VOCAÇÕES em comunidades vivas
VOCAÇÕES em comunidades vivas
Entrevista de D. Nuno a JM
D. Nuno Brás: Vocações nascem de comunidades cristãs vivas
3 Maio, 2020
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| Foto: Duarte Gomes |
Neste domingo, Dia do Bom Pastor, chega ao fim
mais uma Semana de Oração pelas Vocações. Chega também ao fim a publicação de
uma série de entrevistas que foram conhecendo a luz do dia ao longo da semana,
com o intuito de motivar pelo exemplo. Para encerrar este ciclo publicamos hoje
uma conversa com D. Nuno Brás, bispo desta diocese, em que ele nos fala um
bocadinho do seu percurso e em que partilha também ideias fundamentais como a
de que as vocações nascem em comunidades cristãs vivas, onde existem
grupos de jovens que vivem entusiasmados com a vida cristã.
Jornal da Madeira – Chega hoje ao fim uma Semana de Oração pelas Vocações
vivida num contexto diferente do habitual, mas eventualmente mais de acordo com
aquele que é o propósito da semana que é a oração…
D. Nuno Brás – Teoricamente sim. Embora depois a minha experiência
diga, a minha experiência própria também, que quanto mais coisas fazemos, mais
fazemos e quanto menos coisas fazemos, menos fazemos. Ou seja, aquilo que é
teoricamente ter mais tempo, muito possivelmente depois acaba por ser
desperdiçado. Mas eu espero que sim, que este apelo à oração pelas vocações
tenha chegado a todos e que todos, de uma forma ou de outra, mais ou menos
tenham rezado pelas vocações porque esse é o objetivo primeiro da semana.
Jornal da Madeira – Mas só a oração não basta para combater a atual crise
de vocações. O que se pode e deve fazer mais?
D. Nuno Brás – Vamos lá ver. Pode-se combater com maior vida cristã.
Quanto a isso não tenho dúvidas. As vocações não surgem assim do nada. Sim,
haverá uma ou outra que surge de uma família que não é cristã, eu conheço
alguns sacerdotes que surgiram de famílias que não eram cristãs. Mas isto são
sempre exceções. Aquilo que é o normal é que as vocações surjam de comunidades
cristãs vivas, de comunidades que têm grupos de jovens que vivem entusiasmados
com a vida cristã. É isso que nos faz escutar Nosso Senhor, é isso que nos
faz ouvir o apelo, ouvir o chamamento e começar a perceber o que Nosso Senhor
nos diz: então se fores tu? Estás disponível? Porque senão, andamos tão
distraídos com todas as coisas, que nem sequer damos por aquilo que o Senhor
nos diz. É mais uma palavra ao lado de tantas outras, é mais um apelo ao lado
de tantos outros. E nós vamos fazendo aquilo que nós queremos e nós achamos.
Jornal da Madeira – Também podemos chegar
lá pelo exemplo, ou seja, os jovens podem ter figuras de referência?
D. Nuno Brás – Sim, claro. Creio que todos os sacerdotes, de uma
forma ou de outra, têm no seu horizonte uma figura de referência: o pároco, um
sacerdote que conheceram, alguém com quem estiveram. Às vezes até um leigo ou
uma leiga, um catequista. Quando essa figura é um sacerdote é aquele querer ser
padre como…. Obviamente às vezes idealizando as pessoas e achando que aquela
pessoa é a pessoa mais santa que encontramos na vida e depois percebendo que
não é assim. É como os nossos pais. Quando nós somos crianças olhamos para
os nossos pais e queremos ser como eles. Mas a uma dada altura percebemos que
são humanos e têm defeitos, mas são os nossos pais.
JÁ DEPOIS
DE EU SER PADRE, A MINHA MÃE CONTOU-ME QUE TODOS OS DIAS REZAVA PARA PODER TER
UM FILHO PADRE
Jornal da Madeira – No seu caso, teve essa
figura de referência? Quando é que sentiu o chamamento?
