EUROPA lares idosos
EUROPA lares idosos
Pandemia, metade das vítimas nos lares de repouso. Turkson:
"Comunidade é cuidar do outro"
É nas estruturas para os
idosos que se registam na Europa quase 50% das mortes causadas pelo novo
coronavírus. Em janeiro último, o Papa recordou que "a velhice é um
privilégio, não uma doença". Conversamos sobre o assunto com o cardeal
Peter Turkson, Prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral.
Andrea De Angelis, Silvonei
José - Cidade do Vaticano
Uma tragédia inimaginável. Foi
assim que a definiu Hans Kluge, diretor regional da Organização Mundial de
Saúde para a Europa. No continente, metade das vítimas da pandemia do Covid-19
se registra em estruturas para idosos. Este número está agora próximo dos 50
mil. "Há uma necessidade urgente e
imediata de repensar a forma como essas casas funcionam hoje e como funcionarão
no futuro", acrescentou Kluge, sublinhando que "as pessoas que trabalham nessas estruturas - muitas vezes com
excesso de trabalho e sem proteção adequada - estão entre os heróis desta
pandemia". Todos, portanto, são novamente chamados a se questionar
sobre a condição dos idosos, com especial referência aos locais e pessoas em e
com quem passam os seus dias. A Igreja, desde sempre, é particularmente atenta
a estas questões.
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Turkson: "Os jovens
têm sempre responsabilidade para com os idosos"
A solidariedade entre as
gerações é um dever em cada cultura e em cada povo, mas "os jovens nem
sempre estão na comunidade ao serviço dos idosos, embora isso deva valer
sempre, é uma tarefa que nunca pode faltar porque se os jovens estão aqui é
devido à presença dos idosos". O cardeal Peter Turkson expressa este
conceito várias vezes na entrevista ao Vatican News. O Prefeito do Dicastério
para o Desenvolvimento Humano Integral recorda como no passado, mesmo nas
comunidades africanas, isto era mais perceptível do que hoje. A sua reflexão
parte da própria natureza do homem, "uma
criatura frágil e imperfeita". Uma condição que também se manifesta no
que "o homem é capaz de realizar, incluindo no que diz respeito aos
cuidados e ao sistema de saúde". "A tecnologia - salienta o prefeito
- fez-nos sentir onipotentes, mas perante esta emergência pandêmica até os
países mais ricos tiveram de lidar com coisas pequenas, como a falta de
máscaras".
Os idosos devem ser
valorizados
O prefeito do Dicastério para
o Desenvolvimento Humano Integral coloca então a sua atenção sobre a própria
essência da comunidade, "que se
torna viva - diz - pela presença de alguém que sabe cuidar do outro".
Os idosos devem ser valorizados, disse muitas vezes o Papa Francisco”,
sublinhou o cardeal, acrescentando que nunca deve faltar gratidão e
solidariedade para com eles. "Não esqueçamos outra fragilidade: existem
diversas ideologias", disse o cardeal, "que influenciam a forma como
vivemos a vida, que de certo modo limitam os nascimentos e criam assim
situações em que os idosos têm sempre falta de jovens para cuidar deles". Na maioria dos lares para idosos não são os
jovens, por assim dizer, que cuidam deles, ainda que isso seja um
dever".
Palavras e sentimentos
As palavras do cardeal Turkson
encorajam-nos, assim, a refletir sobre os termos utilizados. A casa, vamos
tentar imaginá-la, é onde crescemos durante a infância, e é certamente aquela
pequena parte do mundo onde construímos as nossas vidas. Há muitas pessoas que
decidem transcorrer a parte final da vida numa estrutura, seja porque estão
sozinhas ou simplesmente ansiosas por viver os últimos anos das suas vidas de
uma forma comunitária. Outros, porém, não têm alternativa e muitas vezes, mesmo
contra os seus desejos, vivem em realidades que dificilmente podem se chamar
"casas". Isto não é para diminuir o precioso e louvável trabalho
daqueles que, nessas estruturas, dedicam diariamente as suas energias aos
idosos. Pelo contrário, não é raro estes trabalhadores serem as únicas (ou
quase) referências - mesmo em nível emocional - para milhões de homens e
mulheres em todos os cantos do mundo. A intenção, sim, é abrir uma reflexão
mais ampla sobre o ser idoso no século XXI. O Papa Francisco disse isto há
alguns meses: "Ser idoso é um
privilégio". A velhice não é uma doença".
Os anciãos são testemunhas
privilegiadas do amor de Deus
"A velhice não é uma
doença, é um privilégio! A solidão pode
ser uma doença, mas com caridade, proximidade e conforto espiritual podemos
curá-la". O Papa disse isto em 31 de janeiro passado, encontrando no
Vaticano os participantes do primeiro Congresso Internacional de Pastoral para
Idosos, centrado no tema "A riqueza dos anos". Quando se pensa nos
idosos, observou Francisco, é preciso aprender a mudar os tempos verbais.
"Não há apenas o passado, como se, para os idosos, só houvesse uma vida
atrás deles e um arquivo bolorento". "O Senhor - explicou o Papa -
pode e quer escrever com eles também novas páginas, páginas de santidade, de
serviço, de oração". Também os idosos "são o presente e o amanhã da
Igreja". "O plano de salvação de Deus - disse novamente o Papa - é
também realizado na pobreza de corpos fracos, estéreis e impotentes. Do ventre
estéril de Sara e do corpo centenário de Abraão, nasceu o Povo eleito. De
Isabel e do idoso Zacarias nasceu João Batista. O idoso, mesmo quando é fraco,
pode tornar-se um instrumento da história da salvação".
O mundo e a Europa
O número dramático divulgado nestes dias diz respeito, portanto, ao
continente europeu, onde Kluge representa a Oms. Deve-se dizer que a Europa tem
hoje a idade média mais elevada do mundo de cidadãos com 43 anos, dez a mais do
que os 33 anos da América e da Oceânia, à frente de 30% da Ásia (31 anos de
idade) e até mesmo 25 anos além do continente africano (onde os cidadãos têm em
média 18 anos de idade). Além disso, a esperança de vida na Europa - tal como
foi reportado pela Oms em 2018 - ultrapassou recentemente a de outros
continentes, embora o país que lidera esta classificação específica continue
sendo o Japão, com 84 anos.

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