização? Isso já não milagre mas a justiça emanente de Deus que tamnbém se há-de revelar a seu tempo. Por mim, dou graças a Deus por estar dentro do milagra cada dia.   P. Zé Maria 

MOÇAMBIQUE                               30.06.2016

Ser Padre da rua, não é nada fácil. Por aqui não aparece quem queira arriscar. Ou por medo, ou falta de generosidade não se encontra. Mesmo Congregações religiosas que têm o mesmo carisma,  têm também o seu regulamento interno que não se coaduna ou por horários ou outras orientações, ou devoções que divergem muito. Esta classe de Rapazes exige um acompanhamento de vinte e quatro horas por dia, às vezes dizemos mais, porque um dia é emendado a outro e só acaba quando tudo serena. É uma preocupação muito séria. Este aqui o Rui, com o Curso de teologia feito na Católica do Porto. Pensávamos nós que ele se converteria mas foi-se embora. É um homem generoso, capaz de aceitar qualquer trabalho e aqui muitos lhe foram dados. Amigo dos Rapazes, com certa dificuldade é certo de os serenar na aula, mas tudo isso poderia ter aprendido aqui. Se me perguntarem que é que lhe faltou diria, nada.Mas os caminhos de Deus são insondáveis. Talvez lhe tenha faltado aquela fé que tinha Pai Américo, aquele abandonar-se nas mãos de Deus, como tantas vezes cantavam os Rapazes na Celebração da noite. Eu não lhes  encomendei nada, mas ficava contente e intimamente desejoso de que ouvisse o convite de Deus.Foi-se embora contente de ter aqui estado e nós com tristeza de que não se deixasse prender. Ultimamente num encontro com o Sr Núncio que há-de vir Celebrar conosco nos sessenta anos de Pai Américo, mostrou-se sèriamante preocupado. Logo se propôs falar com o Sr Patriarca de Lisboa de quem é amigo. Aí lhe contei a história triste da Casa do Tojal. De como em vez de um Padre nos exigiu a Casa. Que tenha Padres talvez sim, mas que queiram vir duvido. Basta olhar para o Calvário. Quem se atreve? Está o Padre Batista a sofrer,  estão os doentes a sofrer, talvez mais que ele que tem o conforto da Fé e ninguém vê? É a pobresa escandalosa dos Padres da rua, como dizia Pai Américo é o dar-se aos outros sem nada querer para si, é o desgaste até ao fim? No fundo, no fundo é falta de Fé. Só ela é capaz de arrazar montanhas.          
M O Ç A M B I Q U E                                  28.Junho.2016

Celebramos a Independência de Moçambique, 25 de Junho. As pessoas à nossa volta não tem espirito de festa. A alimentação e as necessidades básicas ultimamente tornam-se muito difíceis para qualquer família. A crise económica, os conflitos, a instabilidade política e a violência aumentam. Diariamente ouvimos com tristeza relatos de acontecimentos vários. Os meios de comunicação tentam confundir o real com o ideal. Ficamos perplexos perante a situação em que o Povo, em silêncio vive amargurado. Alguns dizem: “o que vamos celebrar?”. Quem dera pudéssemos fazer o que o Pai Américo dizia: “prevenir males maiores”. Os mais pobres e as crianças são as principais vítimas deste processo. Segundo comentários, diariamente algumas empresas fecham, deixando os seus trabalhadores sem esperança. Um País que apesar de viver a pandemia do HIV-Sida, tentava sensibilizar à sociedade para a solidariedade, hoje vive a indiferença dos horrores. Há muito que as crianças são obrigadas a assumir responsabilidades de pai e de mãe muito cedo. Agora, não só isto, mas as familias também são afetadas procurando como meio de subsistência o colocar os filhos na rua. Há dias, apareceu em nossa casa um rapaz de 10 anos, acompanhado pelo Chefe de uma aldeia do Chokwé, que vive a 300 km da nossa Casa. A criança vivia com o seu irmão de 15 anos, já está integrado em um grupo algures. Os vizinhos, por temerem o pior, vieram pedir ajuda para o menor. O pai faleceu há 2 anos, a mãe faleceu o ano passado. As crianças ficaram com a avó, que tinha de 12 filhos. Todos faleceram, ficando apenas a mãe das crianças, que foi a última. No início deste ano, a avó perdeu a vida, deixando as duas crianças. É impossível pensar que esta criança de 10 anos tão cedo possa abrir um sorriso. Aí está o verdadeiro trabalho da Casa do Gaiato, ser uma Família para os que não a têm. É difícil ficar indiferente perante actual realidade em que vivemos. Muitas crianças estão a abandonar as escolas. As familias buscam a todo custo algo para comer. Ás vezes, quando perguntamos o que comeram, respondem “cacana” (uma erva amarga que utilizam para caril), e simplesmente “cacana”, não há mais nada para acompanhar. Um saco de farinha de milho, que é a alimentação básica, custa 50 euros e não é fácil de encontrar. Ouve-se falar que a partir de Setembro haverá muita chuva, com probabilidade de cheias. Que Deus ajude a todos nós, nestes momentos em que não sabemos o que dizer e o que fazer para aliviar tanto sofrimento, dentro e fora da nossa Casa. Falta gente para atender sem medidas ao Chamado. Que Deus nos proteja.