D. Nuno Brás – Ui…isso é uma história muito complicada. Vamos lá ver,
isto não acontece assim de um dia para o outro. Agora, olhando para trás, lá
está, nasci numa família cristã. Um dia, já depois de eu ser padre, a minha mãe
contou-me que todos os dias rezava para poder ter um filho padre. Depois tive
boas catequistas, várias, uma comunidade paroquial única, o exemplo de facto de
um sacerdote. E depois o ter sido eu também catequista. Isso obrigou-me a
pensar a fé e a perceber que tudo tinha uma razão e que nada disto era
irracional. Depois, na Diocese de Lisboa, sobretudo na zona rural, no pós 25
de abril, havia as chamadas assembleias de jovens. Cada arciprestado tinha
uma assembleia e os jovens desse arciprestado reuniam-se e passavam o dia com
trabalhos de grupo, momentos de divertimento, com a celebração da Eucaristia,
orientados por um sacerdote do Seminário de Almada. A partir daí, a partir
desses encontros voltava a questão: Porque não eu? A dada altura houve um
dia, no dia da missa nova do então jovem Pe. Manuel Clemente, de quem eu era
amigo porque estávamos no escutismo, na hora da refeição fui convidado pelo
senhor cónego Joaquim Duarte, do Seminário de Almada, para passar uma semana, a
semana de Agosto no Seminário. Eu fui. A meio da semana, que tinha como lema
“tenho pena desta multidão, são como ovelhas sem pastor” dei comigo a olhar
Lisboa e aquela frase não me saia da cabeça. Pronto. Eu tive a percepção de que
era chamado a ser pastor daquela multidão que estava ali e de quem nosso Senhor
tinha pena e que se chamava cidade de Lisboa. Foi um enamoramento muito próprio
por Nosso Senhor e um enamoramento muito próprio pela cidade de Lisboa. Depois
as peripécias foram várias. Só entrei no seminário no ano seguinte. Foram sete
anos de seminário, obviamente com muitas questões…
Jornal da Madeira – Já lhe ia perguntar
isso mesmo: se ao longo deste percurso teve dúvidas?
D. Nuno Brás – Claro que houve. Houve muitas questões. Houve alturas
em que estive quase para fazer as malas e vir embora. É assim… mas fui ficando.
Fui ordenado diácono a 1 de dezembro de 1985 e depois sacerdote no dia 4 de
julho de 1987, pelo saudoso cardeal Ribeiro. A partir daí foi uma vida de padre
quase pelo mundo inteiro.
Jornal da Madeira – Voltando um bocadinho
atrás, suponho que a família terá ficado feliz com a sua decisão. A sua
mãe então deverá ter ficado felicíssima, tendo em conta o que
atrás nos disse?
D. Nuno Brás – Num primeiro momento a minha família reagiu com
surpresa. Não é que fossem contra, mas ficaram surpreendidos. Eu tinha mantido
tudo em segredo. Depois, recordo-me que quando vim pela primeira vez a casa,
uns 15 dias depois de estar o seminário, vi a alegria das minhas catequistas,
das pessoas da paróquia. Aí foi uma surpresa para mim também, porque não estava
à espera dessa reação. Obviamente que havia sempre a possibilidade de eu sair…
Quem entra para o seminário tem sempre duas possibilidades: ou ficar ou sair.
Olhando para trás fica a pergunta: o que é que eu teria sido, se não fosse. Não
sei! Os ‘ses’, como eu costumava ensinar na Faculdade de
Teologia, não fazem parte da Teologia. Depois há este desígnio de Deus para
cada um de nós. Este procurar acertar e corresponder ao desígnio de Deus, creio
que é o segredo. E vamos construindo a nossa história pessoal, a história das
nossas comunidades, a história do mundo que nos rodeia, e queremos construí-la
com Deus.
AQUILO QUE É O NORMAL É QUE AS VOCAÇÕES SURJAM DE
COMUNIDADES CRISTÃS VIVAS, DE COMUNIDADES QUE TÊM GRUPOS DE JOVENS QUE VIVEM
ENTUSIASMADOS COM A VIDA CRISTÃ. É ISSO QUE NOS FAZ ESCUTAR NOSSO SENHOR,
É ISSO QUE NOS FAZ OUVIR O APELO
Jornal da Madeira – Tinha muitos colegas
na sua altura de seminário? Lembra-se de quem eram e de onde eram?
D. Nuno Brás – Nessa altura havia muito poucos. Depois da chamada
crise do seminário, que começou em 67/68 e teve o seu ponto alto em 69/70,
houve uma longa reconstrução do seminário. O meu curso foi o primeiro depois
desse período. Lembro-me que foi nesse ano que os alunos do Funchal foram pela
primeira vez para o Seminário de Lisboa. Era um grupo de quatro, acompanhados
pelo senhor cónego Conceição. Nós estávamos a sair de um encontro quando eles
chegaram, um bocadinho mais tarde por causa da viagem, certamente. Nessa altura
éramos 19. Lembro-me que havia muitos alunos de Bragança, mas saíram
todos, de Santarém, de Portalegre e Castelo Branco, Lisboa e Madeira. Ficamos
aí uns dez, incluindo os três madeirenses que foram ordenados. Nos anos
seguintes Lisboa continuou sempre com poucas ordenações. A partir de 1978 foi
tendo uma ou duas ordenações o que, digamos, para uma Diocese como Lisboa é
muito pouco.
Jornal da Madeira – Depois de todo esse
percurso, o que é que se sente no dia da ordenação? Que memórias guarda desse
dia?
