SER HUMANO O grande enigma (1)

SER HUMANO
O grande enigma (1)
É possível que Deus exista, mas também pode não existir. O grande enigma da vida de cada homem, é o enigma da verdade metafísica última do universo: Deus como fundamento último ou um puro mundo sem Deus?
Com Deus, dá-se a esperança da vida plena para lá da morte; num puro mundo sem Deus, a existência desemboca na aniquilação total enquanto pessoa. O ser humano é sempre confrontado com a eternidade: a eternidade da plenitude em Deus ou a eternidade do nada.
Todo o ser humano deseja e quer viver uma vida plena. Pela sua própria constituição, é desejo de vida, de tal modo que põe a questão da esperança para lá da morte. E depara-se com o enigma do universo, ao aperceber-se de que, para lá da "aparência", do que se mostra do mundo onde decorre a sua vida, há um fundo abismal, metafísico, que o leva a perguntar pela sua verdade última. Mas precisamente essa verdade última do universo não é evidente, patente, nem para os sentidos nem para a razão, o que constitui fonte de incerteza e, consequentemente, de insegurança e inquietação metafísica.
Na história da humanidade, encontramos desde sempre a ideia religiosa: o universo, desde as suas dimensões metafísicas desconhecidas, está dominado por um Ser pessoal, a que se podia recorrer e que poderia salvar para lá da morte. A construção e vivência das ideias religiosas, com Deus e a referência a um para lá da morte, acompanham a humanidade desde a pré-história.
Com as grandes religiões, "consumou-se pouco a pouco, e de diversos modos, a introdução do metafísico na vida humana." E embora nunca ninguém tenha visto Deus, "o conteúdo das crenças religiosas e a sua ideia do divino chegaram a aceitar-se como algo quase evidente, que ninguém podia pôr em dúvida sem submeter-se à rejeição social". As sociedades entraram num dogmatismo teísta: a verdade religiosa era inquestionável, assegurada pela razão, as emoções, os interesses vitais, a tradição, a coesão social.
O próprio cristianismo, dentro dos pressupostos filosóficos e sociopolíticos do universo greco-romano, interpretou-se dogmaticamente. O paradigma greco-romano impôs-se como teocêntrico - "a razão conhecia com certeza absoluta a existência de Deus e a vida humana só podia ter Deus como centro essencial de referência, isto é, não era possível uma ideia do homem sem Deus" - e teocrático - "Deus era o único ponto de referência possível para organizar a sociedade civil e entender a origem do princípio de autoridade: na lei natural divina ou na lei positiva de Deus pela revelação".
Mesmo assim, houve sempre seres humanos que desconfiaram desta convicção. Foi a partir dos séculos XV, XVI e XVII que teve início o movimento cultural da modernidade, sendo ele a tornar possível que "pela primeira vez se formulasse uma alternativa rigorosa ao pensamento teísta. A possibilidade de entender o universo sem Deus e, por conseguinte, viver uma vida individual e social sem Deus, na imanência do mundo, adquiriu carta de cidadania".


Depois, deu-se o enfrentamento de dois dogmatismos: o dogmatismo religioso e o dogmatismo ateu. Nestas condições de confronto, não era possível a mútua compreensão. Mas no século XX, com a nova ciência, operou-se uma mudança crucial, que obrigou a passar da modernidade dogmática à modernidade crítica, e o enigma do universo e a incerteza metafísica abriram ao teísmo e ao ateísmo críticos. E assim temos: é possível que Deus exista e é possível um puro mundo sem Deus.  FONTE: Anselmo Borges, in DN opinião,

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