MOÇAMBIQUE                    08.Julho.2016

Ser Padre da rua, não é nada fácil. O que vou dizer não é para engrandecer a nós Padres da Rua. “Nós somos uns merdas” dizia Pai Américo, muito a sério diante do Sacrário em Paço de Sousa. Também não para humilhar os outros Padres que não estão conosco e têm mais méritos diante de Deus que nós. É tão somente para afirmar o que somos e desafiar indecisos. Por aqui não aparece quem queira arrisccar. Ou por medo, ou falta de generosidade ou outras razões que melhor é esconder. Mesmo Congregações religiosas que têm o mesmo carisma, têm também o seu regulamento interno que não se coaduna ou por horários ou outras orientações, ou devoções que divergem muito. Esta classe de Rapazes exige um acompanhamento de vinte e quatro horas por dia, às vezes dizemos mais, porque um dia é emendado a outro e só acaba quando tudo serena. É uma preocupação muito séria. Esteve aqui o Rui, com o Curso de Teologia feito na Católica do Porto. Pensávamos nós que ele se converteria mas foi-se embora. É um homem generoso, capaz de aceitar qualquer trabalho e aqui muitos lhe foram dados. Amigo dos Rapazes, com certa dificuldade é certo de os serenar na aula, mas tudo isso poderia ter aprendido aqui. Se me perguntarem que é que lhe faltou diria, nada. Mas os caminhos de Deus são insondáveis. Talvez lhe tinha faltado aquela Fé que tinha Pai Américo, aquele abandonar-se nas mãos de Deus, como tantas vezes cantavam os Rapazes na Celebração da noite. Eu não lhes encomendei nada, mas ficava contente e intimamente desejoso de que ouvisse o convite de Deus. Foi-se embora contente de ter aqui estado e nós tristes por não se deixar prender. Ultimamente num encontro com o Sr. Núncio, que há-de vir Celebrar conosco os sessenta anos de Pai Américo, este mostrou-se seriamente preocupado. Logo se propôs falar com o Sr. Patriarca de Lisboa de quem é amigo. Aí lhe contei a história triste da Casa do Tojal. De como em vez de um Padre o anterior nos exigiu a Casa. Que tenha Padres talvez sim, mas que queiram vir duvido. Basta olhar para o Calvário. Quem se atreve? Está o Padre Batista a sofrer, estão os doentes a sofrer, talvez mais que ele, que tem o conforto da Fé e ninguém vê? É a pobresa escandalosa dos Padres da rua, como dizia Pai Américo “é o dar-se aos sem nada querer para si”, é desgastante até ao fim? No fundo, no fundo é falta de Fé. Só ela é capaz de arrazar as montanhas interiores que há em nós. No fim da conversa houve um compromisso de parte a parte. Nós falaremos com o Sr. Patriarca de Lisboa para a Conferência Episcopal ser alertada. A Obra da Rua é da sua responsabilidade. Ele que é da Venezuela, país no âmbito da Igreja dos Pobres de procurar Padres. Dizia ele que uma Obra, como a Obra da Rua não pode acabar. O vaticano não permite que haja mais Congregações Religiosas, muito menos de âmbito Diocesano. Estas já estão ilegais. Bendita a hora em que o Dom António, Bispo do Porto, nos disse que como grupo de padres no serviço específico dos Pobres estávamos muito bem e dentro dos princípios Conciliares. Olha se não fôssemos isso, estávamos agora proscritos. Pe. Zé Maria