D. Nuno Brás – Nem sei… Vamos lá ver. Recordo-me de amigos meus que
vieram de longe, de França, para estar na ordenação. Recordo-me das mãos do
senhor patriarca em cima da minha cabeça. Mas sabe estes dias as ordenações,
diz uma pessoa que eu conheço, são dias sem pés nem cabeça, porque chegamos ao
fim e já não sabemos onde está a cabeça e não sentimos, absolutamente, os pés.
Isto para dizer que são tantas coisas, tantas pessoas, que a uma dada altura ou
não damos atenção a ninguém e passamos por malcriados, ou se queremos estar com
as pessoas depois, enfim, são tantas coisas e tantas pessoas que… Mas
sim, recordo-me da imposição das mãos, recordo-me da celebração claramente e
recordo-me também da Missa Nova. As pessoas da terra mobilizaram-se todas,
também para o jantar. Umas trouxeram uma coisa outras trouxeram outra e houve,
de facto, uma partilha muito bonita.
Jornal
da Madeira – A partir daí começa a vida de sacerdote…
D. Nuno Brás – A partir daí fui vigário paroquial da Paróquia de
Nossa Senhora dos Anjos, na Almirante Reis, em Lisboa. Aí tive uma boa
equipa sacerdotal – era o senhor Pe. João de Sousa, o senhor Pe. Alexandre
Beirão, beneditino, o senhor Pe. Hipólito – que me ajudou muito.
Reuníamos todas as quintas para preparar a semana, para rezar, para estar uns
com os outros, para almoçar. Foram três anos muito bonitos, sobretudo porque eu
estava a viver na casa patriarcal, o que me deu a possibilidade de conviver com
três grandes homens que me marcaram muitíssimo. Em primeiro lugar o senhor D.
António Ribeiro, um gigante da Igreja a quem Portugal e a Igreja em Portugal
devem muitíssimo. O sr. D. António Rodrigues, talvez dos homens mais
inteligentes que eu conheci, senão mesmo o mais inteligente e o senhor D.
Albino, um amigo, que tinha sido vice-reitor do Seminário de Almada, que fazia
com que eu, um jovem sacerdote, me sentisse mais à vontade no meio
daquelas eminências todas. Foram três gigantes, de facto, com quem eu tive o
privilégio de privar naqueles três anos. Depois fui para Roma estudar, estive
três anos no Colégio Português. Depois regressei para o seminário, para
professor da Faculdade de Teologia, onde fiquei até 2002, altura em que
regressei a Roma. Em 2005 regresso como Reitor do Seminário.
É UMA DOR QUE EU TENHO NÃO PODER TER MAIS SACERDOTES A
TRABALHAR COM OS EMIGRANTES, E É RARO O MÊS QUE NÃO ME CHEGAM APELOS. MAS SE EU
RETIRO DAQUI PARA IR PARA ALI FICA SEMPRE UMA FALTA. ISSO É UM DRAMA, MAS
ENFIM, TEMOS DE VIVER COM ELE.
Jornal da Madeira – Enquanto Reitor do
Seminário o que é que lhe custou mais?
D. Nuno Brás – Eu fui membro da equipa formadora do Seminário a
partir de outubro de 1993. Desde então fui acompanhando diversos cursos até
àquele fatídico 2002. Fatídico porque eu tinha ido a Roma dar umas aulas de um
curso intensivo de comunicação social e acabo por partir a perna a jogar
futebol. Depois, quando eu achava que o senhor D. José Policarpo me ia
simpaticamente visitar, ele foi de facto, mas para me dizer que eu ia para
Reitor do Colégio Português em Roma. Foi uma surpresa muito grande. Fiquei três
anos em Roma, onde tive a graça de viver o abril de 2005 que fica gravado como
o mês do falecimento de São João Paulo II, a 2 de abril e depois a eleição do
Papa Francisco. Como Reitor do Seminário sabia que tinha, por assim dizer, a
última palavra em relação à ordenação. Claro que a última palavra é sempre a do
bispo, mas se o reitor disser, senhor bispo ordene este rapaz, em princípio ele
ordena. Também se o reitor disser, tenha paciência, mas este não, ele também
respeita. No fundo trata-se de decidir sobre a vida e o futuro de uma pessoa.
Eu nunca tive a pretensão de acertar em todas as minhas decisões. Tive a
pretensão de procurar acertar, isso sim. Tive e tenho apenas a pretensão de
procurar acertar, pensando e decidindo com os elementos que temos à nossa
disposição. Nosso Senhor fará melhor… Claro que outras pessoas com mais jeito,
mais intuição farão melhor, não tenho dúvidas disso nem a pretensão de ser
mais esperto do que os outros. Mas de facto essa é uma responsabilidade muito
grande. Trata-se de decidir não apenas a vida daquela pessoa, mas de decidir a
vida das paróquias onde ele vai ser padre, bom ou mau padre, da diocese que ele
vai servir. Umas vezes diriam, se o senhor não tivesse dito para ele ser
ordenado esta paróquia, esta diocese, não estaria a sofrer. Mas depois também
acontece o contrário: eu dizer não, não sejas ordenado, e apesar disso ele
poder vir a ser um grande padre. Privo assim aquela paróquia de ter um pároco e
aquela diocese de ter um padre. Há sempre aquela historieta de um seminarista
que é convidado a sair do seminário pela equipa. Insatisfeito com a
decisão, ele entra no seminário de uma diocese vizinha e é ordenado sacerdote e
mais tarde bispo da primeira diocese. Quando foi a ordenação de bispo, no
final, lá aparecem os velhos superiores do seminário para falar com ele. Ele
não se conteve e diz-lhes “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se
pedra angular”, a que os superiores responderam “tudo isto veio do senhor, aos
nossos olhos é um milagre”. Tudo isto para dizer, que temos de desmistificar
muito esta situação. Não há certezas. Decidimos com os dados que temos nas
mãos, com a observação que fazemos e sempre procurando o melhor para a Igreja e
para as pessoas.
Jornal da Madeira – E o melhor para a
Igreja, e para as pessoas, seria que houvesse mais sacerdotes, para os poder distribuir
pelas paróquias?
D. Nuno Brás – Sim, isso seria teoricamente o ideal. Mas vamos lá
ver, nós temos paróquias que, neste momento não teriam capacidade para
sustentar um pároco, porque são muito pequeninas. Na altura que foram criadas,
sim eram grandes paróquias, mas hoje não o são e é preciso ver toda essa
realidade. Mas sim, os padres fazem sempre falta. Mesmo que não façam falta
para a sua diocese farão falta para outra. E depois há outros serviços. Por
exemplo, é uma dor que eu tenho não poder ter mais sacerdotes a trabalhar com
os emigrantes, e é raro o mês que não me chegam apelos. Mas se eu retiro daqui
para ir para ali fica sempre uma falta. Isso é um drama, mas enfim, temos de
viver com ele. É preciso que os jovens saibam estas realidades e ao que vêm. A
generosidade que caracteriza os jovens passa também por aí.
SER SACERDOTE HOJE É IR CONTRA A MODA, IR CONTRA
AQUILO QUE A MAIORIA PENSA. POR ISSO É PRECISO CORAGEM.
Jornal da Madeira – Que mensagem deixaria
a um jovem que estivesse na dúvida quanto à sua vocação?
D. Nuno Brás – A mensagem é sempre para a necessidade de escutar o
apelo de Deus. Ou seja, se Deus não nos quer como padres não vale a pena
querermos ser padres. Agora, se Deus nos quer como padres vale a pena seguir
responder aos apelos de Deus. Portanto, escutem os apelos de Deus. Sendo que os
apelos de Deus não são pelo mais fácil. Não é que o Senhor queira andar aí
assim a fazer coisas difíceis só porque sim. Este escutar o apelo de Deus, por
mim passou por ver aquela cidade de Lisboa. É, pois, preciso muita atenção e
toda a honestidade para reconhecer o apelo.
Jornal da Madeira – E também é preciso um
bocadinho de coragem, como diz o papa?
D. Nuno Brás – Sim é preciso coragem. Sobretudo nestes tempos que
correm, ser sacerdote não é nada fácil. Quando ser padre significava ter um
estatuto social, quando ser padre significava uma boa vida era uma coisa,
mas agora já não é assim. Além disso, ser sacerdote hoje é ir contra a moda, ir
contra aquilo que a maioria pensa. Por isso é preciso coragem. São João Paulo
II, Karol Wojtyła, era um jovem que andava pelos teatros lá da
Polónia. A dada altura, quando ele entrou para o seminário, lá o encenador, o
chefe do grupo de teatro disse-lhe que ele pensasse bem porque ele seria um
excelente ator, de nível internacional e iria dar um padre médio. E ele pensou
e entrou para o seminário. No fundo, é muito esta sedução que se faz hoje
aos jovens: pensa bem, tu vais ser um excelente presidente do conselho de
administração das empresas e vais dar um padre normal; ou pensa bem, vais dar
um excelente pai de família, com uma família cor de rosa, e vais ser um padre
assim… É esta tentação sempre que tantas vezes se apresenta aos jovens. É
preciso coragem, claro. Por isso é importante que sempre que tiverem dúvidas, e
porque o discernimento se faz em Igreja, os jovens procurem ajuda.



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