MOÇAMBIQUE                              25.07.2016

No dia 16 de Julho celebramos a festa do Pai Américo, 60 anos da sua partida para o céu. Os rapazes participaram cada um conforme as sua emoções. No mês de Junho todos os dias partilhavamos a leitura dos escritos do Pai Américo no Livro “Cantinho dos Rapazes”. No início da leitura ao pronunciar as primeiras palavras do pai Américo “meus filhos” parecia entrar no coração de cada um e abrir a mente para a mensagem. Os mais velhos formaram equipas e organizaram um campeonato com outros jovens da aldeia. Foram aos canais de televisão para entrevista e organizaram a Celebração Litúrgica com a presença do Rev.mo Núncio Apostólico, Bispo, Pároco e Padres amigos. As pessoas da comunidade organizaram palestras pelas aldeias divulgando a vida e a obra do pai Américo. Nos dias 16 e 17, foram mais de mil pessoas visitaram a nossa Casa e partilharam connosco a alegria contagiante daqueles que no dia-a-dia seguem os ideais do Pai Américo. A nossa Capela estava repleta, gente simples de várias religiões mas com o coração singelo, vieram agradecer as maravilhas que o Pai Américo continua a fazer no dia-a-dia. Na celebração do dia 16, presidida pelo Rev.mo Dom Chimoio na sua homilia foi coeso em falar da Obra e da grandeza da alma do Pai – Padre Américo. Dizia ele: “A sua firmeza, a sua perseverança, o seu espírito de pobreza e a sua vida de oração e o amor aos pobres fez com que os seus seguidores até hoje dedicassem o seu amor em nome de Cristo à continuidade desta Obra”. Aqui em Moçambique tantos rapazes já sairam desta casa e outros irão sair de certeza, é o maior testemunho de que Deus esteve e estará sempre presente em todos os que dão a continuidade deste carisma. O Padre José Maria no fim da celebração pediu ao Senhor Bispo em nome da Igreja Católica em Moçambiquer que olhasse com carinho para as crianças mais pobres e os mais rejeitados e que esta Obra continuasse com o apoio da Igreja Católica... No dia seguinte o celebrante, Rev.mo Núncio Apostólico, que começou sua homilia por dizer que padre Américo foi um verdadeiro revolucionário não só no seu tempo mas para aquele que continuam a sua Obra assumem também este papel perante a sociedade. Os dois dias foram de muita alegria e descobertas. Os rapazes mais velhos a passar mensagens aos amigos, patrões e familiares e de toda a parte apareciam notícias de reconhecimento pela vida e obra do Pai Américo. No salão de festa foi feito uma exposição com fotos do Pai Américo desde criança e os quadro dos nossos artistas da Casa. O mais emocionante foi a supresa feita pelos amigos do Padre José Maria. Um Cristo feito em pau de sándalo escolhido por ele quando trabalhava na Casa do Gaiato que foi nacionalizada no Infulene, levou-o na sua bagagem para Portugal e nesse dia chegou em Moçambique e foi colocada na Capela. Uma verdadeira Obra de Arte Africana que identifica-se por toda simbologia que tras consigo e ele também descreve. Que o Pai Américo continue a nos dar a graça de viver o Evangelho como Jesus disse a Marta e a Maria. Meu irmão, meu pai, minha mãe, são todos aqueles que fazem a vontade de Deus.

MOÇAMBIQUE                               12.08.2016

Como gostava de ter tempo. Felismente que já não tenho. Tantos que morrem em guerras sem tino, em ataques suicidas e eu pacientemente à espera que Deus me chame. O meu fígado já não tem concerto. De dois cancros curados, transformou-se numa criação de cogumelos.

M O Ç A M B I Q U E                                  05.09.2016

   Às comemorações em nossa Casa dos sessenta anos da partida de Pai Américo, juntaram-se aos vinte e cinco anos desta Casa. No dia 16 veio o Sr Arcebispo que depois almoçou conosco. No Domingo foi o Sr. Núncio que presidiu à celebração.A Capela cheia com os nossos, mais todas as pessoas que trabalham na Fundação Encontro, ou são por ela beneficiadas. A Homilia do Sr Núncio, não foi demorada, mas cheia de ensinamentos, muito dele recolhidos nos livros de Pai Américo. Depois foi a Celebração da nossa chegada a Moçambique há vinte e cinco anos. Foi na Catedral. Presidiu D. Carlos. A Sé quase cheia, os nossos Rapazes aprimoraram-se nos cânticos e danças. Muitos Padres Amigos da Obra, Irmãs Religiosas. Transcrevo a sua homilia: “É uma honra e grande alegria para mim poder estar hoje a celebrar com todos vós esta Eucaristia, na qual recordamos e celebramos os 25 anos da volta da Casa do Gaiato a Moçambique. Com efeito a convite da Igreja de Maputo que expressava também um desejo do Governo para colaborar com a sociedade civil na reconstrução do tecido social, a Obra volta para Moçambique e reabre os seus trabalhos que se prolongaram até hoje. É assim que celebramos hoje os 25 anos desta maravilhosa presença da Obra da Rua. Por isso com afecto e gratidão por me terem convidado a partilhar convosco estes momentos saúdo o mais antigo a chegar a estas terras para implantar a Obra e a todos os demais membros presentes e ausentes desta família da Obra da Rua, popularmente conhecida como Casa do Gaiato. Convosco quero dar graças a Deus por este dom à Igreja, o testemunho corajoso que representais e que é gerador de santidade e amor no meio de nós. A vossa presença gratificante nesta Igreja, nesta Arquidiocese de Maputo marcada, por vezes, com enormes sacrifícios, dificuldades e até provações foram sempre enfrentadas e superadas a partir de uma lógica da cruz e de Cristo, tal como Paulo nos recorda. De facto na primeira leitura que escutámos, Paulo nos sugere a uma conversão à lógica de Deus… faz-nos descobrir que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica na cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até as últimas consequências, de gratidão de todos a todos os sacerdotes, colaboradores e demais membros que abraçaram o carisma do Padre Américo e continuam a Sua Obra por entre dificuldades, incompreensões e provações. Imploramos de Deus luz e fortaleza, para saberdes trazer o carisma do Padre Américo com a ousadia profética com que ele soube implantar no seu tempo e com o sentido de contemporaneidade evangélica com que ele o fazia. O mundo melhor que todos nós sonhamos e queremos exige esta presença atuante dos profetas e merece esta acção interventiva da Igreja. Uma Igreja que quer ir ao encontro dos que se perdem diariamente em dramas humanos e tragédias sociais sem ninguém atento ou por perto. Muitos parabéns por estes 25 anos, que Deus vos abençoe todos vós membros da Casa da Obra da Rua. E que Deus nos ilumine a todos nós para que cada um no seu nível e segundo a sua responsabilidade saiba continuar a testemunhar esse amor misericordioso do Nosso Deus neste ano jubilar de misericórdia. Por último quero confiar esta Obra à protecção materna de Nossa Senhora da Conceição, que nesta Igreja é invocada e lembrada de múltiplas formas. Que Ela interceda por nós junto do seu amado Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo”. Dom João Carlos, Bispo Auxiliar de Maputo. No sábado,dia vinte e sete. houve um convívio,em nossa Casa, onde apareceram muitos Amigos da cidade. Houve outro para quem não pôde estar presente, este promovido pela Academia do Bacalhau, com distribuição de medalhas comemorativas. Tivemos ainda no próprio dia de Pai Américo o encerramento do torneio de futebol. E foi tudo para este ano.  P. Zé Maria

MOÇAMBIQUE                                           19.09.2016

Está a decorrer há semanas o encontro das delegações do governo e do opositor. Dum lado as exigências. Do outro as negações são contínuas e teimosas. De parte a parte gente importante mas para nós, incultos da política é teimosia demais, espera desesperada. Uma coisa bastava para fazer andar o assunto: parar a guerra. Mas que fazer agora de tanta maquinaria de guerra, onde arrumá-la e para onde levar tantos soldados? E não se pode chamar destroços de guerra ao que foi comprado há pouco tempo e só despejou morteiros para a Gorongosa. Há notícias de que uma comissão vai a caminho falar com o opositor. Quem dera que o encontra de coração aberto e de braços caídos à espera. As notícias que vamos sabendo são de que não se deu um passo. Voltaram a reunir-se e já passou uma semana e nada transpira para fora. Dizia-me um rapaz que tem na Beira importantes negócios de camiões, que não há guerra nenhuma. O que há são negócios. Os soldados que vão a proteger as caravanas, cobram um tanto por cada e não são poucos, Durante o dia formam-se muitas. De noite têm medo de andar, e quem se arrisca sozinho é surpreendido porque são atacados. Os do outro lado ficaram com as machambas destruídas e precisam de comida. É tudo um negócio. 
Os antigos combatentes pediram armas ao Governo, para arrumar o assunto. Os antigos generais não querem. Dizem que é melhor ficar assim. Certamente porque têm algum interesse nisso. E eles são muitos. Os velhos do Comité da Frelimo, não estão interessados e seriam os únicos a empurrar o Governo para uma decisão. O Presidente vê-se que está manietado. Certamente. Por uma palavra ou outra, percebe-se bem. A sociedade civil tem-se manifestado livremente, sem a dispersão feita pela polícia, como já tantas vezes aconteceu. Entretanto, vão se dando ajudas ao povo, mais pelas ONGs, como furos de água, escolas melhoradas e casas mais seguras. O governo encolhe-se com a seca. Tudo assim explica o não fazer nada, mas aqui nem cheiro de ajuda. Se não fossemos nós, com ajuda da Aparf, já teria morrido muita gente. São mais de duzentas famílias que daqui levam o seu rancho para a semana. Mas há quem ande a apanhar folhas de cacana que é muito rica e faça, com cinza a sua refeição à noite. Uma por dia. É tudo tão confuso que só se explica dum modo: guerra é um grande negócio. P- Zé Maria
       

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Pe. Júlio
Já vi que o Governo vai lançar mão do dinheiro e eu ainda não consegui saber o preço de um contentor de vinte e duas toneladas de milho como não consegui saber o diâmetro dos tubos para cinco Km. Aqui já há uma fábrica de tubos, Talvez sejam mais baratos e não têm o preço do transporte que não é barato nem impostos. Logo que consiga desembrulhar isto. Falo por e-mail para si Um abraço P. Zé


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